Por que o Irã não irá quebrar

O que está acontecendo no Irã? Como a República Islâmica respondeu ao Covid-19? De que forma ela vem lidando com a implacável "pressão máxima" de Washington?

(Foto: WANA (West Asia News Agency)/Ali Khara via REUTERS)
Siga o Brasil 247 no Google News Assine a Newsletter 247

Por Pepe Escobar, para o Asia Times

Tradução de Patricia Zimbres, para o 247

Então, o que está acontecendo no Irã? Como a República Islâmica respondeu ao Covid-19? De que forma ela vem lidando com a implacável "pressão máxima" de Washington?   

Essas perguntas foram o assunto de um longo telefonema meu com o Prof. Mohammad Marandi, da Universidade de Teerã.

Segundo Marandi, "O Irã de depois da revolução voltou-se principalmente para as questões sociais. Foi montada um rede muito elaborada de serviços de saúde, semelhante à de Cuba, mas com mais financiamento. Uma vasta rede de hospitais. Quando o coronavírus atacou, os Estados Unidos chegaram ao ponto de impedir que o Irã conseguisse kits de testagem. Mesmo assim, o sistema - não o setor privado - se saiu muito bem. Não houve um fechamento total. Tudo estava sob controle. Os números - apesar de contestados pelo Ocidente - se mantiveram estáveis. O Irã agora produz tudo o que precisa, de testes a máscaras faciais. Nenhum dos hospitais está com lotação plena". 

Acrescentando às observações de Marandi, o jornalista de Teerã Alireza Hashemi diz que: "O sistema básico de serviços de saúde do Irã, que compreende clínicas públicas, casas de saúde e centros de saúde, está em operação em milhares de cidades e aldeias", o que facilitou "a oferta de  serviços básicos pelo governo".

Hashemi detalha: "O Ministério da Saúde criou um serviço de teleatendimento para o Covid-19 e distribuiu equipamentos de proteção fornecidos pelos provedores de auxílio. O Líder Supremo Aiatolá Khamenei convocou as forças armadas, empregando 300 mil soldados e voluntários para desinfetar ruas e lugares públicos, distribuir produtos sanitários e aplicar testes". 

Foram os militares iranianos que criaram linhas de produção de máscaras faciais e outros equipamentos. Segundo Hashemi, "algumas ONGs, entraram em parceria com a Câmara de Comércio de Teerã para montar uma campanha denominada de Nafas ("sopro"), com o objetivo de fornecer produtos médicos e serviços clínicos. A Farabourse do Irã, um mercado de ações de balcão sediado em Teerã, organizou uma campanha de doações para a compra de aparelhos e produtos médicos para ajudar o pessoal de saúde. Centenas de grupos de voluntários - chamados de  "jihadi" - começaram a produzir equipamentos de proteção pessoal, que eram escassos em seminários, mesquitas e hussainias, e também a fornecer sucos de frutas naturais para os trabalhadores da saúde".  

Esse senso de solidariedade social é extremamente poderoso na cultural xiita. Hashemi observa que "o governo relaxou as restrições sanitárias há cerca de um mês e, nas últimas semanas, estamos vivendo uma pequena brecha de normalidade". Mas a luta não terminou. Da mesma forma que no Ocidente, teme-se uma segunda onda de covid-19. 

Marandi ressalta que a economia, como não poderia deixar de ser, saiu prejudicada: "Mas, devido às sanções, a maior parte do prejuízo já havia ocorrido. A economia funciona agora sem as receitas do petróleo. Em Teerã, mal dá para notar. Não há termo de comparação possível com a Arábia Saudita, o Iraque, a Turquia ou os Emirados Árabes. Grandes levas de trabalhadores do Paquistão e da Índia vêm abandonando o Golfo Pérsico. Dubai está morta. Em Teerã, mal se notam as mudanças. O Irã foi o país que melhor lidou com o vírus. Além do mais, tivemos boas safras no ano passado e neste ano. Estamos mais independentes economicamente".

Hashemi acrescenta um fator importante: "A crise do covid-19 foi tão grave que as pessoas optaram por participar do esforço, revelando níveis inéditos de solidariedade. Indivíduos, grupos da sociedade civil e outros atores montaram toda uma gama de iniciativas para ajudar o governo e o pessoal da saúde que atua na linha de frente da luta contra a pandemia". 

O que a implacável campanha de desinformação ocidental sempre ignora é que o Irã, desde a revolução, acostumou-se a situações extremamente críticas, começando com a guerra de oito anos com o Iraque, na década de 1980. Marandi e Hashemi são peremptórios: para os iranianos mais velhos, a atual crise econômica empalidece se comparada ao que eles tiveram que enfrentar durante toda a década de 1980. 

O Made in Iran dispara

A análise de Marandi amarra os dados econômicos. Em inícios de junho, Mohammad Bagher Nobakht - responsável pelo planejamento dos orçamentos estatais iranianos, declarou ao Majlis (o Parlamento) que o novo normal era "pôr de lado o petróleo na economia e gerir os programas governamentais sem petróleo". 

Nobakht se ateve aos números. Em 2019-20, o Irã ganhou apenas 8,9 bilhões de dólares com a venda de petróleo e derivados,  uma forte redução, se comparada ao pico de 119 bilhões há menos de uma década.

Toda a economia iraniana está em transição. O que é de particular interesse é o surto de crescimento da indústria manufatureira, que já tem como alvo não apenas o grande mercado interno, mas também as exportações. A forte desvalorização do rial está sendo usada para beneficiar o setor. 

Em 2019-20, as exportações não-petrolíferas do Irã alcançaram o total de 41,3 bilhões de dólares, ultrapassando pela primeira vez as exportações de petróleo na história pós-revolucionária do país. E cerca de metade dessas exportações não-petrolíferas  era de bens manufaturados. A "máxima pressão" via sanções do Time Trump talvez tenha provocado uma redução de 7% do total das exportações não-petrolíferas. O total, no entanto, permanece próximo aos maiores níveis da história do país. 

De acordo com os dados do Purchasing Managers’ Index (PMI) publicados pela Câmara Iraniana de Comércio, um grande número de industrias do setor privado já haviam voltado a funcionar em plena capacidade no primeiro mês que se seguiu ao relaxamento do lockdown parcial. 

O fato é que bens de consumo e produtos industriais - de biscoitos a aço inoxidável - são exportados por pequenas e médias empresas para o Oriente Médio e também para a Ásia Central, China e Rússia. O mito do "isolamento" iraniano é - bem - um mito. 

Alguns setores industriais são promissores. Por exemplo, o titânio - de importância essencial em inúmeras aplicações militares, aeroespaciais e marítimas, e também em processos industriais. A mina de  Qara-Aghaj, em Urmia, capital provincial do Azerbaijão Ocidental, que é parte do cinturão mineral iraniano e inclui as maiores reservas de ouro do país, apresenta um tremendo potencial. 

O Irã está entre os 15 países mais ricos em minérios. Em janeiro, depois de adquirir a tecnologia para mineração de nível profundo, Teerã lançou um projeto-piloto para a extração de minérios de terras raras.  

No entanto, a pressão de Washington continua tão implacável quanto o Terminator. Em janeiro, a Casa Branca expediu uma nova ordem executiva tratando dos setores de "construção, mineração, manufaturas e têxteis da economia iraniana". O Time Trump, portanto, está mirando exatamente no setor privado em acelerada expansão - o que, na prática, significa um imenso número de trabalhadores de colarinho azul iranianos e suas famílias. Isso nada tem a ver com forçar o governo Rouhani a dizer "eu não consigo respirar". 

O front venezuelano

Fora alguns pequenos desentendimentos entre o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI) e o Ministério da Saúde, quanto à resposta chinesa ao covid-19, a "parceria estratégica ampla" Irã-China continua em vigor.

O próximo teste importante virá em setembro, data em que o Time Trump pretende estender o embargo da ONU sobre o Irã. Acrescente-se a isso a ameaça de usar o mecanismo snapback constante da resolução 2231 do Conselho de Segurança da ONU - caso outros membros do CONSEG se recusem a apoiar Washington e deixem o embargo expirar definitivamente em outubro.

A missão da China na ONU ressaltou o óbvio. O governo Trump, de forma unilateral, abandonou o Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA, em inglês), para, em seguida, voltar a impor sanções unilaterais. Os Estados Unidos, portanto, não têm o direito de estender o embargo de armamentos nem de recorrer ao mecanismo de snapback contra o Irã. 

A China, a Rússia e o Irã são os três nós fundamentais da integração eurasiana. Em termos políticos e diplomáticos, suas principais decisões tendem a ser tomadas de comum acordo. Não é de admirar, portanto, que isso tenha sido reiterado em Moscou, na semana passada, na reunião dos Ministros das Relações Exteriores Sergey Lavrov e Javad Zarif - que se dão muito bem um com o outro.   

Lavrov disse, "Nós faremos todo o possível para que ninguém seja capaz de destruir estes acordos. Washington não tem o direito de punir o Irã". Zarif, de sua parte, descreveu a totalidade da conjuntura como "muito perigosa". 

Outras conversas com analistas iranianos revelam sua forma de interpretar o tabuleiro de xadrez político da região, calibrando a  importância do eixo de resistência (Teerã, Bagdá, Damasco, Hezbollah) em comparação com as duas outras frentes: os Estados Unidos e seus "patetas" (a Casa de Saud, os Emirados Árabes e o Egito), o mestre – Israel – e também a Turquia e Qatar, que, tal como o Irã, mas ao contrário dos "patetas", são favoráveis ao Islã político (mas do tipo sunita, ou seja, a Irmandade Muçulmana). 

Um desses analistas, que escreve sob o nome de Blake Archer Williams, observa o importante fato de que, "a principal razão de a Rússia evitar prestar ajuda ao Irã (o comércio entre os dois países é praticamente zero) é que ela teme o Irã. Se Trump não tiver um momento Reagan e não se impuser ao Irã, e os Estados Unidos forem expulsos do Oriente Médio em razão do processo contínuo de paridade de armamentos do Irã, bem como de sua capacidade de projetar poder em sua própria região, então todo o petróleo do Oriente Médio - dos Emirados Árabes, Qatar, Kuwait e Bahrain, até o Iraque, é claro, incluindo os campos petrolíferos da região de Qatif, na Arábia Saudita (onde fica todo o petróleo e 100% xiita) ficarão sob o guarda-chuva do eixo da resistência". 

Mesmo assim, a Rússia e a China continuam a apoiar o Irã em todas as frentes, por exemplo, ao manifestar seu repúdio à Agência Internacional de Energia Atômica, acusando-a, na semana passada, de ter cedido às "intimidações" dos Estados Unidos quando seu conselho aprovou uma resolução apresentada pela França, Grã-Bretanha e Alemanha criticando o Irã pela primeira vez desde 2012. 

Uma outra frente importante de política externa é a Venezuela. O poder brando de Teerã atraiu a atenção de todo o Sul Global ao expor ao ridículo, de forma espetacular, as sanções e os bloqueios de Washington na região que a  Doutrina Monroe considera seu "quintal", quando cinco navios-tanque iranianos carregados de gasolina cruzaram o Atlântico e foram recebidos por uma escolta venezuelana de jatos, helicópteros e patrulhas navais.

O que aconteceu ali foi, na verdade, apenas um teste . O Ministério do Petróleo já está planejando uma outra rodada de duas entregas, enviando a Caracas, a cada mês, dois ou três cargueiros cheios de gasolina. Isso também será útil para o Irã, que poderá assim se desfazer de enormes quantidades do seu combustível produzido internamente.

Esse histórico primeiro carregamento foi descrito por ambos os lados como parte de uma cooperação científica e industrial, e também como uma "ação solidária". 

E então, na semana passada, finalmente consegui a confirmação que eu buscava: a ordem partiu diretamente do Líder Supremo Aiatolá Khamenei. Em suas próprias palavras: "O bloqueio tem que ser quebrado". O resto é a história do Sul Global sendo feita.

Participe da campanha de assinaturas solidárias do Brasil 247. Saiba mais.

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247