Por que Temer ficou?

 Temer ficou, entre outros motivos, porque negociou a venda das terras brasileiras. A internacionalização de terras está na base também dos golpes de estado no Egito e no Paraguai

Presidente Michel Temer 13/07/2017 REUTERS/Adriano Machado
Presidente Michel Temer 13/07/2017 REUTERS/Adriano Machado (Foto: Leandro Monerato)

A perplexidade diante de tal realidade tornou-se a reação mais comum; pois ao que tudo indicava, desde a aprovação do impeachment, a luta interna ao golpe privilegiava um governo DEM-PSDB ou PSDB-DEM com a necessária liquidação do PMDB como sustentáculo do regime. A ofensiva contra vários dos caciques do PMDB (Calheiros, Jucá, Sarney) confirmava plenamente esta tendência. Quando a Globo iniciou o ataque em regra para derrubar Temer ninguém mais suspeitava de outra possibilidade que não a sua rápida queda.
 
Contudo, nós dizíamos em julho, no editorial publicado neste jornal n11 (“Temer vai  ficando...O que Temer?”) que a situação era paradoxal. A crise do regime político manifestava-se na divisão e luta interna ao golpe, enquanto uma gigante manifestação em defesa de Lula comparecia em Curitiba quando Moro ameaçava prendê-lo. Isto fez João Doria declarar: “É preciso ter a compreensão do momento certo de atacar e saber quem é o inimigo. O nosso inimigo é o PT, o inimigo do Brasil”. Gilmar Mendes correspondeu ao recusar, como voto de Minerva, a cassação da chapa Dilma-Temer no TSE – o que seria a variante menos turbulenta para a derrubada do presidente golpista.
 
Nesse sentido, devemos repetir o alerta  final do texto acima citado: “Temer vai ficando; vai se tornando ele mesmo o ditador bonapartista do golpe, usando o Exército e se apoiando ora em um ora em outro setor. Sempre utilizando a carta PT como justificativa para um ou para outro. Eis que o golpe volta ao ponto de onde começou. A rota que estava na direção de Lula desviou-se para Temer. Mas tal como uma lei da natureza, o golpe mostra que não pode avançar enquanto o PT existir. A aprovação da Reforma Trabalhista será o recomeço da caçada a Lula e às organizações operárias. O novo fôlego de Temer deverá ser seguido por uma intensificação da repressão e dos planos fascistoides de colocar toda a esquerda na ilegalidade. As conversas diárias com as Forças Armadas mostram qual a perspetiva que está colocada para o próximo período.”. 
 
Por mais crítica que seja a situação, porém, poderíamos justificar a sua manutenção apenas por fatores negativos? Se sim, as últimas disputas em torno de Geddel, dos áudios de Joesley Batista etc. mostrariam a continuidade do plano de derrubar Temer e sua continuidade explicada apenas por fatos conjunturais, se não, seriam disputas no interior de um pacto, o qual deveria ser explicado pela satisfação de interesses mais prementes das classes dirigentes do golpe, quais sejam, o imperialismo, os latifundiários e parte da indústria nacional. Temer ficou, entre outros motivos, porque negociou a venda das terras brasileiras. A internacionalização de terras está na base também dos golpes de estado no Egito e no Paraguai.
 
Esse fenômeno, chamado como Land Grab ou governança global, é na verdade um processo de recolonização dos países atrasados pelo imperialismo mundial, iniciada após 2008 como forma de solucionar a crise  financeira através da corrida mundial por terras, como chamou o Banco Mundial. O que significará, não apenas, a expulsão de centenas de milhares de famílias de pequenos produtores rurais e permitirá ao imperialismo controlar de forma unívoca a especulação com commodities; Além de representar o controle das demais matérias-primas do país e, no caso do Brasil, fundamentalmente da água.
 
Os latifundiários não se sentem ameaçados ainda, porque tal corrida significa o aumento do preço das terras. Como contrapartida aos setores nacionais da burguesia, a reforma trabalhista permitirá a redução do valor da força de trabalho a níveis inauditos, aumentando o lucro desses setores. A aprovação da lei de internacionalização de terras e da reforma trabalhista, satisfazem interesses estratégicos e são os motivos para afirmar que Temer  ficou, vai  ficar e sabe-se lá se sairá do poder em 2018. A incógnita será a forma em que a reação dos trabalhadores se dará.

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