Povo brasileiro: abandonado no deserto

"Os poucos líderes nacionais significativos que povo brasileiro teve, e que não completam os dedos de uma mão, em geral, foram profetas desarmados. O único que se armou foi Getúlio. Mas ao abandonar o ofício e a arte das armas, foi conduzido à morte pelo suicídio, num ato de desespero pelo que vislumbrava como destino padecente do povo. Lula, profeta desarmado, tornou-se um cativo de calabouço", diz o professor Aldo Fornazieri

Povo brasileiro: abandonado no deserto
Povo brasileiro: abandonado no deserto (Foto: Ricardo Stuckert)

Não são apenas 40 anos, mas mais de 500 que o povo brasileiro está errando no deserto. Somente em breves lampejos teve noção de rumo, uma vaga ideia de  destino. Sem a esperança de um milênio de paz e de prosperidade, vive sob o castigo abrasador dos séculos pagando pecados que não cometeu. Nunca teve um Moisés como líder, que nos momentos de perdição e de extravio fosse capaz de impor a lei, a justiça e a igualdade pelo fio da espada, num ato de terror fundante, cortando a cabeça dos malvados e fazendo crer pela força na esperança na terra prometida. Os poucos líderes nacionais significativos que povo brasileiro teve, e que não completam os dedos de uma mão, em geral, foram profetas desarmados. O único que se armou foi Getúlio. Mas ao abandonar o ofício e a arte das armas, foi conduzido à morte pelo suicídio, num ato de desespero pelo que vislumbrava como destino padecente do povo. Lula, profeta desarmado, tornou-se um cativo de calabouço. 

O resultado das desditas seculares do povo brasileiro é o governo Bolsonaro e a certeza de que não há limite na metódica tarefa das elites políticas e econômicas em destruir qualquer caminho de dignidade, de progresso, de justiça e de bem-estar. Não há limite para o nosso abismo. Tudo é soterrado e consumido nas valas comuns de corpos dos escravos, no sangue de índios assassinados que corre pelas florestas, no suor e no sofrimento dos trabalhadores amalgamados no ferro e no cimento das grandes cidades, no fogo que destrói os casebres dos miseráveis nas favelas, nas terras usurpadas à força dos camponeses por grileiros, na lama tóxica de Mariana e de Brumadinho, no lodo das enchentes que cobrem de desespero os mais pobres, nos escombros de Muzema...

O resultado da falta de competência, de coragem e de virtude da maioria dos líderes e dos partidos é isto que está aí: o governo Bolsonaro com seu despudor em destruir a cultura, a educação, as políticas públicas, os direitos, a soberania e o respeito e dignidade do Brasil no mundo. O resultado é um governo do desatino, do desvario, que, sem responsabilidade, não mede as consequências desastrosas dos seus atos para o Brasil e seu povo. É um governo que chama a atenção das pessoas lúcidas do mundo pelas suas investidas contra o meio ambiente, contra reservas naturais, contra terras indígenas, contra a necessária preservação de florestas. O Brasil já destruiu muito. A missão de Bolsonaro é completar a tarefa de destruição ambiental, material, social e moral do país. 

 O PT teve uma oportunidade ímpar para criar os fundamentos inabaláveis de uma mudança histórica do Brasil. Desperdiçou esta oportunidade com alguns acertos e muitos erros. No governo, não organizou o povo, não o educou politicamente e não o mobilizou. No processo do golpe-impeachment acreditou no Congresso, nos deputados e nos senadores e perdeu. Acreditou na fidelidade de Temer e do PMDB e foi traído. No processo de condenação e prisão de Lula acreditou no Judiciário e Lula está preso. Dirigentes partidários desestimularam mobilizações para não ferir suscetibilidades de juízes, gerando na militância sentimentos de desânimo e de prostração. Como maior partido do campo progressista e, consequentemente, com a maior responsabilidade, o que se vê hoje é um PT subordinado à linha política do PSol nas proclamações retóricas e caudatário do Centrão no Congresso.

Hoje, o que se houve dizer de políticos progressistas é que o povo brasileiro não tem cultura de mobilização. Mas a cultura de mobilização não é uma colônia de cogumelos que brota espontaneamente. Somente líderes partidos corajosos e virtuosos podem potencializar a cultura de mobilização. Os hebreus, cativos no Egito, também não tinham cultura de mobilização até que surgisse um Moisés. Os persas, dominados pelos medas, também não tinham cultura de mobilização até que surgisse um Ciro. Os colonos americanos também não tinham cultura de mobilização até que surgissem líderes que fizeram a Guerra de Independência. Os camponeses russos eram submetidos ao czarismo até que surgisse o partido bolchevique. Mao Tse-tung mobilizou os camponeses nas mais remotas províncias da China. 

Hoje o que se tem é um povo desanimado, sindicalistas acomodados, partidos burocratizados e frouxos, parlamentares apegados aos seus mandatos, uma juventude descrente, desfibrada, desiludida e inerte. Enquanto isso, a pobreza e a fome crescem. O poder aquisitivo das famílias se evapora e o desemprego se alastra. 

O Brasil, através dos tempos, não vem sendo governado pela competência e pelo exemplo dos governantes e administradores. Os políticos se especializaram no autoelogio. Fazem muito do pouco que é feito. Mas vai uma distância abissal entre o que fazem e as necessidades do povo, as necessidades da justiça, da igualdade, do desenvolvimento e do bem-estar. As administrações dos governantes, quando não se caracterizam pela corrupção, se caracterizam pela mediocridade. Há uma incapacidade geral para resolver problemas das cidades, da economia, da sociedade. 

O mau exemplo dos governantes vem até mesmo nas condecorações. Não premiam o mérito, o desprendimento, a solidariedade, a coragem, a inventividade. Premiam e condecoram os áulicos do poder, os aduladores, os espalhafatosos, quando não os corruptos e os criminosos. O Brasil não terá futuro com estas sinalizações imorais.

O Brasil, apesar de tudo, está cheio de heróis anônimos, a exemplo dos bombeiros de Brumadinho, dos solidários pobres e simples das periferias, daqueles que arriscam a vida para salvar até mesmo pessoas desconhecidas. Verdadeiro herói é Luciano Macedo, catador de rua, brutal e covardemente assassinado por homens do Exército quando foi socorrer o músico Evaldo, fuzilado com mais de 80 tiros. Luciano não será condecorado por ninguém. Não será nome de rua, de praça. Já o advogado dos soldados que fuzilaram os dois foi condecorado por Bolsonaro. A família Bolsonaro homenageou vários milicianos no Rio de Janeiro. Que exemplo moral dão Bolsonaro e os comandantes do Exército ao classificarem o fuzilamento como um incidente? Deveriam ter repudiado duramente os assassinatos. Se foi um mero incidente isto significa que outros Lucianos e outros Evaldos serão fuzilados. Que futuro terá o Brasil quando as autoridades se comportam desta maneira? Que futuro terá o Brasil quando os ministros do STF rasgam a Constituição?

Mas o que fez o povo brasileiro para ser castigado por tantos séculos e de forma tão cruel? Por que ninguém lhe diz quem são os causadores e os culpados por estes castigos? Por que ninguém lhe diz que é preciso punir estes malvados? Por que não surgem líderes e partidos corajosos e virtuosos? Getúlio Vargas nasceu em 1882. Lá se vão 137 anos. Lula nasceu em 1945, ou 63 anos depois de Vargas. Lá se vão 73 anos. 

Quando surgirá um novo líder autenticamente popular? Trará ele a espada da vingança? Será ele capaz de castigar os ímpios, os perversos, os predadores, os exploradores? Será ele capaz de apagar as misérias do povo brasileiro? Estas e outras questões da vida política brasileira são muito angustiantes e precisam encontrar caminhos de respostas e soluções. Não serão respondidas e nem resolvidas, contudo, se não formos capazes de sair da política burocrática, da acomodação dos cargos e dos postos, da arrogância dos pequenos poderes, do jogo para cumprir tabela.  O Brasil e seu povo estão a cobrar dos políticos, dos partidos, dos movimentos e dos líderes que sejam capazes pela desmedida, pelo inusitado, pela inovação e pelo poder criativo. Não iremos a lugar nenhum com a política da pasmaceira. 

Aldo Fornazeieri – Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP).

  

 

 

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