Bolsonaro e Maduro são iguais na maneira de conduzir a pandemia?

O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, e seu homólogo venezuelano, Nicolás Maduro, vêm sendo comparados pela grande mídia durante o período da pandemia, como se as declarações e ações tomadas pelos distintos governantes fossem análogas

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O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, e seu homólogo venezuelano, Nicolás Maduro, vêm sendo comparados pela grande mídia durante o período da pandemia, como se as declarações e ações tomadas pelos distintos governantes fossem análogas. Uma matéria muito comentada nos últimos meses foi publicada pela BBC no dia 15 de maio, e replicada pela UOL, com o título “Cloroquina une Bolsonaro e Maduro em meio à pandemia de coronavírus”. No mesmo dia, o jornal, O Globo, apresentou a seguinte matéria: “Maduro, como Bolsonaro, defende uso da cloroquina contra o vírus”. Nesta data, os dois presidentes já haviam dado diversas declarações com conteúdos muito diferentes acerca do combate ao coronavírus, no entanto, a grande mídia colocou os dois presidentes como análogos, em um surpreendente esforço imaginativo. Em relação à cloroquina, enquanto Bolsonaro segue ainda hoje fazendo propaganda para esta droga, o governo da Venezuela fez uso da cloroquina embasado inicialmente no estudo Solidarity, promovido pela Organização Mundial da Saúde, e atualmente embasado nos protocolos médicos do Ministério da Saúde deste país. Bolsonaro, no entanto, trocou duas vezes de ministro em função desta temática, assim como a do isolamento social. Na Venezuela, não houve uma propaganda especial para a cloroquina, uma vez que o país conta com ritonavir e lopinavir, que também fazem parte do estudo da OMS, assim como o Interpheron Alpha 2B, desenvolvido em Cuba e utilizado na China. Além disso, enquanto estudos realizados em Manaus administraram duas doses diárias de 600 mg de cloroquina durante 10 dias nos pacientes, o protocolo médico venezuelano permite a administração de no máximo uma dose de 600 mg (apenas em adultos) desta droga em casos específicos por apenas um dia, seguida por três doses de 300 mg nos três dias posteriores. Considerando todas estas diferenças, é possível dizer que Brasil e Venezuela, assim como diversos outros países, compartilham ainda hoje a cloroquina como medicamento experimental contra a Covid-19, apesar dos estudos que apontam para ineficácia. Enquanto Bolsonaro se opôs às medidas radicais de isolamento social desde o início da quarentena, o governo Maduro decretou uma das quarentenas mais rígidas da América Latina. O presidente brasileiro advogava por uma abertura do comércio em menos de um mês de isolamento e a Venezuela iniciou uma flexibilização responsável, com sete dias de abertura e sete dias de fechamento, somente em junho. Tal ação, além de tomada após três meses de isolamento, permite observar o impacto da abertura ao longo das semanas e reavaliar a sua conveniência. Bolsonaro acusa a OMS de estar a favor da ideologia comunista, enquanto Maduro sugere que o Prêmio Nobel da Paz seja concedido a esta instituição. Bolsonaro associa a Covid-19 a um plano de recuperação da economia do governo chinês, ao passo que a Venezuela estabelece relações harmônicas com este país e recebe doações da China desde o início da pandemia. À medida que Bolsonaro se associa ao protestantismo e ao catolicismo na sua forma mais intolerante, Maduro agradece ao Papa Francisco e promove o catolicismo popular e ecumênico, nos moldes de Paulo Freire e Dom Helder Câmara. Enquanto Bolsonaro subestima o poder do coronavírus, Maduro liga o sinal de alerta. As declarações e ações dos presidentes certamente impactaram os rumos da Covid-19 no Brasil e na Venezuela. O Brasil ultrapassou a marca dos 90 mil mortos por Covid-19 no dia 3 de agosto e a Venezuela registrou apenas 180 óbitos por esta doença. Embora a população brasileira seja 7 vezes maior que a venezuelana, o número de mortos no Brasil é mais de 500 vezes maior que no Venezuela. A diferença populacional não explica a diferença no número de mortos.  

Abaixo foram selecionadas declarações dos distintos presidentes que foram proferidas em 17 dias específicos da pandemia

Bolsonaro: 26 de janeiro –  “Estamos preocupados, obviamente, mas não é uma situação alarmante”.

Maduro: 28 de fevereiro – “É preciso elevar a voz, chamar a atenção e soar o alarme. Alerta! Que o coronavírus não seja uma arma de guerra que está sendo usada contra a China e agora contra os povos do mundo em geral. Venezuela, com o seu sistema de saúde pública e o seu povo consciente vai enfrentar esta ameaça deste vírus e vamos ser bem sucedidos”.

Bolsonaro: 6 de março – “Ainda que o problema possa se agravar não há motivo para pânico”.

Bolsonaro: 10 de março – “Obviamente temos no momento uma crise, uma pequena crise. No meu entender, muito mais fantasia, a questão do coronavírus, que não é isso tudo que a grande mídia propala ou propaga pelo mundo todo”.

Maduro: 11 de março – “Estamos alerta 24 horas, alguns casos que pareciam ter as características do coronavírus foram descartados, afortunadamente, até esta hora que estou falando”.

Maduro: 13 de março – “Só se corta [a contaminação] com quarentena de todas as pessoas envolvidas, detectar todos os casos que andam por aí, que vieram da Europa e atender ao menos esta situação, como restringir ao máximo os lugares públicos” […] “Não é um jogo, é uma ameaça mortal, peço máxima consciência, serenidade, equilíbrio. Não é para entrar em pânico”.

Maduro: 16 de março – “Quero anunciar que a partir de amanhã, terça 17 de março, as 5 da manhã, Venezuela entrará em quarentena social, todo o país, os 23 Estados e o Distrito Capital. Todos à quarentena social, à quarentena coletiva” […] “Fácil não é nem vai ser, não é nem vai ser fácil, compatriotas. Por isso faz falta espírito de luta, de resistência, de uma grande consciência e uma grande paciência”.

Maduro: 23 de março – “são medidas de segurança, exigindo nas ruas a máscara, medidas sanitárias, movimentos rápidos na rua e regressar à casa o mais rápido possível.” […] “Estamos tomando todas as medidas de isolamento radical. Peço aos governadores que atendem estes casos e estão fazendo os estudos do entorno destes casos, medidas de isolamento e tratamento preventivo”.

Bolsonaro: 24 de março  – “Algumas poucas autoridades estaduais e municipais devem abandonar o conceito de terra arrasada, a proibição de transportes, o fechamento de comércio e o confinamento em massa” […] “Pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar. Nada sentiria ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho.

Bolsonaro: 25 de março – “Outros vírus mataram muito mais do que esse. Não teve essa comoção toda”.

Bolsonaro: 26 de março – “Eu acho que não vai chegar a este ponto. Até porque o brasileiro tem que ser estudado. Ele não pega nada. Você vê o cara pulando em esgoto ali, sai, mergulha, tá certo? E não acontece nada com ele”.

Bolsonaro: 29 de março – “Essa é uma realidade. O vírus tá aí. Vamos ter que enfrentá-lo, mas enfrentar como homem, pô. Não como moleque. Vamos enfrentar o vírus com a realidade. É a vida. Todos nós iremos morrer um dia”.

Maduro: 30 de março - “Aqui estamos trabalhando com a seriedade e a responsabilidade que merece uma pandemia e que merece o amor que temos pelo nosso povo, por nossa pátria Venezuela”. “A quarentena hoje foi sensacional, incrível” […] “Faz duas semanas, começamos na segunda dia 16, faz duas semanas exatamente, e os primeiros casos, vocês sabem, todos importados, pessoas que viajaram para a Europa, para a Colômbia e para os Estados Unidos, mas os casos que temos agora são comunitários, transmitidos nacionalmente, derivados dos importados”.

“Eu não quero criar pânico nunca para nada” […] “Máxima serenidade e quarentena radical a 100%. Este é o slogan”.

Bolsonaro: 31 de março – “Minha preocupação sempre foi salvar vidas, tanto as que perderemos pela pandemia, quanto aquelas que serão atingidas pelo desemprego, violência e fome”.

Bolsonaro: 2 de abril – O Mandetta já sabe que a gente está se bicando há algum tempo. Já sabe disso. Eu não pretendo demiti-lo no meio da guerra, não pretendo”. “Desconheço qualquer hospital que esteja lotado”.

Bolsonaro: 3 de abril – “Esse vírus é igual uma chuva, vai molhar 70% de vocês”.

Maduro: 3 de abril – “Já estamos terminando a terceira semana da quarentena social, consciente, voluntária e agora radical. Eu insisto muito nisso, insisto com todo mundo que falo, que na Venezuela a quarentena nacional é consciente e voluntária. Não é através de um toque de recolher e um estado de sítio da repressão, é apelando à consciência da família venezuelana, é apelando à consciência da juventude venezuelana…”

Maduro: 5 de abril – “Isto me preocupa e o digo. Me preocupa estas transmissões comunitárias e peço à comissão presidencial que vá mais a fundo a investigar, a pesquisar e ampliar o número de testes diagnósticos personalizados a partir desta semana que começa amanhã”

Maduro: 8 de abril - “Recebemos na Venezuela, três aviões da China. Na ponte aérea que temos de ajuda humanitária e apoio da China. A China está apoiando a mais de 120 países do mundo, com material médico e com apoio material. O primeiro país da América Latina e do Caribe que a China enviou especialistas médicos e cientistas foi para a Venezuela. Chegaram faz uma semana. Compartilharam o calor da Venezuela. Tivemos dias muito calorosos e nos transmitiram seu conhecimento científico, seu sorriso, seu amor, sua solidariedade”.  

Bolsonaro: 10 de abril – “Eu tenho o direito constitucional de ir e vir. Ninguém vai tolher minha liberdade de ir e vir. Ninguém”.

Maduro: 11 de abril – “Hoje Venezuela pode dizer que sua curva está aplainada, mas não podemos dizer que ganhamos esta batalha. Temos que seguir perseverando na quarentena que o povo acatou com grande disciplina e sacrifício”.  

Maduro: 12 de abril - “Estou de acordo totalmente com o Papa Francisco. Que cessem as sanções contra os países em meio desta pandemia e se possa perdoar a dívida de todos os países do sul e receber a ajuda direta das organizações financeiras mundiais”.  

Bolsonaro: 17 de abril – “Essa briga de começar a abrir para o comércio, é um risco que eu corro, porque se agravar vem pro meu colo”. “Junte eu e o Mandetta e divida por dois. Pode ter certeza que você vai chegar naquilo que interessa para todos nós”.

Bolsonaro: 20 de abril - “Queremos voltar ao trabalho. O povo quer isso” […] “Eu não sou coveiro, tá certo?”.

Bolsonaro: 28 de abril – “E daí? Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre.” [No dia que o Brasil superou a China em número de mortos]

Maduro – 28 de abril – “Hoje temos que informar, 28 de abril, terça-feira, temos zero casos. Zero, zero, zero” […] “Quer dizer que a disciplina dá os seus resultados”.

Maduro: 29 abril – “É muito importante este tema dos focos de ameaça. Já analisamos. As nossas ameaças vêm da Colômbia e do Brasil. Há fossas comuns aqui em Manaus, aqui mesmo na fronteira. Em Colômbia também. Coisas graves. Da Colômbia estamos esperando amanhã e depois de amanhã duas ondas grandes de milhares de venezuelanos que tiveram que protestar, fechar ruas em Bogotá, em Cali, em Medelim e Buscaramanga para que os permitam voltar ao seu país. Hoje saíram 11 ônibus de Bogotá, com quase 400 compatriotas e vêm direto para a ponte Simón Bolívar que une Cucuta com Santo Antônio de Tachira […] Voltaram desesperados da miséria, da xenofobia, da perseguição, do coronavírus e da corona-fome. Voltando a sua pátria porque eles sabem no fundo que se foram do país, sabem que no fundo aqui há uma pátria e uma mão do estado que os protege e família que lhe dará a solidariedade, que os ajuda, a família venezuelana em especial, que é solidária, que é amorosa, não deixamos que nenhum familiar nosso fique para baixo.”

Maduro: 4 de maio - "Postulemos à OMS ao Prêmio Nobel da  Paz como reconhecimento necessário na luta contra a pandemia da Covid-19".  

Maduro: 13 de maio – “Vou renovar o decreto de estado de alarme por mais 30 dias para seguir protegendo ao nosso povo”. “Não afrouxemos, não é tempo de afrouxar, é tempo de apertar […] Consciência!”.

Bolsonaro: 14 de maio – “Temos que ter coragem de enfrentar o vírus. Está morrendo gente? Tá! Lamento? Lamento. Mas vai morrer muito, muito, mas muito mais se a economia continuar sendo destroçada por essas medidas”.

Maduro: 17 de maio – “Convido a redobrar todas as medidas de proteção ao nosso povo. Hoje me reuni com a comissão presidencial do coronavírus, revisamos todo o tema da quarentena, a necessidade de mantê-la”.

Bolsonaro: 2 de junho – “Eu lamento todos os mortos, mas é o destino de todo mundo”.

Bolsonaro: 5 de junho – “Ou a OMS trabalha sem o viés ideológico, ou nós vamos estar fora também. […] . Não precisamos de gente de fora dar palpite na saúde aqui dentro”.

Maduro: 7 de junho - “Começamos no dia 16 de março a quarentena nacional radical consciente e voluntária, acompanhado do sistema pátria, da pesquisa do sistema pátria, acompanhado da visita casa por casa, para detectar casos, acompanhado dos testes rápidos, dos testes PCR, da massificação dos testes, acompanhado à hospitalização de todos os casos detectados, do tratamento pessoalizado de todos os casos detectados, tudo isso nos deu um resultado favorável em comparação com o mundo e em comparação com a América Latina e América do Sul. Hoje podemos dizer que foi correto tudo que fizemos”.  

Bolsonaro: 7 de julho - “Todo mundo sabia que ele mais cedo ou mais tarde ia atingir uma parte considerável da população. Eu, por exemplo, se eu não tivesse feito o exame, não saberia, né, do resultado. E ele acabou de dar positivo. Deu positivo. O que posso falar para todo mundo aqui. Esse vírus é quase como, eu já dizia e era muito criticado, era como uma chuva, né? Vai atingir você. […] Vamos tomar cuidado, em especial com os mais idosos, que têm comorbidades. Os mais jovens, tomem cuidado, mas, se forem acometidos do vírus, fiquem tranquilos porquê para vocês a possibilidade de algo mais grave é próximo de zero”.

Maduro: 7 de julho – “Este ano temos eleições e dei instruções para a implementação do Plano República, que terá um plano especial de biosegurança para proteger à saúde de todas e todos os venezuelanos que vão votar no dia 6 de dezembro” [Em referência às eleições legislativas]

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