Ouro de tolo

A narrativa estabelecida pela mídia familiar brasileira pariu um rato, vestiu-o de herói e vai usá-lo em seu embate contra o mito, sem pudor de, vencida a data de validade do herói circunstancial, seus roteiristas limparem os pés em suas costas

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Qual prova Sérgio Moro apresentou contra messias? Li, reli e três li o depoimento daquele, tirado na sede da polícia federal em Curitiba, praticamente um anexo de sua casa. Uma mixórdia – principalmente se levarmos em conta o clima O.K Corral criado em 20 minutos de jornal nacional, quando o alcagueta deu pinta de ir além do que foi enquanto ministro da justiça... 

Não foi. Faltou convicção, coragem ou apeou-o de qualquer intensão conflitiva mais severa a narrativa que se constrói na imprensa familiar brasileira neste momento?

O tempo dirá. Por hora a confusão criada na expectativa gerada traz uma gama de teorias que alimentam o imaginário, abastecendo a cena política. De concreto apenas o seu desembarque do governo que criou...

E é isso que incomoda, na medida em que permite questionar a real motivação, uma vez que moro deixou um governo que praticamente constituiu, seja no ‘time’ político de publicitar a delação premiadíssima e mentirosa de palloci, seja na perseguição a Lula...

Não seria natural o juiz que atuou politicamente em favor da construção do mito abandonar o governo de sua cria. E a suposta interferência messiânica na polícia federal? Não justificaria o desembarque? Colóquio que acalenta bovino... 

Se Messias exigia mais do que ele poderia, republicanamente, entregar, seria muito fácil para moro demonstrar o assédio, notadamente se a joia disputada era o controle da polícia federal. Nada disso, entrementes, se verifica da leitura da oitiva de sábado. 

Na hora da verdade o alcagueta não sustenta o suposto motivo de sua debandada, preferindo iniciar sua narrativa com a vaselina do eu não acusei o presidente da prática de crime.

De duas uma: Frouxo o moro sem a toga ou comedido o candidato da direita golpista?  

O desembarque de moro do governo messiânico, à despeito de sua Senhora ter dito, há pouquíssimo tempo, que moro e messias eram uma coisa só, nada tem de moralidade contrariada, tampouco se revela altruísta, ético, divino. Trata-se de um fato político e neste contexto cobra uma abordagem interpretativa...

Cidadão que é, moro pode fazer política (agora!) a vontade. O que não pode é nós outros assistirmos sua opção política na narrativa que a imprensa familiar brasileira constrói...

Sem a narrativa da mídia chapa branca Moro não sustenta o discurso de bom moço, alma elevada, pedra preciosa (és pirita quando muito!), que pretende fazê-lo diferente da ciranda de demônios de paletó e anel no dedo que consomem vinho em Brasília...

Com todas as tintas: Moro cumpre o papel que lhe reserva a narrativa sob ensaio na imprensa familiar brasileira e esta opção desconstrói qualquer hipótese de ele ser de verdade, porquanto nasceu da narrativa que lhe pautaram, quando os grandes homens públicos (Lula) é que pautam a própria história...

Querem um exemplo? Quando Lula vencia seu segundo mandato, houve um movimento para que ele, modificando a Constituição, disputasse o terceiro. Naquele instante da história não haveria segundo turno. Seria quase uma aclamação. Quem se opôs ao golpe? A imprensa familiar brasileira? Não!  A imprensa familiar, qual galinha no poleiro, gostando do que via, inicialmente não atacou a ideia. Foi preciso Lula dizer não, clamar o respeito democrático à Constituição, para que a imprensa familiar desembarcasse da querença originária...

Vocês imaginam o simulacro de toga, que fez o que moro fez contra Lula, ter esta ordem de grandeza? Fato é: A narrativa que surge da história de moro não sustenta os interesses de seus patronos. Por isso quem pauta moro é a imprensa familiar brasileira, a teor da narrativa que lhe convém. 

Que a direita tenha em moro seu sonho de consumo (até porque sonhos de consumo tem preço, como o messias ensinou. Basta um convite para ministro da justiça ou do Supremo) é tão evidente quanto a ausência de título mundial dos caras da Turiaçu; o que não se pode admitir é que essa querença desanuvie os fatos como eles são...

Ouro de tolo é uma expressão alusiva a falsificação do verdadeiro metal precioso, do qual a imitação resultante só guarda a aparência, em um outro metal ordinário (pirita), mas que engana muita gente...

O fogo cria a pirita, mas o que gera a impressão de ouro nos tolos é o discurso do vendedor. Estelionatários vendem pirita como se ouro fosse – nas calçadas, em bares, ao lado de bancas de jornais...

Por falar em banca de jornais, pirita e imprensa familiar brasileira tem muito em comum. Parecem servir uma causa só; a pirita buscando a nobreza que não tem, a imprensa familiar brasileira no descompromisso com a verdade histórica que não guarda...

Quando a imprensa constrói uma narrativa qualquer, ela rouba do cidadão comum (eu, você, ele) o direito a formar opinião sobre o fato noticiado. Construir narrativas é prerrogativa de grandes escritores.

A construção de narrativas com objetivo político cobra um custo histórico. A narrativa que demarcou a tentativa de desconstrução do Partido dos Trabalhadores levou décadas à custa da pauta dos interesses da elite econômica brasileira, a qual se vinculam as famílias midiáticas. Sua consequência (tudo menos o PT) pariu o mito...

Vivemos essa pauta, desde então. Redes sociais facilitam a difusão do coronelismo eletrônico, aumentando a percepção de que moro e a imprensa familiar brasileira são la même chose

Sacco e farinha (pensaram em Vanzetti? Estão brincando comigo?), ambos querem a mesma coisa. A imprensa familiar um presidente para chamar de seu, moro uma imprensa familiar que lhe narre uma vida não vivida...

A narrativa estabelecida pela mídia familiar brasileira pariu um rato, vestiu-o de herói e vai usá-lo em seu embate contra o mito, sem pudor de, vencida a data de validade do herói circunstancial, seus roteiristas limparem os pés em suas costas.

Um merece o outro. Quem não precisaria viver esta merda toda somos nós, órfãos de Moraes Moreira e Aldir Blanc. 

Tristes trópicos. Pena que Regina Duarte não seja senão a triste figura sem tamanho que, enquanto ministra da cultura, deixou de reconhecê-los na morte, negando-lhes sequer uma singela nota de pesar...

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