Por que Ciro não se une a Lula pelo auxílio emergencial de 600?

Por César Fonseca

Racha da esquerda

Se Ciro Gomes fosse realmente pragmático e voltado para a demanda imediata da população estaria ou não, em Brasília, essa semana, engajado com Lula para defender o auxílio emergencial de R$ 600, capaz de dinamizar a economia que padece de crônica insuficiência de consumo? Ao contrário, com seu confuso discurso, dispersa, dando prioridade à tarefa de demonizar o ex-presidente e aliar-se à direita, carente de candidato para 2022. Se os dois juntos já enfrentariam dificuldades para reverter o subconsumismo, imposto pela política do Banco Central Independente, determinada pelo mercado financeiro, de manter escassez de crédito ao consumo e à produção, imagine se continuarem cada qual por seu lado! Desperdiçam ou não, inutilmente, esforços que poderiam ser mais bem aproveitados em favor da demanda popular? Esta se reveste, na pandemia, em luta encarniçada para fugir da fome e do desespero diante da morte iminente acelerada pelo novo coronavírus, sem vacina para atacá-lo. Será que adotando a estratégia da divisão frente à questão concreta da aceleração do subconsumo, Ciro alcançará popularidade? Agindo dessa forma, conquistará 30% dos votos de modo a chegar ao segundo turno, na eleição presidencial, deslocando Bolsonaro, para um tete-a-tete com o candidato petista?

Conquista do Centrão

A presença de Lula na capital em plena CPI do Genocídio, que abre cova rasa para enterrar Bolsonaro, via impeachment, cada vez mais provável, evidencia seu maior pragmatismo frente a Ciro; pelos contatos realizados, visa, sobretudo, rachar o Centrão, completamente, inseguro em face de Bolsonaro que escorrega, a olhos vistos, na CPI; ali, sua base de apoio se revela, totalmente, despreparada para enfrentar a oposição majoritária na comissão de investigação. Enquanto isso, o candidato do PDT, com seu novo marqueteiro,  João Santana, cuida de dar retoques na aparência que se revela escassa de conteúdo, sem agregação de valor político substantivo. Do ponto de vista econômico, Ciro se mostra equivocado, ao passo que a experiência lulista se afirma de forma mais clarividente; se fosse, realmente, anti-neoliberal, como diz, perceberia, no plano da política econômica, o obvio, relevado por Marx e escondido por Keynes. Para o autor de O Capital, o capitalismo padece, desde seu nascimento, de insuficiência crônica de consumo, porque a lógica do sistema é a da sobreacumulação de riqueza, de um lado, e de pobreza e miséria, de outro, levando a economia, consequentemente, para a deflação, queda da taxa de lucro e crises recorrentes; de imediato, portanto, o fundamental é conquistar o auxílio de 600 pilas, para matar a fome da maioria socialmente excluída; caso contrário a economia afunda, como vem acontecendo desde o golpe de 2016; tudo piorou com a pandemia, para dar razão ao diagnóstico marxista de que o subconsumismo é o mal maior que ataca a economia sucateada pela receita neoliberal desestatizante. Diante dela, Lula intensifica defesa da distribuição de renda, visto que de nada adianta elevar investimentos, se o consumo está demasiadamente escassso.

Contradição capitalista

Ciro, em seu livro “Projeto Nacional, o Dever da Esperança”,  considera que o capitalismo brasileiro padece, menos de insuficiência de consumo do que de investimento, ou seja, o mesmo diagnóstico de Keynes diante da crise de 1929, que ele mesmo destacou ser de sobreacumulação de capital; como injetar mais capital numa economia que padece de insuficiência consumista crônica, devido ao excesso de acumulação de renda e de desigualdade social? Trata-se, para Ciro, mais de investir do que de distribuir, para vencer o subconsumismo; Lula, ao contrário, defende, primeiramente, matar a fome dos que estão socialmente marginalizados; por isso, gira a bolsa, em Brasília, atrás, preferencialmente, dos R$ 600, sem os quais consumo e produção não saem do chão.

Lula segue Biden

No auge da pandemia, Biden, engajado na economia de guerra norte-americana, segue, curiosamente, mais o conselho de Marx do que o de Keynes, ao lançar na circulação capitalista americana mais de 6 trilhões de dólares para atacar o subconsumismo e garantir demanda interna sufocada pela crise de sobreacumualação de capital; do mesmo modo, Lula, em termos proporcionais, ao defender o auxílio emergencial de R$ 600 é menos  keynesiano do que marxista; o keynesianismo não distribui renda; pelo contrário, sua estratégia é a de sustentar status quo que leva à redução de salário como arma para sustentar pleno emprego, como demonstra Lauro Campos, em a “Crise da Ideologia Keynesiana”. A prática, no segundo semestre de 2020, com o auxílio emergencial de R$ 600, puxou consumo e produção e elevou substancialmente a popularidade de Bolsonaro; agora, com, apenas, R$ 150, no bolso, o trabalhador, socialmente, excluído pelo neoliberalismo bolsonarista, tende a apoiar Lula; Ciro, portanto, perde tempo em tentar demonizar seu adversário, quando, se engajado com ele na causa que defende, teria muito mais a ganhar.

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