Presidente da República com as chaves da Câmara no bolso. O que virá?

"O risco de uma agenda de implantação de um sistema duro de repressão às liberdades democráticas passa a ser mais real", afirma Gilvandro Filho, do Jornalistas pela Democracia, após a eleição de Arthur Lira para a presidência da Câmara. "O autoritarismo de Estado deixa de ser um sonho bolsonarista e se transforma em um pesadelo" para o Brasil, diz o colunista

Arthur Lira foi eleito presidente da Câmara, com 302 votos
Arthur Lira foi eleito presidente da Câmara, com 302 votos (Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados)
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Por Gilvandro Filho, do Jornalistas pela Democracia

Com a vitória do deputado Arthur Lira (PP-AL) como novo presidente da Câmara os Deputados, o Legislativo brasileiro acaba comprometido em sua missão de poder autônomo e independente. A partir de agora, o Legislativo entra numa fase de dúvidas sobre o seu papel de fiscalizador dos atos do Executivo, que passa a ser o seu verdadeiro mentor. Para o tenente reformado do Exército que, no momento (e agora, com mais tranquilidade), ocupa a presidência da Nação, o resultado da eleição significa que as chaves do parlamento nacional, pelo menos da Câmara, estão à sua disposição.

Arthur Lira representou, neste pleito, os interesses do Palácio do Planalto em sua sanha autoritária de domínio total, de controle amplo e definitivo sobre a vida nacional. Sabe-se lá o que pode acontecer a partir de agora com a frágil Democracia brasileira. Além da pauta política e econômica do governo, a partir de hoje encaminhada com mais conforto pelo governo, o risco de uma agenda de implantação de um sistema duro de repressão às liberdades democráticas passa a ser mais real. O autoritarismo de Estado deixa de ser um sonho bolsonarista e se transforma, com cores plúmbeas, em um pesadelo para toda a sociedade.

Foram perdidas 62 chances de se abrir processo de impeachment contra o presidente da República, o que teria colocado um freio nessa marcha rumo ao controle total de tudo pelo Executivo. O antecessor de Lira, o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), deixa a presidência da Câmara de maneira melancólica. A História lhe reservará lugar inglório, o de maior engavetador de pedidos legítimos de afastamento de um presidente do Brasil que tinha contra si todos os motivos para ser escorraçado do comando do País. Motivos políticos, econômicos, sanitários, humanitários, comportamentais, de corrupção, de ameaças que, agora, ficam mais fáceis de concretizar.

Sem nenhuma certeza de estar se colocando na presidência da Casa uma figura que representasse um combate firme ao bolsonarismo, a candidatura de Baleia Rossi significava, ao menos, uma leve esperança de independência do Legislativo. Talvez até a aceitação de um dos pedidos de impeachment e a possibilidade de se lutar, da tribuna, contra o pior que, a partir de hoje, se vislumbra como dura realidade que é a presidência de um poder como apêndice da presidência de outro.

Não se pode entregar os pontos e deixar tudo de mão beijada para o presidente da República. Nem se vai, naturalmente. Mas, que a luta será desigual com Arthur Lira presidindo da Câmara em linha direta com o Palácio do Planalto, isto será. A primeira medida tomada por Lira, na bucha, dissolvendo o bloco de oposição que apoiou o seu concorrente e zerando o processo de distribuição de cargos na mesa diretora da Câmara, mostra o estilo com que o novo presidente da Casa vai se comportar em sua passagem pelo cargo. O jogo será duro.

Não é à toa a festa feita pelo bolsonarismo ao fim da votação, com 302 votos e ainda em primeiro turno. Até mesmo antes, vide a sessão de louvor etílico que a bancada evangélica promoveu, antecipando a vitória do seu ungido, a base de uísque 12 anos. A reviravolta moral e de costumes, guinando radicalmente à direita, também se prenuncia nessa nova era do bolsonarismo.

Com as mãos e os pés cravados na Câmara dos Deputados, o presidente da República tem motivos de sobra para comemorar a eleição do seu aliado e pupilo. O Brasil, não. Pelo contrário.

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