O ódio como alimento

Teme perder o que conquistou em matéria de ganhos e conforto econômico. Essa elite apoiou (e apoia, embora crescentemente decepcionada) o atual governo. Fecha os olhos para a sua falta de preparo, para a inclinação pelos favorecidos, em prejuízo dos demais, para a sua retórica de violência e para a incontinência do seu discurso, que infringe o decoro



Sociedades que foram palcos de grandes crimes (massacres, genocídios, injustiças) e não lograram corrigi-los, cedo ou tarde pagam preços elevados. Tais catástrofes desabam sobre os descendentes e os obcecam como se fossem os responsáveis. Herdam um gosto de fel, de ressentimento, que não abandona o paladar. Alguns desses descendentes se arruínam por isso; outros, imaginam tirar proveito do tema e o exibem em suas opiniões. Políticos de boa qualidade, conscientes dos problemas, se esforçam para aprovar leis que garantam algum tipo de reconciliação, sabedores da violência que deixam no cotidiano. Mandela, na África do Sul poderia ter virado os acertos de cabeça para baixo. Pensou e decidiu que não. Mostrava-se imperativa uma convivência mútua, já que todos dividiriam a história e o país.

No Brasil, temos deitado eternamente no “berço esplêndido” das nossas frustrações e nos recusamos a enfrentá-las. Não distribuímos renda e não reconhecemos dívidas históricas. Boa parte da nossa elite herdou a memória dos erros e as vive como ressentimento. Teme perder o que conquistou em matéria de ganhos e conforto econômico. Essa elite apoiou (e apoia, embora crescentemente decepcionada) o atual governo. Fecha os olhos para a sua falta de preparo, para a inclinação pelos favorecidos, em prejuízo dos demais, para a sua retórica de violência e para a incontinência do seu discurso, que infringe o decoro.

Utilizando-se de uma liberdade que, de fato, a Constituição só lhe outorga dentro do equilíbrio dos poderes, Bolsonaro vive nos extremos. É mestre no descontrole verbal, submetendo-nos a constantes exposições de xingamentos, e sofre de constipações que se notabilizam pelo caráter negativo de suas ações. É uma dicotomia que se traduz nos soluços e na prisão de ventre que demonstra sofrer, a ponto de levá-lo à internação. Mesmo no hospital, não se contém. Exibe-se sem camisa, com o propósito de se fazer de vítima e, com efeito, transmuta dissabores em novos e metafóricos soluços, como se os que o observam não notassem a infantilidade da estratégia. Enquanto isso, a presidência prossegue em sua marcha tumultuosa. Não pode licenciar-se porque teria de colocar o vice, elevado à condição de desafeto, em seu lugar. Em função do problema, os seus mal-estares deixaram a administração acéfala. Como se tratou de desconforto passageiro, resultando em internação de curto prazo, não nos veremos às voltas com graves problemas. A enfermidade que o levou aos especialistas, agora começamos a entender, é de caráter estrutural.

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Cabe lembrar que, quando reagiu em declaração à imprensa com o seu “caguei” para a CPI, sua diarreia verbal nem realmente os atingiu e só tornou visível os seus dissabores. Não levou em conta que o poder de um Presidente obedece a equilíbrios. Os senadores não ignoravam que não conseguiriam arrastá-lo a depor. Bastava-lhes questioná-lo e já exibiriam o seu desgaste. Prestígio se impõe no dia-a-dia, nunca por decreto. O seu, obviamente, como provam as pesquisas de opinião, desce água abaixo... - ou pelo esgoto. 

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