O show de desinformação da mídia na cobertura da eleição nos EUA

Trump e Biden durante segundo e último debate antes das eleições nos EUA, em 22 de outubro.
Trump e Biden durante segundo e último debate antes das eleições nos EUA, em 22 de outubro. (Foto: Reuters)
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Esperei a vitória de Joe Biden ser anunciada para escrever sobre a patética cobertura das eleições nos EUA feita pelos veículos de comunicação nacionais e também os internacionais, com poucas exceções.

Tanto fazia sintonizar a CBN, GloboNews, Bandnews ou acessar os sites G1 e UOL, e até o jornal El País, para deparar com a tese fajuta, segundo a qual a disputa era acirrada, eletrizante, voto a voto, coisa que nunca foi.

Logo após o encerramento a votação, quando Trump se proclama vencedor, denuncia fraudes inexistentes e sabota a democracia, nenhum veículo da mídia ocidental colocou o dedo na ferida e deu o nome certo à coisa.

Em lugar de denunciar a flagrante tentativa de golpe de estado, a imprensa optou por tratar com naturalidade o chilique antidemocrático e golpista de Trump, como se tudo não passasse de uma mera tática eleitoral.

A ficha só começou a cair depois que âncoras das redes de TV estadunidenses interromperam a fala do presidente americano alertando os telespectadores para suas mentiras.

A propósito, aqui cabe abrir parênteses para a ótima sacada da presidente do PT, Gleisi Hoffmann, sobre o assunto: “Quando a imprensa brasileira vai interromper falas de Bolsonaro, para dizer que ele está mentindo, como fez a mídia norte-americana com Trump?”

Se prestassem um pouco de atenção aos fatos e movimentos políticos que antecederam ao dia 3 de novembro, certamente repórteres, editores e comentaristas teriam entregado um produto de melhor qualidade ao distinto público.  

Era do conhecimento geral que a grande votação pelo correio favorecia o candidato democrata, bem como o comparecimento antecipado às urnas, possível em diversos estados como medida de prevenção para reduzir o risco de contágio do coronavírus.

A imprensa tinha a obrigação de saber que quem mobilizou fortemente seus eleitores para que votassem pelo correio ou de forma presencial nas seções eleitorais abertas com antecedência foi a oposição, o Partido Democrata. Cerca de 100 milhões de eleitores votaram assim. Trump, por sua vez, sempre apostou no baixo comparecimento como fator primordial para sua reeleição.

Outra informação importante sonegada pela mídia diz respeito à ordem da apuração. Na certa os jornalistas não ouviram a entrevista do senador Bernie Sanders, dada na véspera da eleição, na qual pedia paciência e sangue frio aos democratas, pois primeiro seriam apurados os votos do dia da eleição, no qual se concentrou o voto republicano, em seguida os votos presenciais antecipados e só por último a votação pelo correio.

Imperdoavelmente alheios a tudo isso, os jornais deram uma barriga coletiva ao estampar manchetes no dia seguinte ao pleito enfatizando que Trump surpreendera de novo, que a onda vermelha do Partido Republicano fizera estrago nas hostes democratas e que os institutos de pesquisas haviam errado feio. Colunistas se apressaram em identificar erros graves na tática e na estratégia de Biden. Essas análises equivocadas teriam sido evitadas apenas com uma leitura mais atenta e profissional do processo eleitoral dos EUA.

Mas as derrapadas não pararam por aí. Poucos seriam capazes de prever que a imprensa deixaria escapar constatações óbvias ditadas por um mínimo de bom senso. Exemplos: 1) Se Trump se disse vencedor quando mal tinha começado a apuração, é porque ele sabia que a eleição estava perdida; 2) Só a certeza da derrota explica a reação apoplética do presidente, vociferando e pedindo a suspensão da contagem de votos nos estados da Pensilvânia, Geórgia e Michigan, entre outros.

O noticiário teimava em ignorar também que a curva ascendente de Biden nesses estados tornava sua virada irreversível, preferindo alardear que o resultado estava em aberto e que Trump ainda tinha chances de vencer a eleição.

A marcha das apurações indica que Biden fará mais de 300 delegados e abrirá uma diferença no voto popular entre 6 e 7 milhões de votos para Trump.

Ou seja, as pesquisas acertaram ao prever de forma unânime a derrota de Trump.  Como jamais, em tempo algum, os grandes conglomerados de mídia fizeram autocríticas de suas coberturas, que esperemos sentados. 

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