O renascimento de Ernesto Che Guevara

A Revolução Cubana fez de Che Guevara um dos maiores ícones da esquerda mundial no século XX. Ele renasce nesse século XXI nas lutas sociais, nas lutas contra o machismo, antirracistas, antifascistas, anti-imperialistas

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O século XX passou com um meteoro no universo. Alguns diriam que foi “breve” (Hobsbawm), outros que foi “longo” (Arrighi). Em que pese o debate sobre o tempo histórico a que estivemos submetidos, é certo que deixou um legado para a humanidade. Fatos ou fenômenos, sistemas ou ideologias, são incontáveis os exemplos. Inegável também que ideias ou causas, por vezes, acabam personificadas em sujeitos históricos, atores sociais ou, mais precisamente, indivíduos (Plekanov) que lutam de forma tão destemida que passam a confundir-se com a própria causa em si. Esse é o caso inquestionável de Ernesto Che Guevara. 

Nascido em Rosario, na Argentina, no dia 14 de junho de 1928, Ernesto teve uma vida marcada por mudanças, desde a troca de cidade para morar, em função da asma, até as elaborações mais profundas de pensamento e os deslocamentos necessários na Sierra Maestra. Ernesto tornou-se o “Che” no encontro com os guerrilheiros do Granma no México, de onde Fidel Castro comandou a operação para libertar Cuba do imperialismo mais vil e covarde que escravizava a população pobre daquela ilha caribenha. 

A América Latina vivia a intensidade da luta de classes sob as mais diversas formas. No Brasil, a miséria do povo era a principal fonte de enriquecimento das elites. O Nordeste vivia o “flagelo da seca”, uma das mais terríveis de sua história, com a expulsão do camponês de suas terras para a busca de um sonho irrealizável no sudeste, motivado pela propaganda da “industrialização” e do “desenvolvimento econômico”. Nos países de língua espanhola, a opressão do capitalismo tinha como principal vítima os povos originários (indígenas), com as especificidades de cada realidade. 

As condições objetivas do grande continente que estavam postas naquele momento constituíram elemento fundamental para a construção dos valores e do pensamento revolucionário de Che Guevara, a partir de sua epopeia em La Poderosa (motocicleta), no ano de 1952, em companhia de Alberto Granado. No período em que cursava medicina, a viagem pela América do Sul, retratada em Diários de Motocicleta, mostrou-lhe uma realidade que havia conhecido apenas pela leitura de livros e notícias. O médico Ernesto Guevara de La Serna era um jovem inquieto, cuja indignação com a miséria alheia representava, para ele, condição de companheirismo. O dinheiro não era problema, pois não cultuava o poder monetário nem ostentava o consumo. A medicina não era, para Guevara, meio de “ganhar dinheiro”, mas uma ciência de grande  relevância para erradicação de doenças e construção de uma nova civilização, humana e autônoma.

Não esperou, parado, que seus sonhos se tornassem realidade. Ao buscar realizálos, deparou-se com situações conflituosas como o golpe militar na Guatemala, onde trabalhava, em 1954. Esperava que seus companheiros lhe dessem uma arma para defender a revolução, mas não foi atendido. Teve que sair do país com o golpe de Estado que depôs o presidente eleito Jacobo Arbenz. Foi a experiência definitiva para que ele ratificasse a ideia, já desenvolvida, de que o imperialismo agia covardemente e com a força contra qualquer governo popular e democrático em plena Guerra Fria, quando os Estados Unidos usavam os países da América Latina como seu “quintal”. Ernesto Guevara não estava mais disposto a lutar apenas com palavras. 

Amparado pelo México e virando-se como fotógrafo, conheceu os novos companheiros que, mais uma vez, mudariam sua vida. Em casa de Maria Antonia, companheira revolucionária, Ernesto Guevara foi apresentado a Fidel Castro. Uma noite de conversas foi o suficiente para fazer de Guevara o médico da revolução e iniciar uma nova jornada que, a partir de então, tornaria o argentino andarilho em El Che, Comandante e, mais tarde, o Guerrilheiro Heroico. 

A Revolução Cubana fez de Che Guevara um dos maiores ícones da esquerda mundial no século XX. A famosa fotografia de Alberto Korda rodou o mundo e contribuiu para transformar o conteúdo imagético em símbolo da revolução e da libertação dos povos. Não havia jovem, que se considerasse de esquerda nas décadas de 1960 em diante, que não portasse uma camisa ou adereço de Che Guevara. Ou mesmo que repetisse em algum trecho de discurso ou conversa, uma frase do ídolo revolucionário. Até que, a partir da década de 1990, o inimigo tenha percebido que não valia a pena lutar contra o símbolo. O próprio imperialismo rendeu-se ao poder sobrenatural de Che Guevara e várias empresas de diversos ramos de atividades resolveram estampar a imagem do guerrilheiro em seus materiais, até mesmo de moda íntima. 

O século XXI trouxe novos desafios à classe trabalhadora e à esquerda em geral, principalmente porque não temos mais a mesma “classe trabalhadora”, muito menos as mesmas condições que fizeram de Ernesto o Che. A informalidade do trabalho e selvageria do capitalismo corroeram as relações sociais de tal maneira que nem mesmo a esquerda, em governos democrático-populares, conseguiu impedir o avanço do novo  fascismo, adaptado à América Latina. Os movimentos identitários ganharam corpo na agenda de lutas e impuseram uma nova dinâmica à luta de classes.

Isto tudo não impediu que a imagem revolucionária de Che Guevara irrompesse nessa nova realidade. Talvez possamos encontrar explicações no pronunciamento de Fidel Castro, no velório solene do Comandante Che Guevara no dia 18 de outubro de 1967, na Praça da Revolução em Cuba: “Che era un insuperable soldado; Che era un insuperable jefe; Che era, desde el punto militar, un hombre extraordinariamente capaz, extraordinariamente valeroso (...)” (CASTRO, 1967). Por isso e por tudo mais, Fidel dizia, no mesmo discurso, que Che havia se convertido em “modelo de homem” para o povo cubano e para toda a América Latina. 

Che Guevara renasce nesse século XXI nas lutas sociais, nas lutas contra o machismo, antirracistas, antifascistas, anti-imperialistas. Ele renasce porque é símbolo da luta mais honesta, séria, contundente, contra todas as mazelas que nos vilipendiam. Ele renasce em cada grito de mulher, negro, LGBTQI, indígena, qualquer pessoa oprimida que rompe as amarras do silêncio sufocante e impiedoso. Porque as ideias que ele representa continuarão a atormentar as elites mundiais. Porque, como disse José Saramago (2001), “Che Guevara é somente o outro nome do que há de mais justo e digno no espírito humano. O que devemos despertar para conhecer e conhecemos, para agregar o passo humilde de cada um ao caminho de todos”

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