O poder do ódio e o ódio no poder

O fascismo pleno, necessita de uma linguagem própria, de um glossário autorizado de termos específicos para afiar o ódio e massacrar o opositor. No período eleitoral as declarações fascistas ainda são remendadas e justificadas

O poder do ódio e o ódio no poder
O poder do ódio e o ódio no poder (Foto: Valter Campanato - ABR)

Em sua última coluna, no jornal "The New York Times", publicada, postumamente, em 25 de fevereiro de 2016, apenas seis dias depois da sua morte, o escritor italiano, Umberto Eco, se queixa de como a linguagem está sendo corrompida em função da manipulação da verdade. Ele se disse irritado particularmente com o uso da expressão “cometeu um erro” por políticos, jornalistas e até por criminosos.

Um erro, por definição, é um engano, um equívoco, uma incorreção, uma inexatidão. Algo, em certa medida, sempre inesperado, aleatório, eventual, sucedido por acaso ou inadvertidamente. O que é bem diferente de se praticar propositalmente um ato criminoso ou de se cometer uma atrocidade de forma resoluta, deliberada e intencional. Um erro não é cometido por convicção, um crime é.

Eco denuncia que, hoje em dia, corruptos, ladrões, velhacos, trapaceiros, assassinos canibais, estupradores e criminosos de toda ordem alegam que apenas “erraram”. “(...) com extrema frequência, atualmente são descritos como tendo ‘cometido um erro’, criminosos e homicidas – pessoas que praticam extorsão e aceitam propina, fazem uso ilícito dos cartões de créditos de outros, aplicam golpes em pessoas vulneráveis e ingênuas, até aquelas que matam suas avós com machados ou jogam ácido na face de sua ex-mulher”, diz ele.

Para atenuar a gravidade dos seus atos, malfeitores empedernidos se utilizam, desavergonhadamente, de um eufemismo, conspurcando a semântica e deturpando o significado das palavras para maquiar as suas transgressões, conscientemente cometidas contra todas as leis morais e sociais, esperando, com isso, ter o mesmo tratamento dedicado a alguém que apenas “errou”.

É desse modo que o estripador de velhinhas deseja pagar pelo seu crime prestando serviços no abrigo de idosos e o pedófilo estuprador quer ser o treinador da equipe de natação infanto-juvenil. Afinal, tais inocentes apenas cometeram “erros” que podem ser remidos pela doação de uma cesta básica ou por trabalhos voluntários.

A campanha presidencial que elegeu Donald Trump, uma das mais mentirosas e sujas da história política, trouxe à tona o conceito de “pós-verdade”, que foi o nome atribuído à modelagem de fatos e de informações com o objetivo de influenciar a opinião pública, através da manipulação emocional e de valores pessoais e religiosos. Pouco importam os fatos objetivos, o que interessa é a deturpação da realidade em função do efeito a ser produzido: ódio, desprezo, veneração ou empatia.

Tanto quanto a “verdade”, a linguagem se torna uma refém da “pós-verdade”, que sequestra a mente e a emoção das pessoas em função do interesse do cliente. Assim, políticos ou criminosos são orientados por seus marketeiros ou advogados a usarem uma linguagem que atenue o peso e a evidência dos fatos.

Quando perguntado sobre o brutal assassinato de Môa do Catendê na Bahia, Bolsonaro disse que não podia responder pelo “excesso” de um admirador e disse que, facada por facada, ele também tinha levado uma.

Quatorze facadas, desferidas nas costas de um idoso por alguém sob efeito do mais determinado ódio político e desprezo pela vida, trata-se de um “excesso”? Se for, devemos absolver e perdoar alguns grandes injustiçados da história que também cometeram “excessos”, como Átila o Uno, Hitler, Jack o Estripador e o Maníaco do Parque.

Assim como é um ato vil chamar um crime de “erro” ou de “excesso”, é igualmente perverso promover a barbárie com motivações políticas para se promover eleitoralmente, sem se importar com os efeitos disso no aumento da violência social. O ódio e a criminalização dos adversários políticos produzem o conflito e a morte.

A estratégia de defesa psicológica baixada junto com o download das fake news não permite o acesso à racionalidade da pessoa infectada pelo vírus do fascismo eletrônico. O vírus já traz no pacote seu próprio “firewall” contra qualquer linha argumentação. Se dizemos “uva”, o infectado responde “repolho”.

A violência dos seguidores de Bolsonaro será sempre contestada pelo número de vítimas que o “comunismo” produziu no mundo.

Para o infectado, a democracia não é o sistema político que empodera o povo, mas um sim um instrumento utilizado pelo subversivos e comunistas para chegar ao poder; e a defesa da cidadania não é uma bandeira política legítima, mas sim um “discurso de autovitimização” ou “coitadismo”. Fraternidade, liberdade e igualdade são todos termos “vermelhos” a serem banidos do vocabulário. Quem não for a favor é uma ameaça a ser eliminada, um sabotador a ser identificado e destruído, um verme a ser esmagado.

O fascismo pleno, necessita de uma linguagem própria, de um glossário autorizado de termos específicos para afiar o ódio e massacrar o opositor. No período eleitoral as declarações fascistas ainda são remendadas e justificadas. “Não foi isso o que eu quis dizer”, desculpam-se.

Durante o exercício político, porém, isso não é mais necessário. Quando fascistas estão no poder, frases como “vamos metralhar a petralhada”, “vamos acabar com os vermelhos”, “quem não concordar vai ser expulso ou preso”, “basta um cabo e um soldado para fechar o tribunal”, “se eu ver homossexuais na rua eu vou bater”, significam o que elas significam mesmo...

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