Quando Charlie Parker e Miles Davis encontraram Naiara

A tarefa mais importante que a mídia tradicional cumpre, para a direita liberal-rentista e, em consequência, para o fascismo pós-moderno que a apoia, é a mímese da simplificação. Ela bloqueia o aprofundamento do senso crítico, o diálogo complexo sobre os destinos do país

Quando Charlie Parker e Miles Davis encontraram Naiara
Quando Charlie Parker e Miles Davis encontraram Naiara

Um dia antes de escrever este artigo sonhei que Charlie Parker conversava com Miles Davis, num fundo musical de "Mango Mangue" e lhe dizia: "teus movimentos às vezes são lentos demais, como um amor de 30 anos, que custou a aparecer na superfície de uma rocha." Ao que Davis respondeu, no meu sonho-filme B, americano: "mas de repente – lenta como uma lava – a fagulha da música explode com um espasmo dolorido de toda a dor do mundo, como no meu Solar."

Lá já estava eu, nos diálogos cortantes de Dashiell Hammett, onde os bons se aquecem no silêncio e outros – como Allen Guinsberg – buscam no refúgio da sua intimidade uma "imensa luz submarina". Meu sonho estava na fala dos personagens de uma reportagem – lida há vinte dias – que não me saía da cabeça, onde as pessoas concretas diziam : "Rezo para São Jorge", "Cheguei ao meu limite", "Nunca tinha vaga", "Me acharam velha".

A narrativa sobre estes seres humanos descartáveis para o sistema do capital, tinha ficado registrada na minha memória como uma sombria advertência de que a superação deste mundo, neste período triste em que vivemos, vai ser lenta como uma lava e, quem sabe, o espasmo dolorido de Davis poderá ser apenas o suspiro final de uma história que desce aos infernos do fascismo.

A brilhante reportagem especial de Juliana Bublitz, com fotos de Julio Cordeiro, publicada em ZH 9\10-06, "A face oculta do desemprego", traz uma "imensa luz submarina" para compreendermos o brutal momento político e econômico que estamos vivendo. Ela informa sobre os lentos e duradouros momentos do "ajuste", a partir de quem os sofre diretamente, na carne. De um lado, nos afunda num mar de incertezas iluminadas pela tragédia, de outro, nos mostra como não se pode depreciar de todos os profissionais da grande imprensa.

Muitos deles ganham duramente o seu pão, num lugar onde a asfixia política domina as redações e forma os seus autômatos da culpa: "a culpa é do Governo anterior" ou é do "comunismo" ou é do Estado "gigante" ou é do petismo de "esquerda". Nunca é do capital financeiro que controla o Estado, nem dos 1%, que fruem e protegem um regime social, em que este percentual de gente controla 40% da renda nacional.

As tarefas que os jornalistas da grande imprensa cumprem – ou porque acreditam ou porque são induzidos pelos seus patrões – não são fáceis. Elas castram a imaginação criadora para celebrar as privatizações, a extinção dos subsídios sociais para geração de renda e atividade, a redução dos gastos públicos com programas sociais humanizadores da vida no capitalismo social-democrata, em extinção. Seu sentido é formar uma maioria social hipnotizada na centralidade do presente: a "necessidade inadiável" das reformas, promovidas pela "necessidade imperiosa". E o fazem sem atentar para a vida real das pessoas concretas, no mundo real do ajuste.

O sofrimento, os pesadelos de uma vida de dor sem sentido, a fome e o abalo profundo na autoestima de quem quer trabalhar e não é reconhecido, é a vida dos "sobrantes" do neoliberalismo. Precários, intermitentes, "meio-jornadistas", informais sem seguridade social, pobres de toda a ordem, miseráveis sem estima, é o que vem por aí com as "reformas" pautadas pelo golpismo. Para estes Jorge Nunes de Azambuja – um dos trabalhadores apresentados na matéria – é um homem sem sombra e um corpo dolorido sem rosto. A matéria de Juliana – grandiosa e ética – nos traz para tudo isso que já sabíamos, mas fala cautelosamente – em profundidade – com um público que não quer saber.

Insisto sempre nestes aspectos, para tratar de grandes temas políticos que me afligem como cidadão, porque a formação da agenda política do país deslocou-se das instituições políticas do Estado e dos Partidos, para a "grande mídia", com a resistência nas redes, nas quais se disputam posições já formadas – em choque – enquanto a mídia tradicional atinge milhões, com suas palavras-ordem de assimilação direta, batidas e rebatidas todos os dias para um público cujo árduo cotidiano não estimula a reflexão.

A tarefa mais importante que a mídia tradicional cumpre, para a direita liberal-rentista e, em consequência, para o fascismo pós-moderno que a apoia, é a mímese da simplificação. Ela bloqueia o aprofundamento do senso crítico, o diálogo complexo sobre os destinos do país, que não depende mais só do que ocorre na nossa economia e no nosso território, mas está ancorado no "rentismo" global. Na acumulação sem trabalho eles criam sub-cidadãos que cultuam seus patrões cada vez mais abstratos, escondidos em redes de cooperação intermináveis, sem face e sem coração.

A matéria de Juliana mostra de maneira direta e isenta, para o público predominante que lê ZH -cuja maioria apoiou o golpe e fez de Temer o seu ídolo político residual- que a desumanidade mais nos espreita, com o ajuste atual. E que os ritmos de saída são demorados, como nos acordes imaginários discutidos entre Charlie Parker e Miles Davis. Como na brega genial de Naiara Azevedo, "50 reais", talvez isto comece a mudar quando a classe média conservadora, leitora de ZH – que ainda, quem sabe, guarda a democracia como uma reserva moral – consiga colocar a mão no peito olhando para os sobrantes, como a linda Maiara, dizendo: "Isto aconteceu (também) comigo!"

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