Os enfrentamentos dos profissionais de saúde no cotidiano

São muitos e enormes os problemas e as dificuldades com as quais os profissionais de saúde convivem, não somente durante um plantão, mas durante décadas de seguidos (des) governos

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A rotina dos profissionais de saúde no dia a dia é, de fato, extremamente desgastante, me emociona e me entristece o desabafo de uma enfermeira, quando disse: "Eu Desisto". Essa guerreira da saúde, certamente se sentia extenuada com o sofrimento próprio e o sofrimento alheio, vividos durante 12 horas de plantão em atendimento aos pacientes afetados pelo covid-19. A sua manifestação de desistência se evidencia ao observar a falta de seriedade com a qual o povo, melhor dizendo, aquela outra parte que não compõe os 70% da população brasileira, vem se comportando com aglomerações nas ruas, usufruindo, cinicamente, dos últimos dias do outono a contemplar o pôr do sol. Tal atitude caracteriza a total demonstração de desesperança, desprovimento de fé e a convivência com a “certeza” de que tudo terminará bem, sem respeitarmos os protocolos elaborados pela ciência pautados no distanciamento social, entre outros cuidados.

Falar do cotidiano dos profissionais de saúde e das agruras que infelizmente já fazem parte de suas rotinas de trabalho, principalmente nos hospitais públicos, é realmente necessário. Ao mesmo tempo que nos parece impossível relatá-las, constatamos também a familiaridade delas com a vida da população em todos recantos do país, por meio do acesso às informações através dos veículos de comunicação dito oficiais ou nas redes sociais. Além de sentir na  própria pele o descaso e a falta de compromisso dos órgãos governamentais com um dos direitos mais importantes esculpidos na Constituição Cidadã Brasileira: "Saúde um dever de Estado, um Direito de Todos”. 

Classificar como uma via crucis a senda diária do profissional de saúde, talvez não seja exatamente um exagero se relacionarmos as dificuldades enfrentadas nas vinte e quatro horas do dia desses profissionais. É constante o convívio com a inexistência de condições adequadas ao exercício pleno nas funções, quadro de pessoal insuficiente nas equipes multiprofissionais, falta de insumos básicos, de equipamentos para procedimentos de média e de alta complexidade, de proteção individual para o profissional e para o paciente. Tudo isso, somado aos parcos salários, considerando que, em alguns casos, são obrigados até mesmo a trabalhar com meses de atrasos em suas remunerações e sem qualquer perspectiva de uma política de recomposição de perda salarial, compatível com a capacitação de cada profissional.

Considerando a realidade da pandemia que estamos enfrentando, onde o Brasil se destaca, negativamente, como possível epicentro do coronavírus, alguns números merecem relato: o país conta, segundo dados dos conselhos de categoria, com seis milhões de profissionais especializados na área de saúde, esses dados também informam que até a primeira quinzena de junho, foram registrados 83.118 profissionais infectados com 169 mortes, sendo que até esta mesma data haviam sido testados 432.668 profissionais, com 159.763 negativados e 189.788 constavam sem resultados. Entre os infectados e mortos estão profissionais das áreas de enfermagem, medicina, farmácia, bioquímica, fisioterapia, fonoaudiologia, nutrição, psicologia e psicanálise, além de agentes de saúde das áreas de biomedicina e terapia ocupacional. (Fonte: Conselhos das categorias).

Nesse contexto, diante do avanço incontrolável  da doença, todo e qualquer recurso seria impactante para minimizar as demandas nos centros públicos de saúde, porta de entrada da população usuária e dependente do Sistema Único de Saúde, cujo objetivo seria aplacar o sofrimento dessa clientela e, consequentemente, dos profissionais do cotidiano no front de batalha da rede SUS, contra o inimigo invisível e expostos à contaminação. Já na iniciativa privada, o que se vê, entretanto, é aumentarem os lucros das grandes empresas e, especialmente das gigantes corporações privadas de saúde. Segundo o site exame.com, as maiores “operadoras de saúde” estimam, nesse período da pandemia, receita aumentada em até 60%, com lucros que variam entre 150 e 247 milhões de reais.

Esse curto e despretensioso artigo jamais seria capaz de traduzir todos percalços que refletem o cotidiano dos heróis da saúde. Já testemunhamos o desespero de colegas que, em extremo estresse abandonaram o plantão diante de situações, a seus julgamentos e por falta de apoio, incontroláveis. Por experiência própria, ainda em início de carreira, não tive outra opção senão sentar e chorar, depois de um tombo no corredor molhado do Hospital Souza Aguiar, com uma bandeja de medicamentos que havia me custado mais de uma hora de trabalho para preparar. Durante um plantão movimentado na emergência do H.S.A., devido a um grande acidente ocorrido na cidade, uma colega não evitou a própria micção involuntária por não conseguir se afastar do local de atendimento aos acidentados.

São muitos e enormes os problemas e as dificuldades com as quais os profissionais de saúde convivem, não somente durante um plantão, mas durante décadas de seguidos (des) governos, com total desprezo e desinteresse com as políticas públicas de saúde para a população em geral.

Finalizando, vale enfatizar o que considero o maior gesto de desrespeito aos profissionais de saúde, infringindo inclusive a leis que os protege no  exercício da função(a priori, o art.331 do código penal). Refiro-me às recentes cenas aviltantes de  invasões com agressões físicas aos profissionais e depredação do patrimônio público, promovidas por grupos de imbecis político-partidários, nos hospitais estaduais e municipais. 

VIVA  AS CLASSES DOS PROFISSIONAIS

DE SAÚDE DO BRASIL E DO MUNDO!!!     

#FIQUEEMCASA.

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