Qual biografia ministro?

Processo julgado por juízes cujas biografias se pretendam salvar saindo de governos totalitários, milicianos, misóginos, homofóbicos, tutores de maiorias, que ajudaram a constituir, à custa da jurisdição que entregaram, não deveria dar a ideia de equilíbrio, razão, luz

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Andreia Sadi noticia e este 247 reproduz fala do ministro da justiça onde este teria asseverado não rasgaria sua biografia para ficar ministro no governo...

Qual biografia, ministro? A de Vossa época de juiz? Se for, asseveramos não haver nada a salvar...

Vamos por partes (como diria Jack) que aqui não buscamos ofender, quem quer que seja; apenas constatamos alguns fatos: Vossa Senhoria era, até anteontem, excelência de toga e não da toga. Há diferença sensível entre ambas as situações. 

A primeira hipótese (excelência de toga) se anuvia quando o juiz pode até vestir a toga, mas a toga não veste o juiz – sem meias palavras: O homem não alcançava o tamanho nem a grandeza que a toga reclama e isso se verifica, quase sempre, quando o julgador trai o dever de distância das partes...

Trair dever de distância traduz se imiscuir na atividade probante do ministério público, bem assim se afastar da dogmática pela primazia da convicção ou dos interesses pessoais, perseguindo adversários políticos e protegendo apaniguados desta condição...

A segunda premissa (excelência da toga) suscita um grande magistrado que eleva a toga que veste. Há exemplos que gosto de pontuar: Amilton Bueno de Carvalho, desembargador aposentado do TJRS sempre elevou a toga que vestia, sendo-lhe referência e engrandecendo a magistratura – e por mais de um motivo que vai além do garantismo que praticou...

Adauto Suannes e Alberto Silva Franco – tanto quanto e vamos ficar por aqui, não sem antes lembrar Edson de Jesus Deliberador e Telmo Cherem (este ainda dando jurisdição de excelência no TJPR).

Vossa senhoria, ministro, nunca distinguiu a Toga, senão enquanto articulista político – e isso é o que há de pior sob a toga...

A bem da verdade, ministro, há quem nunca devesse se aproximar da toga (justamente para não avançar sobre os jurisdicionados à sombra de sua proteção institucional) – e esses são os juízes políticos...

Juízes políticos são a miséria de nossa época, constituindo-se dubles de esquizofrênicos com super-heróis, conquanto misturam essências sem guardar nenhuma propriedade, mitigando a doença viral que esparramam para a vida dos que julgam, suposto que o cuidado político não deveria sequer sombrear a entrega da jurisdição – que dizer orientá-la? 

Sim, orientá-la, ou há alguma justificativa racional para a condenação de um semelhante pela prática de um ato de ofício indeterminado? Ou as conversas esclarecidas pelo The Intercept em grupo de aplicativo criptografado de ponta a ponta se justificam em qualquer outro contexto que não o de uma quadrilha que não queria ser pega?

Sabemos que é quase um lugar comum de nossa época, mas um dos grandes juízes que conhecemos já ensinava: processo não tem capa...

E não deveria ter. 

Vamos além: Processo midiático que pauta interesses não dogmáticos, deveria desvender a ilusão de coisa justa ou de justa medida (de se botar reparo: não falamos em justiça). 

Processo julgado por juízes cujas biografias se pretendam salvar saindo de governos totalitários, milicianos, misóginos, homofóbicos, tutores de maiorias, que ajudaram a constituir, à custa da jurisdição que entregaram, não deveria dar a ideia de equilíbrio, razão, luz, conquanto já não espraiam o modelo iluminista, senão na salvaguarda do laissez-faire, ou quando os que lhes ladeiam pedem desculpas...

Seremos mais incisivos: O juiz político se assemelha à prostituta – apenas na intenção, Senhoras da guerra, já que ambos procuram um motivo, ainda que distinto, para entregar suas especialidades; enquanto o juiz político busca salvaguardar os que lhe estão ao lado (in Ônix we trust?), a prostituta se entrega para quem lhe pague, indistintamente...

Sincera e honestamente, a prostituta cumpre papel social muito mais relevante que o juiz político. Demais disso e com o perdão devido às prostitutas pelo exemplo que as iguala na comparação (e apenas aí, Senhoras da guerra!) aos juízes políticos, não há o que salvar de Vossa biografia enquanto juiz, ministro – se é que Vossa Senhoria, efetivamente, esteja preocupado com isso...

Vejamos isso... 

Dogmaticamente falando, Vossa sentença condenatória por hipótese de ato de ofício indeterminado lhe perseguirá, feito um fantasma de desesperança – que foi essa a resultante da equação de Vossa atividade política quando, por exemplo, divulgou o grampo ilícito no telefone da Presidenta Dilma em tempo de gerar um dividendo eleitoral no pleito eletivo que culminou por eleger Vosso Presidente (este, cujo governo de maiorias e armas Vossa senhoria compunha e está abandonando estrategicamente) ...

Além disso, a prostituição (perdão pelo trocadilho de mau gosto) da relação com os operadores da lava jato, exposta em suas entranhas pelo The Intercept, não recomenda qualquer biografia da toga – ainda que componha um quadro alusivo da performance dos de toga...

Demais disso, ministro, não vamos lhe deixar a medida do Bonfim (que os neopentecostais a lhe ladear tratam como cousa do demônio), suposto que ela não há de lhe valer. Tão pouco tomaremos qualquer disco de volta, porquanto o que escutamos não lhe seria de gosto... 

Mas vamos seguir lembrando que a toga nunca lhe caiu bem, suposto que fostes um juiz que nunca primou pela isenção nos julgamentos, já que sempre esteve ao lado de quem lhe pudesse abrir caminhos políticos (como o messias que, agora, estás a abandonar).

Então, não tenha pudor nem seja hipócrita: Não há biografia a salvar; há sim, um movimento que visa salvaguardar o dividendo político que lhe cacifou na entrega de uma jurisdição alinhada aos interesses do mercado.

Sem preocupação biográfica, pois, é legítima Vossa intenção de navegar a vida política (quando não o fez?). Apenas faça um favor à Toga – esqueça-a em um canto qualquer. Desapegue-se dela, que ela jamais lhe teve o mínimo apego, já que o propósito da toga é infinitamente maior do que Vosso desidério político. 

É que a Toga não veste político, político é que usurpa a toga.

Encerrando, lembramos que o lawfare com que Vossa jurisdição feriu Lula é prova viva de que não há biografia a salvar, mas sim o patrimônio político que Vossa atuação de aluguel sob a toga lhe propiciou. 

Tristes trópicos e segue fazendo muita falta o Morais Moreira, acabou chorare...

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