O toma-lá-dá-cá de Bolsonaro

No governo Bolsonaro não se trocam cargos por votos, mas por armas

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Por Antonio Maués

A ausência de carnaval este ano não impediu que a presidência da república e o Congresso Nacional desfilassem suas fantasias. Com a vitória de Arthur Lira e Rodrigo Pacheco na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, o Centrão anunciou que suas alas estavam de volta à passarela e Bolsonaro acredita que ninguém o substituirá como mestre de bateria.

A fantasia do presidencialismo de coalizão, contudo, não veste tão bem esses foliões, que se divertem enquanto avança velozmente o número de mortes por Covid no país, o desemprego e a pobreza. Em governos anteriores, a formação de uma base aliada no Congresso servia para o presidente garantir a governabilidade e aprovar sua agenda legislativa. Agora, o samba-enredo é outro.

O único projeto que Bolsonaro possui é o de implantar uma ditadura no Brasil, sob seu comando. Para avançar nesse caminho estreito, ele tem que assegurar cargos e verbas públicas para o Centrão, mas também precisa manter a confiança dos grandes empresários em sua disposição de implementar a agenda econômica neoliberal. Sua relação com essa agenda é instrumental: ele aceitará as reformas que não comprometam suas chances de reeleição e que sejam suficientes para contar com o apoio do empresariado em 2022, quando se apresentará novamente como o único candidato que pode evitar a volta da esquerda ao poder. Reeleito, seu projeto autoritário ganhará ainda mais força. 

Enquanto isso, Bolsonaro segue fazendo política à margem do Congresso para manter a mobilização de seus eleitores de extrema-direita. Além de prosseguir com seus ataques às instituições democráticas e a busca de apoio de policiais e militares, Bolsonaro continua adotando medidas para facilitar o armamento de seus partidários. Alguns dias após ter apresentado aos líderes do Congresso inacreditáveis 35 prioridades da agenda legislativa, Bolsonaro editou quatro decretos que, mais uma vez, flexibilizam as regras para o uso de armas no Brasil. Paralelamente, o governo tem impulsionado propostas que concedem maior autonomia às polícias estaduais. Não cabe dúvida sobre quais são os assuntos que o governo considera urgentes, pois precisa que os bolsonaristas estejam de prontidão no próximo ano. 

No governo Bolsonaro não se trocam cargos por votos, mas por armas. Para evitar reações do Congresso, o presidente espera que o Centrão se satisfaça com alguns nacos a mais de poder. Os parlamentares, contudo, sabem que foi dada a largada para as eleições de 2022 e que a crise econômica e sanitária que continuará assolando o país tornará o eleitorado cada vez menos propenso a se contentar com as alegorias e adereços do governo.

O júri já percebeu que essa escola não tem harmonia. Vai atravessar na avenida quando o povo voltar a desfilar.

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