O quase ‘churrasquinho’ de Borba Gato e a lata do lixo da história

"A ação de movimentos sociais e de segmentos da população questionando as homenagens é positiva, é parte integrante da luta pela hegemonia na sociedade. É a roda da história caminhando — e às vezes capotando", escreve Milton Alves

Incêndio na estátua do Borba Gato, em São Paulo
Incêndio na estátua do Borba Gato, em São Paulo (Foto: Reprodução/Instagram)
Siga o Brasil 247 no Google News

Em meados dos anos 80, trabalhei por alguns meses em um escritório da Sabesp – companhia de saneamento de São Paulo – que ficava na Avenida Santo Amaro, bem próximo da gigantesca estátua do símbolo bandeirante paulista, Manuel Borba Gato — uma geringonça feiosa e falaciosa.

O monumento, que expressa uma ideologia de dominação, nunca me agradou. E todos sabem que tipo de “serviço civilizatório” foi prestado por Borba Gato e seus homens: saques, massacres, violações de índias e índios pelo interior do país, repressão e a captura de negros, ações de pilhagem de ouro e de pedras preciosas em áreas de mineração, entre outras barbaridades. É um fato documentado pela história, apesar de uma certa visão patrioteira defender algum papel positivo no celerado personagem.

As remoções e as derrubadas organizadas de estátuas e monumentos de reis, ditadores, generais, almirantes, brigadeiros, mercadores de escravos, navegadores a serviço de potências coloniais em diversos países, recoloca o debate acerca da necessidade de uma abrangente revisão histórica dessas homenagens. É um movimento global que foi impulsionado pela onda antirracista desatada a partir do assassinato do negro George Floyd — ocorrido em 2020 na cidade de Minneapolis [EUA].

PUBLICIDADE

A revisão criteriosa das homenagens aos entes históricos e de seus monumentos — estátuas, obeliscos, mausoléus, ruas, edificações, placas — é uma necessidade do tempo presente. Cada período histórico é comandado por determinadas classes dominantes, que vencem e impõem uma narrativa aos dominados e derrotados. Portanto, uma visão predominante, de conjunto, sobre a história, a cultura, os costumes e a ideologia.

A ação de movimentos sociais e de segmentos da população questionando as homenagens é positiva, é parte integrante da luta pela hegemonia na sociedade. É a roda da história caminhando — e às vezes capotando. “Nada é permanente, exceto a mudança”, já disse Heráclito por volta de 540 a.C.

PUBLICIDADE

A ação dos ativistas do grupo Revolução Periférica, que tentou incinerar a estátua de Borba Gato no sábado, provocou um aceso debate nas redes sociais no fim de semana. Até o bolsonarismo buscou tirar uma lasquinha das cinzas para chamuscar a esquerda. É do jogo…Teve também alucinados que atacaram a rapaziada incendiária como agentes de uma pretensa guerra híbrida contra o Brasil.

A pergunta que fica: A estátua de Borba Gato deve permanecer imponente e desafiadora em seu pedestal ou ser removida para a “lata do lixo” da História?

PUBLICIDADE

Inscreva-se no canal de cortes da TV 247 e saiba mais:

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

O conhecimento liberta. Saiba mais. Siga-nos no Telegram.

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Apoie o 247

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

PUBLICIDADE

Cortes 247

PUBLICIDADE
WhatsApp Facebook Twitter Email