Regina, os artistas e os liberais sem escrúpulos

"Apoiar Regina Duarte e não apoiar o governo é um dilema de artistas, que os empresários não tem. Os empresários liberais apoiam Bolsonaro desde o começo. Não por concessão, mas por convicção", escreve o colunista Moisés Mendes

Jair Bolsonaro e Regina Duarte
Jair Bolsonaro e Regina Duarte (Foto: Reprodução)
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Desde o golpe, o brasileiro está enredado em debates velhos, alguns já vencidos mas sempre presentes. A controvérsia entre apoiar Regina Duarte e não apoiar Bolsonaro é um debate novo e com algumas utilidades.

Regina aderiu ao governo liderado pela família investigada por suspeita de envolvimento com milicianos. Mas colegas e admiradores da atriz a apoiam por sua história e sua coragem. E até desejam sorte.

Com um detalhe: negam-se a admitir que, ao apoiar a atriz, estão expressando apoio a Bolsonaro. Estrelas do meio artístico-cultural, que se manifestaram pelo golpe de agosto de 2016, deixam claro hoje que desejam ficar longe do governo de extrema direita. 

É possível? É uma oportunidade para que alguns avulsos digam em voz alta o que não haviam dito até agora, que apoiaram a destituição de Dilma Rousseff, que até cortejaram o governo de Temer, que aplaudiram a prisão de Lula, que votaram em Bolsonaro para derrotar o PT, mas agora estão recuando.
Mesmo assim, caem na armadilha de apoiar Regina Duarte, porque ela seria a primeira figura notável do governo Bolsonaro. Nem Paulo Guedes, que pertencia ao terceiro time dos economistas brasileiros da geração pós-golpe de 64, é um notável. 

Sergio Moro ficou famoso como juiz caçador de Lula e de envolvidos com a  esquerda, mas também está longe do que seria um notável. Moro é um simplório, com sabedoria jurídica que gente da área denuncia como precária. E quais dos generais seriam notáveis? 

Bolsonaro montou uma estrutura de governo com medíocres, obedientes e prestativos. O nazismo e a ditadura brasileira tinham o modelo, que a extrema direita agora no poder ignorou: assessorar-se de figuras de exceção, para assim legitimar inclusive as leis criadas para perseguir e matar. 

A ditadura teve Roberto Campos, Delfim Netto, Simonsen, Bulhões, Severo Gomes, Jarbas Passarinho, Golbery, Leitão de Abreu, Reis Veloso, Andreazza, Hélio Beltrão, Alysson Paulinelli. Luís Fernando Cirne Lima, Nestor Jost. 

Bolsonaro tem Damares Alves, Onyx Lorenzoni, Sergio Moro, Ernesto Araujo, Paulo Guedes, Augusto Heleno, Abraham Weintraub, Ricardo Salles, Tereza Cristina, Osmar Terra. 

Regina Duarte é uma notável da área artística, um nome do primeiro time de qualquer escalação de estrelas da TV. É natural que alguém de uma arte de massa lidere a cultura. Mas liderar a cultura num governo que odeia a cultura? 

Apoiar Regina Duarte e não apoiar o governo é um dilema de artistas, que os empresários não têm. Os empresários liberais apoiam Bolsonaro desde o começo. Não por concessão, mas por convicção. 

O bolsonarismo não é um acidente no percurso dos liberais de todas as áreas, incluindo o Direito. É a aceitação de que é assim mesmo que a coisa funciona. 

O liberalismo brasileiro aceita Bolsonaro, não como um estorvo ou uma aberração funcional, que precisa ser assimilada por serviços prestados, mas por ser apenas um pedaço podre da essência do nosso liberalismo. 

Essa é a utilidade do debate sobre a adesão de Regina Duarte e o apoio com restrições de seus amigos artistas, no confronto com o apoio incondicional do empresariado ao bolsonarismo. Os artistas têm limites e escrúpulos.

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