Pisando as flores da democracia

O verde-e-amarelo dominando a Esplanada contrastava com o rubro das espatódias em flor. Nas ruas e praças, o hino nacional só perdia para o samba “Vai passar”, de Chico Buarque. Há 31 anos, numa manhã ensolarada como a de hoje em Brasília, o povo brasileiro dizia “bom dia, democracia”. O Congresso reunido elegia Tancredo presidente, pondo fim à ditadura. Na manhã de hoje, o Congresso está novamente reunido, as pessoas na Esplanada estão separadas por um muro e as espatódias já murcharam e caíram. O que se perpetra lá dentro é um açoite à democracia que floresceu naquela manhã de 15 janeiro de 1985. Pisam as flores da democracia. Chamemo-la golpe, impeachment, ruptura...Não importa. Se a presidente for afastada deste modo, a democracia sairá ferida.

O jogo não acabou mas os que defendem o impedimento ganharam a guerra do clima. Em aliança com uma imprensa que abdicou de seu papel criaram a ideia de que a fatura está liquidada, de que já têm os votos para aprovar o pedido de impeachment.  Na noite de ontem, festejaram  com Temer num jantar oferecido por Heraclito Fortes, que naquele tempo era um arqueiro do Sr. Democracia, Ulysses Guimarães.

Se têm mesmo, e o jogo está feito, a democracia sairá ferida e eles sabem disso. Será ferida porque falta um crime de responsabilidade inequívoco cometido pela presidente  mas é preciso dizer que sim, contra a opinião dos mais respeitados juristas.  Nem o mais exaltado oposicionista admite, honesta e sinceramente, que Dilma deve ser cassada porque deixou os bancos públicos adiantarem o pagamento de despesas sociais do governo (como sempre aconteceu) ou porque socorreu alguns órgãos públicos, inclusive a Justiça do Trabalho, remanejando recursos orçamentários sem aprovação prévia do Congresso, a partir de delegação da lei orçamentária.  O Supremo, já se viu, optou pela lógica de Pilatos. Não examinará a caracterização ou não de crime de responsabilidade. Honesta e sinceramente todos sabem porque estão decididos a depor Dilma Rousseff.

Primeiro, para que se salvem todos, em nome da moralidade. Acusados de corrupção vão afastar a presidente do Brasil, disse o NY Times.  O vice, dezenas de deputados e senadores e alguns governadores frequentam os anais da Lava Jato. Com  o sangue de Dilma, esperam calar a sanha de Moro, seus procuradores e policiais federais e  a sede udenista dos que na rua alimentaram o anti-petismo e o ódio à política. Em pouco tempo, o niilismo político se voltará contra todos, e já houve mostras disso na Avenida Paulista.

Depois, é preciso cassar Dilma para acabar  logo com este ciclo de governos com viés popular, que impuseram às classes altas a intolerável convivência com os pobres nos aeroportos, nos shoppings, nas faculdades públicas e privadas. Lula devia governar quatro anos e isso até daria um lustre à democracia brasileira. Mas o homem faz o melhor governo da Historia, reelege-se apesar de todas as macumbas, elege a sucessora e ela se reelge, num pleito que devia ter encerrado o ciclo a qualquer custo.  Então, tome discurso contra a inflação, o desemprego, a crise econômica alimentada pela crise política gestada desde a eleição, afora os ingredientes globais e os erros de calibragem do governo no esforço para manter a economia ativa. Nos discursos que ecoarão na Câmara até domingo, Dilma será acusada de tudo, e todas as pragas serão debitadas à era petista.  Os petistas falarão para ouvidos tapados sobre a redução da desigualdade, a Bolsa Família, o Minha Casa Minha Vida, o Luz para Todos, o acesso de milhões de jovens pobres ao ensino superior, os direitos alargados para negros, pobres, índios e quilombolas.

Apesar do que fez, na política o PT não foi santo nem competente. Ocupou o governo e não o poder. Se tivesse exercido o poder, não cairia a golpes da mídia, das manipulações da Lava Jato, das conspirações de Temer e do oportunismo de boa parte da Câmara.

O PT não vai acabar nem entrar para a clandestinidade. Já a democracia, que é muito mais importante, sairá ferida. As instituições sairão enfraquecidas. As multidões que  gritam contra o golpe não voltarão caladas para a casa. Os que ficaram calados também compreenderão o sentido do que foi feito. Se a crença na democracia representativa já era baixa, agora irá ao chão. Para quê eleger presidentes se as maiorias ditadas pelos interesses políticos podem tirá-los, jogando o voto no lixo? Os índices de abstenção vão minar a representatividade, pilar da democracia.

Depois de domingo, entraremos num pesado nevoeiro, seja com Dilma ficando, seja com Temer assumindo.  Os que têm olhos para o futuro e responsabilidade para com o Brasil que proponham um outro caminho. 

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