Quem é Steve Bannon (II)

Não foi segredo algum para a vida política brasileira e para os analistas, ainda mesmo para aqueles de mais modesta informação, que Bannon esteve por trás de muitas das estratégias adotadas na eleição presidencial brasileira, da análise de dados, compilação e manejo de informações às ações digitais e, talvez, captação de recursos

Quem é Steve Bannon (II)
Quem é Steve Bannon (II)

Steve Bannon é figura de proa da organização da extrema-direita global e vem ocupando espaços e atuando para além da esfera governamental norte-americana, embora em franca defesa de seus interesses, em detrimento dos de vastas massas populacionais mundiais. O extremismo ideológico de Bannon defende o "nacionalismo econômico", mas este não se confunde com neoliberalismo ou globalismo, senão que o contradiz. O nacionalismo econômico extremista da "alt-right" (alternative right) conceitualmente não pode ultrapassar as fronteiras do império, senão enquanto mera retórica, pois é incompatível com políticas econômicas que promovam o desenvolvimento econômico e social de qualquer outro Estado.

A ideologia extremista de direita, a "alt right" norte-americana, encarnada por Bannon, é colidente com quaisquer outros "nacionalismos" mas, notavelmente, com os dos países situados na periferia econômica, pois é destes que o nacionalismo dos EUA historicamente empenharam-se em extrair riquezas e, por conseguinte, quaisquer traços de soberania, constituindo assim neoprotetorados em que apenas permanece a soberania em seu puro estado formal e nada mais. Para alcançar o seu objetivo o nacionalismo da "alt-right" norte-americana coopta figuras deprimentes e depressivas, dispostas a exercer falsamente o papel de nacionalistas de pátria alheia, pois traem os seus estados nacionais sob o patrocínio do apoio do império. Poucos países foram melhor exemplo disto do que o Brasil, que hoje não enfrenta apenas o inimigo externo para manter a sua soberania, senão um volume expressivo de altos traidores cuja condição sequer se furtam de ocultar, e já sem ruborizar nem temer as possíveis consequências de sua condição, a ponto de que Bannon seja o definidor de importantes segmentos da administração brasileira através de agentes interpostos e que exerce público e publicamente reconhecido papel de influência sobre a família Bolsonaro.

A ideologia extremista de direita de Bannon tem em sua base a insatisfação devidamente estimulada por este segmento elitista com a política e os políticos mas, sobretudo, com os seus representantes cuja origem é popular e democrática, sob os quais pesam as mais diversas acusações e máculas, ao que se acresce o destaque de que as elites são as que ocupam o poder. A ideologia extremista de direita está aliada a projetos que se apresentem como contrapostos à corrupção, focando no exclusivamente no Estado, e em nenhum caso sua variada e abrangente ocorrência na iniciativa privada, associando com alarde declaração de estar empenhada na crítica ao establishment, o que virtualmente não ocorre.

Para o extremismo degenerado de Bannon os pobres não são pobres em face da odiosa estrutura em que a distribuição de riqueza é praticamente ausente que articula a riqueza exorbitante de poucos, o que virtualmente deslegitima as democracias ocidentais sob o beneplácito da "alt-right". O extremismo de direita responsabiliza aos pobres por sua condição e, a rigor, pela péssima e injusta estrutura do sistema econômico que a elite cria. Inversamente, o extremismo à direita culpa as intervenções corretivas do Estado no livre mercado pela condição dos pobres, e também a estes por supostamente não dedicarem o esforço necessário para potencializar as suas chances e, novamente, círculo que se fecha, em vista de que os recursos que deveriam estar à disposição da massa de homens e mulheres se encontram nas mãos do Estado corrupto que os malbarata entre aplicações em programas sociais e a corrupção. A retórica extremista quer fazer crer que o seu propósito político é evitar que a elite (global) use a máquina do Estado para cumprir os seus interesses, e ela própria aparece no horizonte como uma virtuosa promessa populista com potencial mobilizador de massas, e isto no pior sentido que esta gramática política pode dispor, pois ao povo nada mais oferece do que destruição e desgraça em estado puro.

Bannon já descreveu sem pejo ou hesitação no espaço da Breitbart News como a "alt-right" observava a si mesma: "Nós nos vemos como virulentamente anti-establishment, particularmente 'anti-' uma classe política permanente". O fascismo e suas versões contemporâneas mantém o traço de contínua virtude anti-política, é uma sucessiva marcha para o desarme das vias do diálogo e qualquer sorte de mediação pela representação coletiva, procurando resumir a força política em apenas um personagem mítico. Para Bannon "a ideologia do Breitbart era uma mistura que incorporava libertarianos, sionistas, membros conservadores da comunidade gay, opositores do casamento entre pessoas do mesmo sexo, partidários do nacionalismo econômico, populistas e partidários da alt-right". É descrição aproximada mas inverídica em sua totalidade, mas o que Bannon bem assume é que o populismo será o futuro da política, embora não termine de apontar com clareza quais são todos os elementos deste populismo de direita nem muito menos as suas reais consequências, senão o contrário, posto sugerir que o extremismo está a focar na classe trabalhadora e na classe média, o que é uma falsificação do real enquanto proteção de seus interesses, posto que os da "alt right" são incompatíveis com os dos trabalhadores, pois esta apenas opera por dentro do Estado em favor da oligarquia. O que realmente pode ser observado é que se trata de um horizonte neofascista sombrio ao extremo.

O projeto ideológico que ao menos publicamente vai sendo conduzido por Bannon está composto por binários simples, quando não simplórios, expressos em suas narrativas de tons apocalípticos mas eficientes para capitalizar o apoio de mentes simples. Seus códigos são perigosamente penetrantes e capazes de despertar o irracionalismo e mobilizar a perversidade humana ao inocular nas massas o germe da desconfiança, da inimizade e da cizânia, logo resumidos no puro ódio através de hábil manipulação de novos instrumentos digitais coordenados com as mídias tradicionais movidas a financiamento das altas capas interessadas na exclusão de bilhões de pessoas de todo o planeta da esfera da cidadania ali e onde este estágio civilizacional tenha sido alcançado. "O Movimento" é o porta-estandarte do processo hoje em curso em escala planetária, e no Brasil com especial ênfase, que visa arruinar o Estado democrático de direito conforme nós o conhecemos, baseado na legalidade e igualdade de direitos para os cidadãos.

Bannon carrega o núcleo de sua retórica com o contraste entre o bem e o mal, traduzindo em narrativas mal e pobremente simplificadas a complexidade do mundo e da existência, tornando assim acessível o mundo às massas órfãs da lógica binária cristalizada desde a laicização e de sua penetração e alargamento na cultura ocidental. Bannon opõe ordinariamente o sagrado ao profano como lente para apreender o mundo, dividindo-o entre bons e maus, entre a virtude e o vício, conforme adiram ao seu projeto ou não, e assim, portanto, se tornem merecedores da reputação de inimigos, aos quais o combate sem quartel nem medidas é tudo quanto cabe e justo é.

O projeto ideológico extremista de direita de Bannon não encontraria a sua melhor forma de disseminação ocidental e influência dominante se a sua execução fosse articulada nos limites dos corredores da Casa Branca, que imporia certas limitações de movimentos, e a mudança de Bannon para Bruxelas revelou-se providencial para constituir uma frente de partidos políticos extremistas de direita e superar as diferentes persistentes entre eles, e logo empreender marcha decidida para enfrentar as eleições parlamentares europeias no ano de 2019. O plano de Bannon foi sendo costurado através do envolvimento de aliados franceses, espanhóis, portugueses, italianos, belgas etc., todos sob a nomenclatura de "O Movimento", tentando enfeixar o conjunto de todas as iniciativas de ultradireita europeias para uni-las à norte-americana, e apenas mais recentemente expandi-las para a América Latina, especialmente para o Brasil, onde o rosto do bárbaro e o hábito do ditador tem a caneta e a famiglia o poder.

Bannon vem obtendo êxito em apontar para um horizonte comum desta força extremista que hoje organiza base social até então inacessível para amplos setores da direita e, ainda menos, para a extrema-direita. Bannon sente-se suficientemente à vontade com o poder global que articula a ponto de que em discurso endereçado à direita francesa logo após a derrota eleitoral para Emmanuel Macron declarar que "a história está do nosso lado". A sua confiança é crescente, e mostra disto são as tratativas para aperfeiçoar as condições para a expansão do "Movimento" no continente latino-americano, em especial pelo Brasil dos Bolsonaro, cujos perfis psicológicos tão obcecados pela cultura norte-americana quanto intensamente desprezam a própria gente brasileira, seu povo mestiço e suas riquezas, suas opções e matizes culturais, suas idiossincrasias e pluralidades mil, revelando-se tão ou mais racistas quanto o núcleo da proposta de Bannon. Isto os torna ideais para a tarefa de concretização da submissão de seu país.

A ideologia supremacista branca que compõe a ideologia extremista de Bannon está composta por homens inspirados no primitivismo-mor, açambarcados pela debilíssima crença de que a cor da pele se sobrepõe às oportunidades que o mundo material oferece ou bloqueia. Para eles os latinos são apenas desprezíveis mestiços, não muito diferentes dos imigrantes italianos norte-americanos, e nesta condição, inferiores, merecedores de receber o tratamento de submissão. A sua máxima hoje renata é "Deus Vult" (Deus assim o quis), estratégica para anunciar e tentar legitimar a precária e paupérrima visão de mundo segundo a qual a vontade divina opera no mundo determinando a vontade humana que, mesmo sob a ótica teológica católica, possui o livre arbítrio, de onde o espaço para o próprio pecado no mundo e toda a violência e o mal.

Neste sentido é congruente a intensa negação dos supremacistas brasileiros que tanto desprezam a sua gente, e exemplo disto é a família Bolsonaro, que explicitou múltiplas vezes, e publicamente, a inteireza deste desapreço e, talvez não sem razão, também traduzindo, ainda que por vias oblíquas, o desprezo pelo seu lugar no mundo, vale dizer, por suas origens, cultura e raça, e assim, portanto, por si mesmos. No limite, esta é a contradição inerente aos traidores da pátria que não dispõe de subsídios para afirmar a sua condição pessoal e nacional.

Não foi segredo algum para a vida política brasileira e para os analistas, ainda mesmo para aqueles de mais modesta informação, que Bannon esteve por trás de muitas das estratégias adotadas na eleição presidencial brasileira, da análise de dados, compilação e manejo de informações às ações digitais e, talvez, captação de recursos. Estes movimentos, aliados à reunião ao seu redor do mundo do capital, o que, finalmente, levou Bolsonaro à uma inicialmente improvável vitória nas eleições presidenciais de 2018, tendo o próprio Eduardo Bolsonaro, seu filho, declarado que Bannon havia auxiliado no processo "sem demonstrar interesse por compensação financeira". Como tamanho desinteresse não é coisa deste mundo, supomos tratar-se de um preço bastante superior a ser pago em momento futuro, cujo primeiro passo talvez tenha sido a adoção da "política externa e comercial com profundo viés ideológico" e capaz de abrir mão de mais de três dezenas de bilhões que o comércio agropecuário com a China traz para as arcas brasileiras, eis que ela passou a comprar produtos agrícolas norte-americanos (não por acaso) em substituição aos brasileiros, ainda acompanhado da completa a irrestrita privatização das empresas brasileiras e entrega de parte do território nacional assim como alinhamento automático à política externa norte-americana.

As convicções da extrema direita bannoniana estão por trás das ações de Trump tanto quanto das de Bolsonaro, e disto são sobrados os exemplos, partindo das práticas e declarações deslocadas e aparentemente sem sentido. Neste sentido o trabalho de Bannon é essencial, pois concebeu o papel da mídia tradicional associada à mídia digital de uma nova forma, transformadora para os fins que a nova direita neofacista precisa. Uma das faces de sua articulação é a crítica ao establishment, e nesta dimensão endereçam a sua diatribe para alvejar o conservadorismo liberal moderado tanto na esfera política quanto midiática e judicial-legalista que se oponha a projetos que impeçam a perda da soberania nacional, algo observável tanto na versão neofascista brasileira através do Governo Bolsonaro quanto em sua matriz ideológica norte-americana.

Para Bannon a mídia expressa uma bolha de poder que sintetiza tudo o que há de mal nos EUA e que favorece apenas um grupo de pessoas. Bannon está correto, pois a mídia é realmente controlada por grupo de plutocratas globais, mas o que ele oculta é que o seu projeto apenas tergiversa e despista ao anunciar o ataque à mídia, mas servindo aos mesmos interesses por vias transversas, capaz de mobilizar importantes capas populares que os democratas já não conseguiam, tampouco os republicanos, identificados com o establishment econômico, responsável único pela radicalização da crise econômica de 2008. Bannon aproveitou a oportunidade para colar em Hillary Clinton e nos democratas a pecha de gente do establishment desinteressada pelo destino popular, que havia apoiado a imposição dos custos da crise de 2008 ao povo, mantendo sem punição aos CEOs que organizaram a débâcle. Os democratas estavam entre os que mereciam rejeição da classe trabalhadora em face de pertencerem ao que Bannon qualificava como partido de Davos, que para ele não passavam de uma elite científico-financeira, certa e segura de que poderia manipular o mundo em bases globais.

Bannon compreendeu alguns aspectos centrais para a exitosa propagação da política que sustenta a expropriação de riquezas. Um deles diz respeito a nova configuração do mundo da informação em sua interface com a política, que em uma era de massas acessadas (e acessíveis) potentemente através das mídias digitais (e sem que elas próprias conheçam o decisivo potencial desta mídia) configuram a amplitude de notável espaço para a manipulação da informação e da expressão da vontade política popular. Bannon redesenhou o emprego da propaganda política em uma dimensão manipuladora e inescrupulosa. Assim, corria 2012 quando, com este propósito, Bannon criou a Government Accountability Institute (GAI). Tratava-se de declarada organização sem fins de obtenção de lucro, cujo objetivo seria o de expor as mazelas do chamado "capitalismo amigo", e também o "uso indevido do dinheiro dos contribuintes", bem como outras fontes de suposta corrupção ou ações ilegais do Estado em prejuízo dos contribuintes, colocando em perspectiva a realização de um amplo programa de descrédito do papel do Estado e de sua autoridade, mas também instrumentalizando conteúdos para atacar os inimigos do projeto neofascista.

Acabar com o Estado é uma obsessão declarada da extrema direita encarnada por Bannon, mas não exatamente ao extremo de extinguir os órgãos essenciais que operam em favor dos plutocratas, que deles necessitam para financiar os seus propósitos operantes em escala global à base da violência pura. Exemplo disto foram os primeiros dias do Governo Trump, intensíssimos, publicando decretos, mas também atacando freneticamente a imprensa, como se se tratasse de um bem estabelecido partido de oposição, tal como, em seu momento, ocorreria, ao seu modo e circunstância, com a estratégia de Bolsonaro no Brasil. O que Bannon e a extrema direita propõe é uma ruptura institucional com o estágio civilizacional dos direitos humanos, políticos e sociais, substituindo a noção de soberania estatal e supremacia popular como fonte de legitimidade política por outra fonte neofacista e plutocrática. O projeto tem ambições planetárias, mas tem uma primeira etapa que se detém no Hemisfério Ocidental, especialmente na América Latina, e em cada cenário alvo de dominação a desordem e a instauração da profunda confusão é parte da estratégia, de sorte que as ações políticas e as medidas econômicas possam passar medianamente despercebidas ou, ao menos, sem a devida atenção para que eficiente reação seja articulada.

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