Relato da barbárie na Maré

Muita impotência diante da barbárie da Intervenção Militar no Rio. Os governos federal, estadual e municipal entregaram o Rio à barbárie e à própria sorte. Todos estão com as mãos sujas de sangue

Soldado das Forças Armadas patrulha Complexo da Maré, no Rio de Janeiro 05/04/2014 REUTERS/Ricardo Moraes
Soldado das Forças Armadas patrulha Complexo da Maré, no Rio de Janeiro 05/04/2014 REUTERS/Ricardo Moraes (Foto: Virginia Berriel)

Preciso falar, estou muito angustiada e agora também me sentindo arrasada, impotente.

Estamos numa guerra, no Rio.

Vocês sabem que estou na Comissão Popular da Verdade, representando a CUT. A CPV foi criada para investigar e denunciar as violações dos direitos humanos, em decorrência da Intervenção Militar no Rio, "NAS FAVELAS". Nossa atuação tornou-se visível e grande desde a vinda do Prêmio Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel e de Danny Glover ator e ativista de Direitos Humanos da ONU e nós, membros da Comissão, composta por diversas entidades, criada a partir de reuniões da FBP Frente Brasil Popular.

Traçamos linhas de estratégias e ações, com visitas as favelas em parceria com a Defensoria Pública e outras entidades para acompanhamento das ações do Exército, das Polícias Civil e Militar. As ações do Exército com Core, Bope, Caveirão explodiram em massacres, chacinas e violações. Uma guerra de verdade.

A mídia divulga muito pouco, menos de 50% do que está efetivamente acontecendo.

Nesta quarta-feira, 20/06, foi a gota d'água: As Operações nas favelas da Maré, no Pavão e Pavonzinho, Cantagalo e Morro da Coroa, foram de pleno extermínio.

Uma guerra contra os pobres, pretos e favelados.

Na Maré:

1 caveirão aéreo,

4 caveirões de solo

Vários blindados...

O caveirão aéreo em voos rasantes, disparou contra a favela sua metralhadora aleatória, numa só quadra parte de um quarteirão foram encontradas marcas de 59 tiros.

Incontáveis todos os tiros disparados de cima para baixo sobre as casas.

Eles dizem que foram mortos 6 traficantes e um menino, estudante de 14 anos, Marcus Vinícius. É o que eles dizem, mas, na verdade, foram muito mais. E vários e vários feridos.

UMA MENINA DE 14 ANOS também foi atingida e veio a falecer no hospital.

Ela não foi levada para a UPA. A familia, por medo, recusou-se e recusa-se divulgar o nome da menina.

"Muitos óbitos são classificados como morte natural"

Numa outra casa, já que muitas foram invadidas, os policiais espancaram dois adultos e jogaram seus corpos, da mesma casa executaram a queima roupa outros três jovens. De outras casas invadidas roubaram pertences como celulares e televisores, os moradores NÃO denunciam por medo.

Atiraram em vários carros, casas e disseram que era para vingar a morte de policiais.

Terror total.

Moradores em choque e pânico.

Ainda proibiram o acesso de ambulâncias para retirada dos feridos.

No Pavão Pavãozinho e Coroa também foram mortos tantos outros moradores.

Na última quinta-feira, 21/06, esse foi o relato de defensores de direitos humanos, que residem na Maré, numa reunião na Defensoria Pública. Foi de doer, de chorar por horas...

Dia 25/06 visitaremos com a Defensoria a Favela da Mangueirinha e dia 29/06 a do Chapadão.

Estamos solicitando audiência para os dias 02 ou 03 com o Interventor, por intermédio da Defensoria Pública e no mesmo dia à tarde faremos uma coletiva de imprensa para denunciar todas as violações, a partir de um dossiê que está sendo preparado.

Muita impotência diante da barbárie da Intervenção Militar no Rio.

Os Governos Federal, Estadual e Municipal entregaram o Rio à barbárie e à própria sorte.

Todos estão com as mãos sujas de sangue.

NÃO SOU A FAVOR DO BANDITISMO, nem do tráfico, nem da milícia, muito menos da Polícia e Exército do extermínio.

SOU E SEREI SEMPRE A FAVOR DA JUSTIÇA.

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