Política dos gozos (segunda parte)

Estou interessada em aprofundar por que as acusações de corrupção contra aesquerda são rapidamente convincentes e eficazes, mesmo sem provas

Estou interessada em aprofundar por que as acusações de corrupção contra aesquerda são rapidamente convincentes e eficazes, mesmo sem provas, enquanto as evidências de crimes da direita são recebidas com indiferença e mesmo incredulidade.

Não pretendo destrinchar os óbvios, múltiplos e intrincados interesses econômicos e geopolíticos que conduziram à situação atual, dos quais se ocupam sociólogos, economistas, cientistas políticos, historiadores, etc. Também não pretendo simplesmente destacar que muita gente se beneficia ao propagar a ideia de que a corrupção é o maior problema do país e que foram os governos de esquerda que a institucionalizaram. Quero pensar sobre o que move grande parte da população, alguns simpatizantes históricos da esquerda e mesmo os mais diretamente beneficiados pelos seus programas a se convencerem facilmente disso, passando a odiá-la a partir desta narrativa. Por que estas acusações funcionam ao ponto de que muitas pessoas que se sentem “cidadãos do bem” acabam fazendo ou tolerando crueldades?

Por que a maior parte da população continua achando que o Brasil foi destruídopor causa da roubalheira dos governos anteriores, mesmo já tendo sido comprovado que houve processos fraudados contra a esquerda e que a verdadeira corrupção está do outro lado? Até parte da mídia corporativa denunciou a farsa jurídica montada. Paradoxalmente, estas provas tiveram mais efeito sobre a própria direita - o STF decidiu se ater à Constituição e liberar o ex presidente arbitrariamente preso - do que sobre a sociedade em geral. Parece ter sido criada uma certeza inamovível de que uma quadrilha dirigia o país e de que todos os que apoiavam participavam do crime. Chico Buarque é atacado!

Alguém pode responder: ora, as pessoas são manipuláveis. Claro, mas queropensar quais são os pontos tocados por essa manipulação, assim como Freud e Lacan se dedicaram a esclarecer as coordenadas da hipnose. Os publicitários conhecem muito bem a política dos gozos. Eles sabem que precisam associar sexo, luxo e prazer aos seus produtos para vendê-los. É um exemplo do saber psicanalítico utilizado pragmaticamente pela sociedade de consumo.

Outros podem atribuir a causa disso à religião. Algumas igrejas neopentecostaistêm uma boa parcela de responsabilidade nestas certezas e demonizações, mas não toda. Certamente as fraturas pelas quais a religião entra no psiquismo devem ser estudadas, já que agora se produzem fenômenos diferentes dos que foram trabalhados por Freud e  Lacan em outro momento histórico. Dedicarei outro texto ao tema das religiões neopentecostais. A este respeito, sugiro a leitura do interessante artigo de Luís Nassif publicado o 05/01/2020.

A força das Fake News? Os que as fabricam sabem que pontos devem sertocados, tal como sabem os publicitários. Num primeiro olhar superficial, podemos ver que neste tipo de comunicação se repetem três questões: corrupção, sexo e ameaças diversas. Já trabalhei o medo em outros textos. Neste, tento mostrar como sexo e corrupção são equiparáveis na dialética do gozo.

Assim como Freud estudou os determinantes psíquicos do fascismo eaprofundou o tema da identificação ao líder, acho que nós, psicanalistas, devemos nos debruçar sobre os determinantes psíquicos da situação atual, na qual o surgimento de um caudilho foi uma consequência, e não a causa. “A psicologia individual é, ao mesmo tempo, psicologia social”, nos ensina Freud.

A culpa é do Outro

No texto anterior, expliquei o que significa a palavra gozo para nos,psicanalistas. Não se trata só de orgasmo, de encontros de corpos, de manipulação de órgãos sexuais. A psicanálise considera sexual - e gozo - toda sensação que, como a palavra diz, é sentida no corpo. Toda sensação é sexual, mesmo as produzidas por atividades aparentemente incorpóreas, como os pensamentos ou a atividade intelectual.

Também tinha colocado que a perda inerente ao gozo seria a causa material dasacusações. Poder responsabilizar alguém ou algo pela falta de um gozo total é a semente do ódio. Acrescento agora que esse ódio se torna quase irreversível quando é sobredeterminado pela fantasia do gozo do Outro.

Nós, psicanalistas, chamamos Outro (com maiúscula) à alteridade 1 . Ela é muitoampla, indeterminada, de contornos pouco nítidos, inconsistente. Abrange tudo aquilo que é realmente externo e diferente do sujeito até o mais íntimo e também desconhecido (linguagem, inconsciente, sonhos, pulsões, etc.). Mas a inconsistência do Outro é mal tolerada pelos seres humanos, apesar de que nós, psicanalistas, sabemos que aceitá-la e usufruir dela é o melhor que pode acontecer. Para não se confrontar com essa inconsistência os sujeitos inventam Outros consistentes, oniscientes e/ou poderosos a quem responsabilizar por seu gozo e por suas faltas. O Outro consistente pode ser  1 Simplificando, mas sem perder o rigor.  personificado por diferentes figuras: mãe, pai, professores, opinião pública, vizinhos, estrangeiros, mulheres, demônios, deuses, dirigentes, etc. Quando o sujeito encarna esse Outro em alguém, sua inconsistência se transmuta em extrema consistência imaginária. Este alguém aparece como muito poderoso, temível e dotado de uma obscura autoridade, da qual o próprio sujeito não é plenamente consciente.

Obviamente, os governantes vêm a ocupar este lugar no psiquismo humano.Atribui-se a eles mais poder do que aquele que eles realmente têm.

Pois bem, a esse Outro é atribuído um gozo que, na verdade, é uma projeção dogozo total que todo ser humano gostaria de ter. Jacques-Alain Miller nos ensina que o que não se suporta é o gozo do Outro. Este gozo não é suportado porque é diferente, porque se suspeita que seja maior do que o meu, ou – isto é o mais temido – que o Outro esteja gozando do sujeito.

Desta maneira, as acusações de corrupção são escutadas como: o Outro estágozando demais. Quando se trata da esquerda que promete algo, o que é escutado no psiquismo como promessa de gozo, à sensação de roubo de gozo se acrescenta a ideia inconsciente de ter sido usado como um objeto, de ter sofrido algo semelhante a um abuso. O Outro está gozando do sujeito. A falta de gozo do lado do sujeito passa a ser atribuída ao Outro, que se aproveitou de sua boa fé. Perto da consciência aparece a ideia: prometeu melhoras, mas queria roubar. No inconsciente, que é aquilo que nos move, a ideia que se forma é mais ou menos a seguinte: “Nos ofereceu um doce para se aproveitar da gente” 2 . Dá para perceber quanto ódio gera esta fantasia? Esta fantasia, de ter sido usado sem saber, gera um ódio e uma convicção irracional que não é demovida por provas que constatem a inocência desse Outro.

Assim se forma uma tempestade perfeita e a direita sabe disto, mesmo semconhecer os termos psicanalíticos. A direita manipula com eficácia a política dos gozos.

A esquerda profere uma promessa que é escutada como acesso ao gozo; o gozosempre está em falta. De quem é a culpa? É do Outro, que não cumpriu a promessa. Surgem as denúncias de roubo, e a falta de gozo se reduplica com a sensação de que o Outro está gozando da gente. Acho que não é necessário um Power Point para mostrar como, a partir disto, se produz um ódio e uma certeza quase inamovíveis.

Já a direita não promete nada; ou pior, cumpre aquilo que promete: gozo comresignação, com servidão, com medo. Não casualmente a resposta frente às provas de  2 Faz pouco tempo li essa frase quase textual num jornal da mídia corporativa.  corrupção da direita é uma resposta resignada. “É isso aí, todos roubam”. A ultradireita, por seu lado, é mais efetiva e satisfatória na sua promessa de gozo: plena vigência da pulsão de morte e do narcisismo. A ultradireita diz ao inconsciente “Vamos exterminar ou submeter todos aqueles que gozam demais”. Por isso, o ódio incontrolável se dirige não só àqueles que, supostamente, roubaram, mas também às mulheres, aos estrangeiros, aos negros, aos índios, aos LGBT. Aos que gozam com o saber, a cultura ou as artes. O apelo da ultradireita é a da vingança não contra os que têm mais, mas contra os que, supostamente, gozam demais. Na Alemanha de Hitler os judeus vieram a ocupar este lugar, tal como os homossexuais e os ciganos. Atribuo à fantasia de “gozar demais” a associação constante da ultradireita com o conservadorismo nos costumes.

No próximo texto trabalharei como as mulheres, os negros, os estrangeiros, etc.,se prestam à fantasia de serem aqueles que “gozam demais”.

Não por acaso foram usadas palavras e imagens grotescamente sexualizadas paradesmoralizar à esquerda: acabar com a mamata, mamadeira de piroca, kit gay.

A força da fantasia torna os sujeitos irracionais: uma parte da população pareceter sofrido uma lavagem cerebral.

A esquerda deve levar em conta esta inerente irracionalidade humana. Não ésuficiente tentar satisfazer as necessidades. O gozo vai muito além.

Linchamento

Lembro esta frase de Freud:

“Os homens não são criaturas gentis que desejam ser amadas e que, no máximo,podem defender-se quando atacadas; pelo contrário, são criaturas que reúnem, entre seus dotes, uma poderosa cota de agressividade”.

Freud estuda em “Psicologia das massas e análise do Eu” o que acontece quandose afrouxam os freios sociais que regulam a agressividade sempre presente nos seres humanos. Quando este afrouxamento se auto-justifica pela convicção de se estar fazendo justiça, as explosões de ódio são violentas. Freud diz: “todas as pulsões cruéis, brutais e destrutivas que neles jaziam adormecidas, como relíquias de uma época primitiva, são despertadas para encontrar gratificação livre”.

Os linchamentos são crimes cometidos por sujeitos que se reúnem contra umapessoa ou um grupo que, por diferentes motivos, querem expurgar da sociedade. Pode haver linchamentos raciais, de vingança, reivindicativos, ou contra algum tipo de criminoso que, por um motivo particular, mova os indivíduos a quererem eliminá-los.Podemos tomar exemplos dos filmes A Caça ou Fúria nos quais sujeitos inocentes são acusados por uma multidão raivosa e irracional que os ataca. Em Fúria, de Fritz Lang, a massa descontrolada invade a delegacia e, ao não conseguir entrar na cadeia, a incendeia.

É um tipo de manifestação coletiva que, com diferentes nomes, aparece desdeas mais remotas épocas da história humana. São movimentos produzidos pela agressividade associada à vontade de segregação: encarnar em alguém, ou em várias pessoas, o sujo e o inconfessável que o sujeito não quer ver nele mesmo, e tentar extirpá-lo. Quando este tipo de manifestação coletiva entra em jogo, é quase impossível demovê-la com argumentos racionais. Como em todos os linchamentos, a fúria se dirige a algo desconhecido de si mesmo que o sujeito teme e abomina, mas do qual, no fundo, ele gostaria de usufruir.

Frequentemente se produzem linchamentos morais por acusações de pedofilia ououtros abusos sexuais, tão comuns nos últimos tempos. As pessoas deixam de pensar racionalmente, identificam-se uns aos outros no ódio, e agem movidos pelas paixões. Muitas vezes estas acusações se mostram falsas, ou exageradas, mas já produziram efeito de destruir o acusado moralmente, ou mesmo fisicamente.

Quando o odiado é uma pessoa antes estimada, ou invejada, ou admiradacomo líder, a vontade de expurgá-lo é mais intensa.

Estas manifestações coletivas se produzem pelo que é comumente chamado decontágio psíquico, descrito por Freud como identificação do tipo histérica: todos se  identificam a uma causa comum, que é a de se vingar ou segregar àqueles que se permitem gozos que, inconscientemente, os sujeitos desejam.

Os linchamentos, morais ou físicos, não necessitam de alguém que os conduza. Muitas vezes é suficiente uma simples faísca para serem desencadeados. Geralmente são explosões momentâneas, mas podem se transformar em movimentos consolidados e duradouros. As manifestações de 2013 podem ser pensadas como um movimento reivindicatório de esquerda que depois, por intervenção da mídia e de grupos de direita – há a suspeita que eles foram financiados e organizados por EUA (Vem para a Rua, Movimento Brasil Livre) – foi se transformando num verdadeiro linchamento moral que continuou se aprofundando através dos anos até que uma grande parte da população ficou impregnada de ódio contra o governo.

Os linchamentos não necessitam condutores, mas aquele que mostre maiscrueldade ou mais ódio, aquele mais decidido na vontade de destruição, facilmente toma lugar de caudilho. Ele se permite qualquer transgressão. Vale tudo: desde que se consiga levar a cabo a aniquilação daquilo que suscitou a violência. Podemos ver a semelhança disso com o que estamos vivendo.

Voltando a 2013

Considero que houve, pelo menos, dois desencadeantes da intervenção da direitae da força de linchamento que foram mudando o tom das manifestações de 2013 que, inicialmente, reivindicava mais e melhores hospitais, melhorias no ensino e no transporte público.

No nível internacional, foi a resposta da CIA à criação do banco do BRICSacordado por seus líderes na Quinta cúpula do BRICS, realizada em Durban, na África do Sul, em 27 de março de 2013. Tema para outras áreas de estudo - eu apenas constato.

No nível nacional, me interessa trabalhar a partir da psicanálise a recém-aprovada lei do serviço doméstico, a PEC das domésticas, que passou a valer a partir de 2 de abril de 2013, na medida em que essa aprovação desencadeou certa fúria.

Vejamos como pode ter funcionado esta lei no psiquismo. Sabemos que amentalidade escravagista é muito presente, sobretudo porque a história da escravidão, assim como o longo período da ditadura militar, não foi elaborada nem simbolizada nos períodos posteriores. Foi sepultada. Um professor de história comentava que nem sequer se conhece os nomes dos traficantes brasileiros. É uma lei da psicanálise que o que não se elabora, se repete. Nos lares brasileiros existiam e existem novas formas de escravidão. Não foi trabalhado no psiquismo o direito ao respeito, à igualdade e à  dignidade devido a todo ser humano. É muito comum escutarmos que algumas pessoas se consideram superiores a outras, que acham suas vidas mais valiosas que as de outros. O primeiro artigo da declaração dos direitos humanos não foi assimilado: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”.

Assim, muitas pessoas da classe média alta, média e baixa pensavam que asempregadas eram seu direito e sua propriedade. Ficaram indignadas, pois se sentiram... roubadas.

Considero estas pessoas como pertencentes à categoria dos que têm interessespessoais em manter a narrativa da roubalheira da esquerda, mesmo sem estarem completamente conscientes disso.

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