O pedido de ajuda que se transformou em um enquadro

O ato de ser socialmente visto como suspeito, de ter a pele e o corpo marcados pelo estereótipo de alguém perigoso nunca é racionalizado a tempo de não nos causar medo, cansaço e muita tristeza

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O ato de ser socialmente visto como suspeito, de ter a pele e o corpo marcados pelo estereótipo de alguém perigoso nunca é racionalizado a tempo de não nos causar medo, cansaço e muita tristeza. 

Afinal de contas, passamos nossa vida à procura de felicidade, tranquilidade, liberdade plena ao lado dos nossos. Mesmo sem encontrá-las, apesar das frustrações impostas pela estrutura racista à classe trabalhadora, valorizamos muito os momentos que nos causam boas sensações. Como ao voltar em grupo da escola a pé, rindo e compartilhando alguma guloseima; num sábado de calor em que se faz aquela vaquinha com o pessoal da rua para comprar esfiha e compartilhar juntos (independente de quem tem ou não uma moeda), na várzea, no samba, na rinha, no slam, no sarau. 

Para nós, pretas e pretos, periféricos, nossa plenitude está no encontro, na troca, no partilhar de abraços, poesias, sorrisos, beats, rimas. Mas nossa força e alegria  preocupam e incomodam os oriundos da casa grande e sua tropa de reciclados capitães do mato.

O instinto de sobrevivência, de resistência e da busca por plenitude é algo que vem muito antes de nós, é ancestral. E nesse contexto, em que a escalada genocida encontra no vírus da Covid-19 mais um método de superexploração e extermínio de nossos corpos, fazer parte de uma grande família preta e periférica que consegue ultrapassar ilesa pelo quarto mês de crescimento vertiginoso de contaminações e óbitos pela pandemia, para mim é motivo de alguma satisfação. 

Seguimos nos cuidados possíveis de preservação contra o vírus e redobramos o cuidado com nossos mais velhos. Cumpro, junto com uma de minhas irmãs as tarefas externas necessárias à nossa família - mercado, banco, farmácia. Como sempre, faço tudo a pé pelo bairro, agora ainda mais, pois tenho evitado utilizar qualquer tipo de transporte coletivo também pelos riscos de contaminação. 

Sou nascido e criado em um dos muitos bairros periférico da Zona Sul de São Paulo, do qual gosto demais. E em tempos que os esforços são voltados para a realização do isolamento social, fazer essas tarefas caminhando é um grande evento. As faço com muito prazer, com minha máscara, óculos escuros e inspirado pelas lives de Teresa Cristina - “quando o dia tá uma merda vamos de Gilberto Gil”, o disco “Um Banda Um” no fone de ouvido, saí na tarde de terça-feira, 09/06, para mais uma missão. 

Porém, dessa vez, minha saída foi  marcada por mais uma das muitas situações de violência já vividas. Saía do Banco do Brasil rumo à Drogaria São Paulo, ambos no Jardim da Saúde - um bairro de classe média que se conecta pela Avenida do Cursino aos muitos bairros periféricos do seu entorno, entre eles o bairro que moro. Nessa Avenida se localizam os principais comércios e serviços essenciais da região. Eu aguardava no farol para atravessá-la, quando entre o amarelo e vermelho passou um carro. Em seguida, já no sinal vermelho, um caminhãozinho desses de carregar tinta passou também e freou quase em cima de mim e de outras duas senhoras que atravessavam do outro lado. Ao reclamar com o motorista, um homem branco de aparência comum, com seus 30 e poucos anos, se mostrou bastante alterado. Por pouco não se inicia uma discussão entre ele e eu, mas segui caminhando enquanto ele me xingava, até que diz: “Depois que leva um tiro não sabe porquê”. 

Coragem é ter cautela

Faço um aparte para contextualizar que sou um homem negro com 36 anos recém completados, dia 14, que carrega alguns aprendizados. Um dos mais importantes é que para se manter vivo, coragem é ter cautela. Meus familiares, amigas e amigos sabem que não sou do perfil de ficar me inserindo em brigas ou discussões, ainda mais nesse contexto de brutalização das relações e intolerância generalizada que adoece nosso país e sim, a disputa de virilidade gera tragédias.    

Segui andando e busquei frieza. Coloquei o fone - com a música pausada para ouvir o que aquele homem seguia dizendo - e acompanhando sua movimentação pelo canto do olho. Ele seguiu me xingando e andando devagar com o carro. Por três vezes ele ameaçou descer e em uma delas, chegou a abrir a porta, até que finalmente cheguei na farmácia, entrei e o ouvi dizer: “isso, sai. Sai fora mesmo” seguido por mais xingamentos. 

Na farmácia, busquei me recompor. Comprei os remédios do meu pai, mas seguia preocupado, porque depois ainda tinha que seguir oito quadras até o mercado. Foi então que pensei: “ora, estou no Jardim da Saúde, um bairro com alto policiamento, vou esperar passar uma viatura de polícia, informá-los do ocorrido para seguir meu caminho com maior segurança. Afinal de contas quem garante que aquele homem não vai fazer o retorno, me esperar em alguma esquina?”

Tive medo. E então fui pedir ajuda para quem, em teoria, deveria nos auxiliar em situações como essa, a PM.

No carro  havia dois policiais. Um deles, era negro. Pele mais escura que a minha. Foi a ele a quem contei a história da ameaça. Após ouvir meu relato e pedido de ajuda, a primeira pergunta que ele fez foi: “Você tem passagem”? Infelizmente a população preta e periférica pouco pode contar com a assistência de segurança do estado, pelo contrário: somos vítimas dele. Pouco ou nunca contamos com o auxílio da polícia.

Já vi algumas situações no centro da cidade. No posto policial da praça da República ou do Largo Santa Cecília pessoas em situações de insegurança semelhantes à minha em que os policiais pedem calma e buscam tranquilizar a vítima. No meu caso,  policial negro com nome de santo, me pergunta com rispidez: Você tem passagem? Perguntei a ele o porquê daquela pergunta já que aquilo não era uma situação de enquadro e sim uma solicitação de ajuda e perguntei se ele queria meu documento. Incomodado com minha resposta, ele disse “sim, eu quero” e saiu do carro já com a arma na mão. Enquanto o outro policial branco consultava meus antecedentes ele me interrogava. O que fazia, onde morava, com quem morava. Ao dizer o que fazia, este se mostrou inconformado e irritado. Disse que exercia a função de assessor parlamentar em um mandato na Assembleia Legislativa de SP e repeti que não estava entendendo o motivo da maneira com a qual me tratava. “Quem faz as perguntas aqui sou eu (!), assessor parlamentar…Há quanto tempo é assessor?” Ao responder logo me retrucou: “e eu sou policial há 23 anos eu sei como fazer o meu trabalho”. E retomava a lógica de repetir as mesmas perguntas de formas diferentes afim de encontrar contradições em minhas respostas. Nesse momento percebi que o meu pedido de ajuda havia se tornado um enquadro, com direito a prancheta de anotações dos meus dados, como é de praxe. Quem é preto sabe como é. 

Busquei frieza pela segunda vez. Ele me pergunta novamente sobre o que eu faço, mas dessa vez o que eu fazia antes de ser assessor e foi aí que me vi em condições de construir uma saída para encerrar aquela constrangedora situação. Disse aquilo que sou, educador popular, professor, que exercia a função de assessor e que o mandato do qual trabalho é aliado da luta por melhores condições de trabalho e de salário inclusive da sua categoria. Sugeri que ele poderia consultar seus colegas que trabalham na casa Legislativa sobre o empenho dos mandatos do Psol contra a reforma estadual da previdência. Disse que acompanhava a comissão de segurança pública e que embora tenhamos discordâncias, temos o respeito de deputados representantes das polícias e citei o nome de dois deles. Nesse momento, aquele olhar de desconfiança e acusação por parte daquele policial se marejou e disse com entusiasmo: “Fui cabo da tropa do Major Mecca, quando encontrá-lo diga a ele  que quando precisou de ajuda quem te atendeu fui eu, ele vai se lembrar de mim”. Busquei acelerar aquele diálogo, já saturado. Ele me devolveu o documento fazendo um sinal para o outro, perguntando se estava tudo certo, o qual responde: “sem novidades”.

Finalmente consegui retomar meu caminho, ainda em choque com aquela sequência de violências. Gilberto Gil deu lugar a um rapper da região. Sabotage morou com sua família de 1998 até sua morte em 2003, na favela do Boqueirão, razão do alto policiamento no Jardim da Saúde, onde narro essa história. Me veio o Sabota na hora, pois precisava baixar a ansiedade e ainda tinha responsabilidades a cumprir mesmo com vontade só de ficar na minha e ir para casa… Me veio o Sabota porque ele era do pedaço, e narrava em suas canções nossa dura realidade. “Algo no ar, contrariado nêgo chega, pra reclamar fortes momentos de tristeza, de um gás que sobe, parceiro truta forte(...) Onilê, o Pai Ogum, Ai ei eô, Mãe Oxum, Filho de Zambi, cansado de ver sangue aqui na Sul, Odara, Odara ao povo preto, seja obsoleto(...) Ozazie, Sheiks na Bahia Baiano, seja escudo deste mano que se encontra em pranto, que por engano, tretou com fulano e hoje é seu dia, perante a lei do homem o cano… Ó senhor que gire o mundo eu peço amor para o subúrbio (Cantando pro Santo, Sabotage).

Existem práticas obscurantistas estruturadas culturalmente  em nossa sociedade que são a base do controle, da superexploração e desumanização da população negra. Os estereótipos de marginal sempre foram os pretos e os pobres das periferias. Isso vem desde que as polícias foram criadas, carregadas de preconceitos, vem da cultura oligárquica e escravocrata. Não existem dados que justifiquem a relação truculenta da polícia em territórios periféricos ou em uma abordagem. Alguns especialistas do tema me afirmaram que nem 2% das abordagens, o suspeito de fato é agente de ilegalidade ou é alguém que está de fato levando perigo ao outro, como alguém armado. Essa sensação de tensão e truculência é uma política de controle de Estado que adoece, tortura e mata nossos corpos. Ágatha Félix,  Kauê Ribeiro dos Santos, Kauan Rosário, João Pedro. George Floyd.  A curva que cresce mais do que a Covid-19, no Brasil e no mundo.

Guilherme Silva Guedes, 15 anos, foi executado por optar não correr na chegada do comando: “Não devo nada”. O motivo de sua sentença foi existir.  Essa é a  curva da morte que cresce mais do que a da Covid-19, no Brasil e no mundo.

A cultura da violência é estrutural. O tema do racismo e das muitas violências sobre nossos corpos tem sido o mote de manifestações mundiais. Depois de décadas de luta antirracista nos EUA, os estados norte-americanos têm se proposto a rever métodos de imobilização e abordagem policial como aquela que matou George Floyd, redução de gastos em uma polícia ostensiva e a investida em projetos sociais, se debate até mesmo a extinção desse modelo de polícia. Produto das históricas luta dos Movimentos Negros norte-americanos. No Brasil, desejo que essa luta pelos corpos negros não virem com o tempo somente uma hashtag. É tarefa de toda e qualquer ativista, das organizações e movimentos do campo democrático, das esquerdas, pensar uma política de segurança pública em que a polícia trate pretos e pobres não como estereótipo cultural de marginal. Sonho com tempos em que todo e qualquer cidadão ou cidadã possa exercer sua liberdade com plenitude e que eu, ou qualquer outro, tendo ou não passagem pela polícia, possamos exercer nosso direito à assistência de segurança se assim for necessário. Por enquanto, seguimos lutando e buscando proteção. Que os santos dos erês estejam com cada uma de nossas crianças. Que o ódio e a intolerância não prevaleça entre nós. A malandragem não está no choque e sim na esquiva. Saber sair de conflitos dos quais não valem a pena evitam estresse e preservam a vida. 

Por enquanto sigo como mantra uma máxima dos nossos mestres, Racionais Mc’s, procure a sua, vou atrás da minha Fórmula Mágica da Paz.

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