Rodrigo Maia espera Godot, enquanto Bolsonaro vive fase de alô doçura

"Enquanto as manobras judiciais permitem ao 01 ganhar tempo e liberdade, Bolsonaro vai pavimentando a sua nova fase com 'alianças' pelo centrão", escreve a jornalista Denise Assis

Jair Bolsonaro e Rodrigo Maia
Jair Bolsonaro e Rodrigo Maia (Foto: Marcos Corrêa/PR)
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Por Denise Assis, para o Jornalistas pela Democracia

Táokei. Serei mais uma a falar do modo “alô doçura” de Bolsonaro. Há um cenário por trás disto e, de ontem para cá, fica estabelecido que este senhor segue o seu mandato até segunda ordem.

O primeiro sinal veio de uma suposta visita feita por Rodrigo Maia ao empresariado, em São Paulo. Na certa ouviu deles que ainda não é a hora de apeá-lo do cargo, pois não houve tempo de construírem um candidato “arrumadinho”, ao gosto e estilo da Faria Lima, para colocar no lugar. Impeachment com Hamilton Mourão está, por ora, descartado. Não há quem confie no modelito “soft” que o vice tentou construir. Próximo demais da caserna, militar demais para representá-los.

O chega pra lá derradeiro, como já escrevi aqui, no 247, foi a decisão do ministro Luiz Fux, de deixar claro como água que o artigo 142 da Constituição não serve como objeto de ameaça e instrumento de medo para manter a população nos limites da corda que organiza o carnaval. Diante disto, o secretário de Governo, general Luiz Eduardo Ramos, que até então contava com tropas – era o único ministro militar na ativa – para fortalecer a ideia de que Bolsonaro poderia dar um autogolpe com a ajuda das Forças Armadas (uso de retórica, é claro) pediu o boné e vai para a reserva, dando “ades às armas”. Até então, eles contavam com este “brinquedo” para, tal como mamãe, com avental todo sujo de ovo e o chinelo na mão, mandar recados aterrorizantes ao populacho.

Depois do “adeus às ilusões” do uso do 142, logo em seguida, ou quase simultaneamente, Queiroz foi preso, arrepiando os pelos do braço de Bolsonaro, que viu ali a encruzilhada entre o filho senador, e preso, no rastro do amigo, como chefe da quadrilha das “rachadinhas”. Quem o assistiu na cerimônia fúnebre do paraquedista, no final de semana, no Rio, sabe bem do que estou falando. Torcendo nas mãos trêmulas um “barbantinho” imaginário, sua voz era um fiapo e ele mal conseguiu articular a frase em que falou do amor dos pais, pelos filhos. Na sua cabeça, naquele momento, deve ter passado a letra daquela música de Ivan Lins: cai o rei de espadas/cai o rei de ouros/cai o rei de paus/ cai, não fica nada…

Enquanto as manobras judiciais permitem ao 01 ganhar tempo e liberdade, Bolsonaro vai pavimentando a sua nova fase com “alianças” pelo centrão. Ao mesmo tempo, tenta avançar na aproximação com o Supremo Tribunal Federal (STF), dialogando (como sempre), com Dias Toffoli e o invariavelmente disponível, presidente do Senado, Davi Alcolumbre.

Como se acordasse de repente para a maneira de se fazer política, ele que pendia a interromper imediatamente o auxílio emergencial aos atingidos pela pandemia -, percebeu no vazio deixado pela ausência de discurso da ala progressista, que não reivindicou junto à população a autoria da implementação da ajuda, no valor de R$ 600,00, aproveitou para se enrolar nesta bandeira. Paulo Guedes, que é neoliberal, mas não de todo imbecil, concordou com a prorrogação no último minuto do segundo tempo.

Quanto a Rodrigo Maia, na gaveta de quem repousam quase 40 pedidos de impeachment, resta um trecho da peça “Esperando Godot”, de Samuel Becktt, em que dois pobres diabos (Vladimir e Estragon), em situação de rua, divagam sobre o nada de suas existências. É de Vladimir o recado que cai como uma luva para Maia:

“Eu estava dormindo enquanto os outros sofriam? Estarei dormindo agora? Amanhã, quando eu estiver pensando que acordei, que direi do dia de hoje? Que junto com Estragon, meu amigo, neste lugar, até o cair da noite, eu esperei por Godot?”

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