O risco é real: todo o cuidado com Lula

Não há democracia possível no Brasil sem que o legítimo representante e encarnação do rosto do homem brasileiro, pobre e excluído, esteja livre e dispondo de seus direitos políticos

Gleisi Hoffmann
Gleisi Hoffmann (Foto: Paulo Pinto / Fotos Públicas)
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A soltura de Lula não termina com a perseguição política ao campo progressista brasileiro que o toma como exemplo maior, malgrado setores equivocadamente entendam que não há necessidade de mobilizar-se radicalmente em sua defesa. Não há democracia possível no Brasil sem que o legítimo representante e encarnação do rosto do homem brasileiro, pobre e excluído, esteja livre e dispondo de seus direitos políticos. Sem este pré-requisito a democracia brasileira não será retomada, mas o problema, grave, é que temos um amplo e poderoso coletivo de indivíduos que dispõe de armas nas mãos que nem apreciam as instituições democráticas e tampouco o próprio povo brasileiro, a quem reservam a antiquada crítica já percebida pelo brilhante texto de Darcy Ribeiro, que ao destinar seu olhar analítico sobre a elite percebia como ela continuava a repetir velhos chavões de que o atraso brasileiro se devia a fatores climáticos, culturais e raciais, assim como, por outro lado, reconhecendo aos agentes estrangeiros o papel de civilizadores de um território de bárbaros.

A liberdade de Lula impunha-se como estratégia para as estruturas de poder, mais do que como mera concessão, exceto para a tigrada que todavia corre solta pelos porões, e em certos lugares também à luz do sol. Estamos entrando em território minado, e não sabê-lo será fatal, não reconhecê-lo pode implicar um grave retrocesso no projeto progressista de restaurar a soberania e, por conseguinte, a democracia no Brasil. A grave ameaça para a qual chamo a atenção é o real risco de vida imposto ao Presidente Lula. Forjar personalidades desarvoradas, doentias e fanáticas não será uma dificuldade para grupos foras-da-lei que não hesitarão em lançar mão de absolutamente todos os recursos para assegurar o projeto de extração das riquezas do país.

A América Latina deveria conhecer melhor as suas experiências e como tantas lideranças populares foram assassinadas de diversas formas para travar o desenvolvimento das nações a partir de projetos soberanos e comprometidos com a sua gente. Os tempos são outros, e por isto as medidas de segurança de outros tempos já não são suficientes para assegurar a vida ao Presidente.

Textos como este se tiverem alguma importância será, digamos, por cumprirem o seu objetivo de alertar para o risco a ponto de causar arranjo eficiente para evitar a consumação do fenômeno para o qual alerta. Acaso tenha êxito no mundo material, portanto, terá fracassado no plano teórico, pois não terá sido confirmado pelos fatos. Sinceramente espero que seja esta última a segunda opção, pois bate no coração das gentes a esperança no futuro a partir da soltura de Lula, mas assegurar-lhe a vida é uma medida essencial. Ninguém elogia a morte como prática política e nem reúne 117 fuzis (localizados) por mera casualidade.

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