Posições primitivas: “o inconsciente é a política”

A esquerda brasileira não encontra alternativas senão a discursividade também odiosa, rancorosa e imersa no solo do desejo infantil da vingança diante do baixo golpe sofrido em 2016. A única proposição da esquerda brasileira neste momento é culpar os golpistas e criticar a população que não quer sair às ruas para protestos quiçá sangrentos

No Brasil pós-Golpe de 2016 assistimos a uma intensa e quase unânime insatisfação com aquilo que aqui se implantou: um governo altamente corrupto e comprado pelo poder financeiro de uma pequena elite, a mesma que levou milhões de assonsados brasileiros às ruas para derrubar a incipiente democracia brasileira.

Em nada obstante, um fato curioso chama a atenção nos curtos períodos pré, intra e pós-Golpe no Estado de Direito, ainda em andamento esplêndido no Brasil: a involutiva superficialidade política comunicativa e a sua correlatada e inversa profundidade infantiloide, sobretudo a sua estrutura emocional birrenta, assombrada por mecanismos de defesa dos tipos kleinianos primitivos [“Mais recentemente, Bion, Segal, Rosenfeld e Ogden chamam nossa atenção para as diferentes finalidades da identificação projetiva (ZIMERMAN, 2000). Antes descrita apenas como um mecanismo de defesa, a identificação projetiva é entendida hoje como uma forma de comunicação que pode levar as mudanças psicológicas.”[1]] fixados que estão no ciúme, na inveja, na ambivalência amor-ódio, identificação projetiva:

O conceito de identificação projetiva foi criado por Melanie Klein (1946). Este conceito foi definido dentro do conjunto maior da obra kleiniana como parte de um fenômeno próprio àquilo que ela denominou de posição esquizoparanoide (SEGAL, 1975). Na posição esquizoparanoide o bebê em seus primeiros anos de vida projeta seu amor e ódio sobre o mundo que o cerca e vai internalizando objetos cindidos, representados em última instância por aquilo que se convencionou chamar de mãe boa e mãe má. Nesta fase a identificação projetiva é utilizada como um mecanismo de defesa psíquico, na medida em que mantém os objetos cindidos e permite a expulsão de elementos dolorosos do mundo interno do bebê. Desta forma, o bebê se protege da “percepção de separação, dependência, admiração, e dos seus consequentes sentimentos de perda, de raiva e de inveja” (PELOSI, apud FERNANDES; SVARTMAN; FERNANDES, 2003, p. 93).

Nota-se que para Melanie Klein, a identificação projetiva é definida como um mecanismo de defesa primitivo, que invade a mente do receptor e que não respeita ou considera a existência do outro em suas particularidades. Pode-se dizer que para esta autora, este mecanismo psíquico possui um significado predominantemente negativo.[2]

 

Neste sentido, somos estruturados por um inconsciente originalmente arcaico e acéfalo, no qual o peito da mãe ou similar propicia ao infans a sua entrada na vida via a facticidade da presença e da ausência desse peito-mãe: se está presente, o peito-mãe é bom; se ausente, o peito-mãe é mal.

Nota-se assim a primeira cisão de mundo via psiquismo da criança através da dubiedade do mesmo objeto. Se o peito-mãe cumpre o seu papel de nutrição e de prazer gozoso da criança, ele é elevado à categoria positiva, caso contrário, é pura negatividade, causador de uma perda substancial, portanto objeto ambivalente de investimento sensível inicialmente esquizoparanoide pelo bebê. Aquele peito-mãe negativizado que não cumpre a função esperada pelo bebê, obviamente será um peito frustrante e temível, alvo de ódio e perseguição negativa pelo pequeno infans.

Contudo, se esse pequeno infans avança um pouco mais em sua política inconsciente sensível, ele conseguirá atingir um outro nível em sua relação com o grande Outro peito-mãe, qual seja, ele se sucumbirá a uma posição depressiva. No entanto, diante da constatação da irremediável perda do peito-mãe, ele poderá elaborá-la mediante uma nova política mental de abertura a novas possibilidades ou se insurgirá num infans deprimido, culposo, portanto ciumento, invejoso e adepto da política do ódio permanente a qualquer Outro que não o complete em seus caprichos infantis.

Portanto, nestes termos, “o inconsciente é a política”, conforme dito pelo psicanalista Jacques Lacan (1901-1981).

Pode-se inferir que desde que existe o peito-mãe e a linguagem enquanto possibilidade criadora e discursiva, existe também o inconsciente e a política do inconsciente gerenciando a polis, os homens e seus inconscientes.

Assim sendo, a política nada mais é do que caprichos inconscientes: amor, ódio, ciúme, inveja, identificação projetiva, esquizoparanoias, depressão, melancolia... Tudo isso advindo da primitiva relação do bebê-humano com o Outro peito-mãe cindido.

Posto isso, a filogenia cultural política está para sempre fixada nos vislumbres kleinianos psicanalíticos. Embora possa parecer reducionista essa leitura da política, ela é tentadora, pois basta que atentemos melhor para a nossa vida psíquica e para aquela que estabelecemos com os outros cidadãos que logo perceberemos o que está em causa nas relações políticas.

Recortando a história política brasileira a partir dos estranhos movimentos de rua deflagrados em 2013, ver-se-ão que não existiam motivos concretos relevantes para a convulsão que se erigiu em face aos aumentos de R$ 0,10 nos preços das tarifas dos transportes urbanos no país, incialmente em São Paulo e demais estados sulinos brasileiros.

Inicialmente pensados como um estado niilista temporário, logo se verificou o seu vigor virulento direcionado visando, aos olhos mais atentos, a uma desestabilização política do governo socialdemocrata que havia realizado um corte na lógica colonial elitista que governara o Brasil por mais de quinhentos anos.

Enfim, “os bárbaros saem de suas tocas”[3], ou seja, diante de um novo cenário político-social brasileiro com o governo petista, as elites e sua claque mediana fora obrigada a conviver com um Estado mais distribuidor da renda e dos bens públicos como a cultura, a educação, a saúde, a assistência social, o lazer, o emprego... Sem falar da erradicação da fome e retirada de milhões de brasileiros da miserável marginalidade social.

Para um povo “serviente por natureza”, a possibilidade real de uma vida melhor e mais cidadã implicou num processo de autoculpa, próprio do escravo frente ao senhor e nada que as posições kleinianas não apontem, haja vista que o bebê cindido poder-se-ia “devorar o seio-mãe” ou mesmo ultrapassá-lo para novas posições vitais sublimadas.

Os experts elitistas souberam muito bem aproveitar dessa posição subjetiva primitiva brasileira ao promoverem uma sensacional incitação ao ódio de classe que repousava no inconsciente político tupiniquim. Com a ajuda do capital estrangeiro, da grande mídia global e determinados agentes perversos capitaneados pelo patronato brasileiro, o PT tornou-se o grande seio-mãe negativo fabricado, fazendo eco naquele inconsciente anárquico que se imaginava bem recalcado.

O resto dessa historinha todos nós já sabemos, embora alguns ainda a negue (outro mecanismo de defesa do inconsciente político).

Ainda é possível verificar, fartamente, nas redes sociais, principalmente no Facebook, esse fenômeno claramente inconsciente primitivo não evoluído das posições de Klein.

O que talvez seja o mais preocupante é um fenômeno secundário, porém originário dos mecanismos de defesa patologizados descritos: a vingança ininterrupta.

Depois do “corte Lula” nos quinhentos anos de escravidão dos brasileiros, os bárbaros deram o troco vingativo ao derrubar a democracia brasileira e implantar um Estado de exceção vil no Brasil. Mas a vingança ainda não acabou, agora os bárbaros enamoram-se com a extrema direita violenta e decrépita de um Jair Messias Bolsonaro dela vita.

Enquanto isso, a esquerda brasileira não encontra alternativas senão a discursividade também odiosa, rancorosa e imersa no solo do desejo infantil da vingança diante do baixo golpe sofrido em 2016.

A única proposição da esquerda brasileira neste momento é culpar os golpistas e criticar a população que não quer sair às ruas para protestos quiçá sangrentos.

De fato, “o inconciente é política”, contudo, ainda bastante primitiva.

É preciso elaborar e avançar...



[1] CAVALLARI, Maria de Lourdes Rosseto e MOSCHETA, Murilo dos Santos – “Reflexões a respeito da identificação projetiva na grupoterapia psicanalítica” – PEPSIC (Periódicos Eletrônicos em Psicologia), Rev. SPAGESP v.8 n.1 Ribeirão Preto jun. 2007:

http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-29702007000100006

[2] Idem.

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