O que Lula não falou: a derrota é muito maior e mais profunda do que as eleições

O discurso que nosso ex presidente externa, sem deixar dúvidas, é de que o partido dele e todos os outros do espectro da esquerda nasceram da classe operária, das lutas contra a ditadura imperialista militar – esse monstro que desgraçou a América Latina – e encaminharam-se a marcha célere à montagem de superestruturas sindicais e partidárias

(Foto: Stuckert)
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Prezado Jornalista Juca Kfouri, São Paulo

Permite-me, meu caro jornalista, que o elogie por sua lucidez, honestidade e consciência política  no exercício do jornalismo, profissão essa tão maltratada pelo achincalhe que sofre por parte do fascismo temeroso da verdade e pelo empresariado neoliberal, que relativiza  os interesses e necessidades sociais e do pais, priorizando os negócios do mercado concentrador de riquezas.

Apreciei muito o modo como vocês entrevistaram o ex presidente Luiz Inácio Lula da Silva, principalmente as questões que você colocou a ele,  já inicio.

Mas os seus colegas Jornalistas José Trajano e Talita Galli não deixaram por menos naquela noite de 15/01 na TVT.

Senti na entrevista uma pauta preocupada com o Brasil e penso que esse tipo de trabalho merece debate e retorno, tanto a vocês quanto para Lula.

Por essa razão analisei em meu blog Cartas Proféticas um dos pontos que me parece por demais relevante e inquietante para o nosso país, para a profunda crise  orgânica do capitalismo,  seus desdobramentos e impactos desconcertantes em nossa conjuntura nacional e internacional, tocado por nosso ex presidente de modo equívoco  quando ele se referiu às eleições de 2016 e o espírito que move a visão política  do grande líder,  dos partidos auto proclamados e reconhecidos como de esquerda no Brasil, da própria opinião pública imersa e afogada no turbilhão de falsas informações e da dramaticidade da crise.

Lula afirmou com todas as letras que “perdemos a eleição porque não tivemos coragem de ir pra rua nos defender”.

Com o seu jeito particular no uso de imagens para se referir ao comportamento humano, adaptando-as  à análise de resultados  eleitorais, mais de 5 anos depois, o ex presidente diz: “quando você tem uma doença grave, uma agressão grave, não se esconde. Você enfrenta”.

O líder respeitado em todo o mundo encontra como causa da derrota política no contexto de ataque ao partido dele, na perseguição e prisão de José Dirceu,  bem no auge da campanha, a falta de coragem para a defesa da agremiação e das causas que historicamente formaram os seus programas e os seus quadros. “Nós perdemos 2016 no maior processo de condenação de um partido político. E perdemos porque não tivemos coragem de ir para a rua nos defender. Quando você leva seu cachorro para passear, se um maior late ele enfia o rabinho entre as pernas, ele perdeu. Por menor que ele seja, ele tem que latir e se fazer respeitar”, exemplificou Lula para justificar a intimidação do PT. E mostra onde tal capitulação se deu  por causa do medo e quem os ameaçou. O palco da falta de coragem na organização para a luta e para a defesa foi exatamente o berço trabalhista onde nasceu o maior movimento da classe operária nas últimas décadas no Brasil,  que também é berço do PT. “Em 2016, o PT não quis fazer comício em Santo André, São Bernardo, Diadema, Mauá, São Paulo, Guarulhos, Campinas, Osasco. Não quis porque as pessoas estavam receosas de ir para as ruas. Faltou enfrentar a situação”, analisou Lula.

O discurso que nosso ex presidente externa, sem deixar dúvidas, é de que o partido dele e todos os outros do espectro da esquerda nasceram da classe operária, das lutas contra a ditadura imperialista militar – esse monstro que desgraçou a América Latina – e encaminharam-se a marcha célere à montagem de superestruturas sindicais e partidárias. Assim  chegaram aos diversos parlamentos, aos governos municipais, estaduais e federal.

Tais instâncias institucionais recolheram  da sociedade grandes lideranças intelectuais e populares, muitas se notabilizando por discursos nas tribunas, na criação e gestão de programas sociais, que deram uma “melhorada” na vida do povo, colocando alguns remendos no moribundo capitalismo, principalmente nos aspectos concentração de riquezas, de poder,  de renda e no rentismo.

A intimidação e o esmagamento político  como espécie de anemia que retira a energia, a força e a vitalidade do corpo político do povo, deu-se no desvio – para não dizer traição – das eleições para parlamentos, governos, judiciário e movimentos sociais, caindo no vazio das ilusões.

Sem desconsiderar avanços computados como conquistas sociais, tudo o que se conseguiu, desembocando na mentalidade mesquinha e tacanha de processos eleitorais, a verdade é que o golpe político de 2006, depois com a organização criminosa lava jato, já abrindo caminho para as mentiras sobre mensalão, em 2016 com a derrubada da presidenta Dilma e em 2018 com as fake news e eleições roubadas, os tais processos eleitorais funcionaram como transfusão de sangue do cadáver  social para o corpo opressivo da elite dominante, aliada da burguesia internacional e traidora da pátria a serviço do capital e do mercado oligopolitizados.

Os movimentos sociais, sindicais  e  os partidos não organizaram o povo nem a classe trabalhadora, vitalizando-os com a coragem e com a defesa, pólos indispensáveis na luta  permanente pelo poder,  nunca de fato conquistado, apenas acariciado até com deslumbramentos sociais democratas.

Percebo na entrevista do ex presidente a continuação do vício doloroso de fragilizar e até de matar a coragem, a defesa e a resistência da classe trabalhadora e dos pobres contra o fascismo e o seu pano de fundo, o neoliberalismo. Tanto que Lula continua preocupado com as próximas eleições municipais de 2020 e com as estaduais e federais de 2022 como principais trincheiras políticas.

O líder perseguido pelo imperialismo e pelo fascismo miliciano de Sérgio Moro, o lacaio dos monopólios, bem como todos nós, precisamos entender rapidamente que não foram o PT, os sindicatos, os movimentos sociais, os partidos de esquerda e a pálida democracia da Constituição que foram os primeiros grandes derrotados.

A derrota não se restringe a eleições, mas aos campos econômico e político, fatores centrais,  nacional e popular, como fruto do abandono dos trabalhadores.

O povo e o Brasil são os grandes derrotados e não seriam vencedores apenas com preocupações, articulações de chapas e resultados favoráveis das próximas eleições.

Aliás, o espírito eleitoral do nosso ex presidente, corajoso por enfrentar altivo e honrado a prisão facínora, fabricada na estufa da geopolítica imperialista, não se diferencia politicamente das preocupações golpistas dos milicianos corruptos Jair Bolsonaro, Augusto Heleno,  Hamilton Mourão, Sérgio Moro, Rodrigo Maia e o lacaio traidor dos sonhos originários do partido de Brizola, Ciro Gomes.

Eles também só se preocupam com eleições. E dê-lhe sacanagem para ocupar espaços onde o PT se firmou  como curral eleitoral e dê-lhe puxada de tapetes e alianças com a direita sórdida,  parida no útero dos ruralistas e apoiadores da ditadura militar.

A mobilização, organização, qualificação, coragem e resistência da classe trabalhadora e do povo é desafio superior e anterior às eleições.

Nas campanhas eleitorais os movimentos de sons, propaganda, imagens, reuniões, agitação e cores dão a ilusão de grandes multidões mobilizadas, mas que desaparecem pelos ralos das urnas eletrônicas, virando em amargura e decepção com os resultados no domingo à noite.

O poder, que deveria ser tomado, continua, desde a escravatura, nas mãos dos poderosos ladrões, corruptos, egoístas, perversos, mentirosos e desonrados  desacordos e negociatas com o país, por mais que Lula confie no seu taco negociador com o mercado.

Também é desafio o debate com Luiz Inácio Lula da Silva  no sentido de que a luta e o discurso dele se libertem do “eleitoralismo” e da choradeira em relação ao judiciário para se fazer em ânimo e estimulo à organização do povo pela tomada do poder real. Nelson Mandela e o Congresso Nacional Africano poderiam ser inspiração para ele e para o povo brasileiro.

Ousar lutar e ousar vencer são marcas do povo mobilizado e em marcha. Venceremos!

Abraços críticos e fraternos

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