Quem precisa de um aliado?

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(Foto: Reuters)


Dia desses enquanto olhava as atualizações no Linkedin vi um post que julguei ser curioso. Um alto executivo dessas empresas modernosas de tecnologia relatava que alguns dias antes tinha sido solicitado a um executivo de cargo ainda mais alto a se tornar um aliado de alguma causa. Que os tempos urgiam em que todos deveríamos nos envolver com uma causa específica e ali, naquele post, mostrava o resultado de seu esforço destes últimos dias: um badge, isto é, uma micro certificação específica. Esse badge era então a prova cabal de que ele era um aliado da causa LGBTQIA+ e mais, instava outros executivos a fazerem o mesmo. A se apropriarem desta causa e demonstrarem seu apoio conseguindo o mesmo badge que ele.

Aquele post me pegou de surpresa. Achei fútil e depreciativo. Algumas horas de curso on-line feitas por encomenda (afinal, o tal ímpeto havia sido designado por um de seus chefes, não partido dele), talvez a participação de uma ou outra palestra e o tal sujeito sentia como se tivesse cumprido requisitos de sua condição de aliado.

Decidi então pesquisar: “Qual o papel de um aliado?”

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As respostas, apesar de escritas em formas variadas, indicavam uma direção única. Grosso modo, um aliado é uma pessoa que, ainda que não participante direta de uma minoria, tem consciência de sua posição de privilégio e toma ações a fim de assegurar que essas minorias tenham espaço. De maior ou menor grau tome posições que promovam a essas minorias e que permitam que elas sejam ouvidas e apreciadas em sua plenitude.

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O modus operandis do aliado também parece ser de razoável consenso. O Instituto do Fórum da Liberdade (2020) afirma que para ser um aliado é necessário garantir um ambiente sem bullying, discriminações e incivilidade, assegurando oportunidades para aqueles que historicamente não conseguem galgar tais oportunidades. A melhor forma para isso, de acordo com o artigo, é questionar. Falar. Não deixar passar.

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Nessa mesma linha, Sheere Atcheson, colaboradora de inclusão da Forbes, diz que a primeira premissa do trabalho do aliado é que este não pode ser “auto-definido, isto é,  os esforços devem ser reconhecidos por aqueles que você está buscando se aliar” e que a maneira com que isso se torna possível é: 1) acreditando nas experiências de pessoas sub representadas; 2)  escutando e apoiando; 3) compreendendo que desabafos não são ataques pessoais e 4) reconhecendo desigualdades e dividindo oportunidades de crescimento (FORBES, 2020, s/n).

Por fim, o artigo encabeçado pela socióloga Tsedale M. Melaku e publicado na Harvard Business Review assevera também alguns pontos parecidos com os já citados. É necessário em insistir em candidatos diversos, speak up (falar e se posicionar, caso alguma atitude discriminatória seja notada), aceitar feedback e sobretudo reconhecer seus próprios privilégios a fim de positivamente fazer alguma coisa em prol daqueles que são vítimas de desigualdades (MELAKU et al, 2020).Entendi que a questão de aliado é mais uma forma de produto, excelente para ser mostrado em redes sociais, mas que efetivamente não contém nenhum tipo de radicalidade em seu questionamento. É claro que dar voz àqueles que são protelados é importante, é óbvio que é ululante que empresas deixem de ter apenas homens brancos héteros e cis em seu rol de funcionários e passem também a contemplar mulheres, LGBTQIA+, pessoas deficientes e demais minorias, mas se o conceito não se propõe a refletir coletivamente sobre o motivo dessas pessoas estarem sendo alijadas de oportunidades, sobre as estruturas e demais condições que propiciam que isso ocorra. Em outras palavras, este é um conceito vazio. É dispensável rememorar a esta altura que dois velhos barbudos no século XIX já nos deram as bases para entender como opera o capitalismo e as exclusões próprias de seu funcionamento. Não quero me estender aqui sobre os conceitos de exército de reserva, sobre como os papéis sociais historicamente legam às mulheres posições subalternizadas e muito menos pretendo abordar aqui as formas de estranhamento, alienação e fetichização que permeiam a forma trabalho. Tudo isso já dispõe de infindável base metodológica e analítica.O ponto central de minha argumentação é o fato do conceito de aliado tal qual como vem sendo empregado não atingir nem mesmo a epiderme do problema. Trata de sintomas e não da causa. E pior, faz parecer como se as lutas dessas pessoas fossem questões particulares e não coletivas. Como se o problema da discriminação dos negros fosse apenas problema dos negros. Coloca o aliado na confortável posição de alguém supostamente esclarecido, ciente do problema, mas que está ali somente de suporte. Se Angela Davis é certeira ao afirmar que “não basta não ser racista, tem que ser antiracista”, o que o conceito de aliado propõe é “há racismo, sei que há, tô aqui pra te apoiar na tua luta, beleza? Fiz até um curso”.Dessa forma, é possível perceber que tanto o simbólico (badges e certificados) quanto o concreto, isto é, a suposta práxis que embasa conceito de aliado, constituem apenas uma mercadoria que, longe de aludir a uma superação das formas de pauperização trabalhista, tem efeito meramente estético na criação de uma roupagem de um capitalismo “humanizado”, cool e inclusivo, porém superficial e que não questiona nenhum dos porquês significativos.

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A dúvida não poderia ser outra, quem precisa de um aliado? 

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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