Pressões contra Castillo recordam piores tradições sul-americanas

Pressões contra a legítima vitória de Castillo na sucessão presidencial no Peru recordam articulação que há 60 anos deu início aos programas de desestabilização das democracias sul-americanas, recorda Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia

Pedro Castillo
Pedro Castillo (Foto: ANGELA PONCE/REUTERS)
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Por Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia

Sabemos que a história não se repete. Mas é preciso ficar atento aos próximos lances da eleição presidencial peruana, onde uma operação de extrema-direita procura bloquear a posse de Pedro Castillo, vencedor do pleito presidencial de 13 de maio, por uma margem por 44.058 votos, segundo a contagem oficial.   

Em 1962, um golpe militar ocorrido em Lima antecipou um movimento semelhante que iria se repetir no Brasil no 31 de março de 1964, em seguida na Argentina e outros países.

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A sequência, que impediu a consolidação de regimes democráticos estáveis, permitiu a Washington recuperar o controle sobre uma região onde cresciam governos que ensaiavam movimentos contra o imperialismo.

O início foi no Peru, diz a História. Há 59 anos, um candidato de esquerda, Haya de La Torre, fundador do APRA, organização com grande penetração popular, foi o mais votado numa eleição presidencial apertadíssima, que gerou uma complicação para a posse.

Embora tenha ficado em primeiro lugar, o vitorioso não foi capaz de ultrapassar a barreira de 33% dos votos, mínimo legal para assumir a presidência. A legislação previa que, neste caso, o Congresso tivesse a palavra final, escolhendo o novo presidente.

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Num esforço de conciliação, a Apra abriu mão de disputar a presidência por via indireta, contentando-se em concorrer como vice. Doce ilusão.

Em vez de cumprir a Constituição, dias depois do primeiro turno um grupo de generais invadiu o Palácio presidencial à frente de um cortejo com 30 tanques, exigindo uma mudança no calendário. A eleição foi adiada para um ano depois. 

Assim, em novo ambiente político-eleitoral, um concorrente conservador, Belaunde Terry, chegou em primeiro lugar e governou o país por cinco anos. A transição seguinte mostrou que a política peruana começava a se transformar numa guerra entre generais.

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Belaunde não terminou o mandato. Acabou deposto por Velasco Alvarado, que ficou à frente do governo por sete anos, entre 1968 e 1975. Após uma gestão marcada pela reforma agrária e um esforço de independência em relação a Washington, Alvarado foi derrubado por um novo golpe militar, comandado por Morales Bermudes, de extrema-direita.

Na presidência, Morales Bermudes integrou o Peru na operação Condor, articulação que unia comandantes militares de vários países da região, e que se destinava a identificar e executar militantes de esquerda -- mais tarde, o ex-presidente do Peru foi julgado e condenado pela Justiça italiana pela sequestro e assassinato de  25 cidadãos nascidos na Bota.

Até chegar ao pleito vencido por Pedro Castillo, por 50,1% dos votos, o Peru atravessou um percurso de tragédias. Organizou uma  Assembléia Constituinte cuja soberania jamais foi respeitada.

Enfrentou a ditadura de Alberto Fujimori, que fechou o Congresso num autogolpe com apoio dos Estados Unidos  -- e acabou expelido do cargo, e preso, com ajuda, mais uma vez, do Departamento de Estado, deixando um passivo de milhares de militares torturados e mortos.

Derrubados em processos de impeachment ou renúncias providenciais, o Peru teve cinco presidentes em cinco anos -- o tempo de mandato, previsto pela Constituição, é de 5 anos.

Professor de escola primária do interior do país, a biografia de Pedro Castillo lhe dá a legitimidade necessária para iniciar um novo curso na história do país.

Sua vitória mostra o desmanche das instituições políticas e, ao mesmo tempo, a vontade da população pobre e superexplorada para encontrar uma saída da democracia. Mais do que nunca, essa vontade deve ser respeitada -- o mundo inteiro sabe que a América do Sul está de olho no que se passa no país vizinho.

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