Porque ainda precisamos ser hippies

Hoje já sabemos que o mundo não é nem será mais o mesmo, e nossa tarefa agora parece que será não permitir que ele se torne, esse novo mundo por vir, uma versão ainda mais agravada do horror que fomentou seu próprio fim.

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Esqueçam as flores no cabelo, os dedos em riste apontando paz e amor, as roupas coloridas e os cabelos longos, até mesmo as vagarosas platitudes místicas nas falas pastosas que emulam os efeitos das drogas psicodélicas de então – tudo isso de fato complementa a epiderme do imaginário sobre os hippies do final da década de 1960, mas nada disso nos importa aqui. Quando falo que precisamos ser hippies, me refiro ao outro lado dessa camiseta estampada em tie dye: ao movimento que enfrentou o establishment político e o poder vigente de então de peito aberto contra os fuzis, pela liberdade sexual e comportamental contra o predomínio do capital, pela ecologia, o feminismo, a liberação das drogas, a alegria, e que ajudou a encerrar a Guerra do Vietnã. Precisamos ser hippies em nome do desejo, da crença, da luta por uma transformação total. 

Para além de qualquer opinião, os hippies foram o último movimento cultural a procurar efetivamente mudar o mundo – e não só no âmbito simbólico ou estético, mas sim em campos concretos: na política, nos relacionamentos, na esfera de trabalho, nas organizações familiares e residenciais, nas artes, no sexo, na academia e na educação, os hippies procuraram e trabalharam por uma nova forma de se viver. E antes que os apressados se lancem à conclusão de que tais anseios não deram certo, adianto que muitas das questões que hoje se fazem centrais nos debates públicos também vieram dos anos 1960 e dos jovens de então. Os hippies mudaram o mundo muito mais do que costumamos perceber ou admitir, através daquilo que John Lennon chamou de “revolução humana”. 

“Os hippies começaram o movimento ecológico”, escreveu Timothy Leary. “Eles combateram o racismo, lutaram contra os estereótipos sexuais, encorajaram as mudanças, o orgulho, a autoconfiança. Eles questionaram o materialismo robotizado, e em quatro anos deram um jeito de acabar com a Guerra do Vietnã”. Enquanto outros movimentos levantavam debates estéticos, decretavam o fim do futuro ou sonhavam com utopias de delírio, os hippies trabalharam para mudar o mundo naquele instante - essa, claro, é uma leitura romântica, mas nem por isso menos verdadeira. A molecada não só foi tomar ácido e tocar guitarra, mas de fato largou suas casas, criou comunidades, enfrentou a polícia nas ruas, fritou o cérebro e procurou inventar um novo jeito de ser e estar – e, para além do anacronismo da maioria desses parâmetros, algo segue tão atual quanto urgente: também precisamos hoje reinventar o mundo e nossa maneira de viver nele. Isso é o agora, como era em 1966, 1967, 1968. 

A começar pela correção de tragédias humanas: não pode haver mais qualquer esforço social e político que não busque o pagamento da dívida histórica pelo racismo, a misoginia, a homofobia, o machismo e tanto mais, assim como o fim de tais excrescências da ignorância. O novo “paz e amor” há de passar por isso de forma clara e enfática, e necessariamente também por uma crítica profunda ao capitalismo: seguimos enfrentando a pandemia do coronavírus e vendo grotescos “especialistas” na TV comparando a morte de milhares com o possível colapso do sistema econômico – o mesmo sistema que funciona essencialmente para segregar o acesso a direitos humanos básicos (como a própria saúde) e para dar ainda mais dinheiro para quem já nem tem mais onde enfiar suas fortunas. E nunca mais eleger genocidas, sejam os do mercado financeiro, sejam os genocidas literais, como no caso de nosso presidente atual. Parece um sonho distante, beirando o delírio? Sim – e a tarefa há de ser mesmo transformá-lo na mais concreta realidade. 

“O que realmente distingue essa geração é a determinação de agir, sua alegria na ação, e a segurança de que podem mudar as coisas através de seus próprios esforços”, escreveu Hannah Arendt sobre os hippies em 1972.  O trabalho do establishment político e cultural, da imprensa e até mesmo dos historiadores segue o mesmo desde a virada pros anos 1970 e até hoje – e o esforço por desmoralizar o movimento foi tão eficaz e bem feito que ate mesmo John Lennon comprou a narrativa derrotista (foi ele quem disse, afinal, que “o sonho acabou”) e hoje os hippies são vistos em tonalidade jocosa, como uma mera sombra ridicularizada do que de fato fizeram e propuseram. 

O establishment político conservador fez o que sempre fez: criou a turbulência que justificou a ele mesmo como solução, e pegou carona em situações singulares para massacrar qualquer possibilidade de mudança. É o medo como origem e combustível do próprio medo, e como justificativa para a manutenção do sistema que gerou o pavor de início – enquanto, à luz acesa, o único monstro debaixo do armário são os velhos capitalistas de sempre, mesmo que com roupas e retóricas diferentes.   

Pois junto do fim do sonho nos foi vendido como decreto o fim da  possibilidade de sonhar - em pouco tempo, em meados dos anos 1970, a luta contra o poder instituído foi substituída pela busca por felicidade e iluminação individual. Mas é justo nesse vácuo que entra a renovação total das possibilidades – e, aqui, a quem preferir podemos abandonar o título “hippie” original, e aderir simplesmente à herança que parece hoje mais importante: o inconformismo, a necessidade de mudança, a convicção de que é sempre necessariamente possível mudar – a utopia não como impossibilidade, mas sim como urgência. 

E mesmo que não saibamos a resposta, já sabemos o dilema: precisamos mudar nossa maneira de viver, e quem irá prover essa mudança comum não será o mercado. Nos anos 1940 o mundo como conhecíamos acabou, e por isso somente um novo mundo era possível. Hoje já sabemos que o mundo não é nem será mais o mesmo, e nossa tarefa agora parece que será não permitir que ele se torne, esse novo mundo por vir, uma versão ainda mais agravada do horror que fomentou seu próprio fim. 

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