O sacrifício de Maia, a volta do DEM à ditadura e o retorno do PT

Na avaliação de Mario Vitor Santos, do Jornalistas pela Democracia, "o PT saiu da derrota da eleição nas mesas da Câmara e no Senado recuperado a ponto de já lançar candidato à Presidência". "Seja qual for a motivação, o PT está de volta, sem esperar nem mesmo que esfriasse o prato em que a direita servia a cabeça do sereníssimo Maia", diz ele

Fernando Haddad e Rodrigo Maia no Roda Viva
Fernando Haddad e Rodrigo Maia no Roda Viva (Foto: Mathieu Delmestre | Reprodução)
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Por Mario Vitor Santos, do Jornalistas pela Democracia - A entrevista de Rodrigo Maia ao jornal Valor desta segunda-feira, passada uma semana da eleição para as presidências da Câmara e do Senado, explicita alguns fatos até agora não esclarecidos. Como já se sabia, Maia está deixando o Democratas, fracassada agora sua tentativa de reposicionar o partido, que é o continuador da Arena e do PFL, como uma legenda de centro-direita, liberal e democrática.

O projeto de Maia carregava uma ambição que abarcava um largo espectro histórico: libertar o Democratas de sua herança autoritária e desgastada, inaugurada ainda nos tempos da Arena, partido oficial do regime ditatorial militar de 64. Maia queria criar um novo figurino para o partido, apresentá-lo agora com a face de uma direita civilizada e oposta ao extremismo fascista de Bolsonaro. Em sua caminhada, Maia (impossível não ver nessa engenharia política a sombra do pai) teve, ao que parece, sempre o apoio verbal, tácito, passivo, mas explícito do presidente do DEM e prefeito de Salvador, ACM Neto.

No dia da eleição da Câmara, Maia e seu candidato Baleia Rossi foram escândalo e sorrateiramente abandonados por ACM Neto e por Ronaldo Caiado, sendo que este é de índole mais transparente. Puxaram a fila da debandada de quase todo o Democratas, com a adesão de parcelas do PSDB. Bandearam-se para o candidato mais ligado a Bolsonaro, Arthur Lira, representante do notório Centrão (que também já foi chamado “base aliada” dependendo de quem o use).

O Democratas volta assim às origens, encerrando sua metamorfose modernizante. Ruiu a fogueira que visava exorcizar o partido das origens vinculadas à ditadura militar de 64. Ao contrário, o partido renovou sua fidelidade ao golpe. Foi na verdade uma crisma, a confirmação da fé no novo governo militar, o qual não tem pejo de reivindicar ser uma espécie de continuidade extemporânea da ditadura.

Maia era (ou queria ser) o sonho de uma noite de verão de uma reforma por dentro. Sua atitude, um tanto anômala, era em si uma espécie de reconhecimento de culpa partidária coletiva do passado vil a ser silenciosamente expiada. Não foi dessa vez, mas o partido da ditadura namorou com a ruptura em relação ao passado. Recuou na beira da pia da redenção das almas. Isso já fala do sentimento de mal-estar com o peso da própria história. 

A natureza, porém, falou mais forte. Como na fábula, o escorpião traiu o sapo, mesmo que isso também lhe venha a custar a vida. Na iminência da mudança, o Democratas reafirmou seu juramento: é o partido da ditadura e não suporta não o ser. As instituições têm naturezas imutáveis. O passado exige fidelidade nas horas decisivas. Os reformadores ficam pela estrada.

Na esteira da eleição acachapante de Lira (Progressistas-AL), analistas políticos apressaram-se a louvar a beleza dos trabalhos dos “artífices” militares da chefia da secretaria da presidência de Bolsonaro e a saudar a “estabilidade” atingida, ou seja, o enterro da incômoda demanda, justíssima, do impeachment de um genocida à frente da Presidência da República. Foi, de fato, uma demonstração de força do governo, da força do balcão de negócios, do peso do governo federal sobre ios governos estaduais e as bancadas parlamentares. O próprio temor do impeachment encarregou-se de arregimentar apoios ao governo.

Maia desceu aos infernos da derrota exibindo sua imagem de sereníssimo racional. Como presidente da Câmara, omitiu-se à obrigação moral de aceitar o exame do impeachment, sob argumento falacioso de que não haveria uma maioria. Como se a ética se impusesse apenas ao sabor das maiorias ocasionais. Agiu assim em nome da manutenção de algum comando sobre a maioria parlamentar, que já lhe havia escapado ao tolinho diante da sua papada.

Vale reconhecer, apesar disso, a firmeza de Maia em momentos fundamentais, prontamente ignorados pela mídia ansiosa por aderir aos vencedores. A história deveria registrar que Maia liderou o Legislativo na resistência aos avanços de Bolsonaro contra a República, os vestígios remanescentes de democracia e a independência dos poderes. Mobilizou o Congresso para resistir a uma ofensiva hedionda de Bolsonaro para impor a ditadura. Não foi pouco. Como se não bastasse, impôs uma derrota a Paulo Guedes e Bolsonaro a aprovação do auxílio emergencial de R$ 600 (contra os R$ 200 oferecidos pelo governo). Quebrou-se uma espécie de tabu fiscal que foi fundamental para mitigar os efeitos da pandemia sobre as famílias. Salvou vidas, combateu a fome. Em sua derrota, Maia, levou consigo o ensaio de uma alternativa democrática de centro-direita. O episódio abriu as condições para acertos de contas de velhas mágoas de Aécio Neves e outros tucanos contra João Dória lançando sérias dúvidas sobre a viabilidade partidária e eleitoral do governador paulista e também do eterno especulador Luciano Huck, cujos apoios migraram para o bolsonarismo. 

De volta ao jogo

O PT adentrou um jogo parlamentar relevante em meio à contradança dos apoios jurados e traições de última hora. Os analistas comemoraram sua derrota e gravaram em pedra seu alívio com a superação da campanha pelo impeachment de Bolsonaro. Conselheiros não solicitados recomendaram que o partido, para eles vencido, mudasse de assunto. O fato é que o PT voltou, pela primeira vez desde antes do golpe de 2016, ao jogo político institucional, com amplo reconhecimento dos diversos atores em todo o espectro político. Não era assim antes e o passo dado não é banal. O PT está nas mesas e nas comissões, com o papel de uma das maiores bancadas no Congresso plenamente recuperado. Para além disso, rompeu também o seu isolamento ao conseguir integrar no parlamento uma aliança democrática com parcelas do centro e da direita. Não venceu, mas caminhou preservado, íntegro, para batalhas futuras, posicionando-se silenciosamente para auferir os dividendos políticos de vir a ser de novo a referência do antibolsonarismo.

Nada mal para um partido que esteve  e está sob campanha intensa e fogo cruzado na mídia, na Justiça e no próprio parlamento desde a campanha infame do chamado mensalão. Enquanto cresce o desconforto entre seus adversários, o PT saiu da eleição de volta nas mesas da Câmara e no Senado, tendo ensaiado alianças mais amplas nas quais já baseara sua ascensão nas décadas passadas anterior. Saiu dessa derrota recuperado a ponto de já lançar candidato à Presidência da República. Seja qual for a motivação, o PT está de volta, sem esperar nem mesmo que esfriasse o prato em que a direita servia a cabeça do sereníssimo Maia.

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