Ruy Castro e o suicídio de Bolsonaro

O mundo já presenciou Bolsonaro cometer irresponsabilidades bem maiores e muito mais passíveis de punição jurídica que não despertaram toda essa sanha, demonstrada agora contra Ruy Castro e Ricardo Noblat

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O jornalista Ruy Castro é o novo alvo da patuleia bolsonarista e do seu discurso hipócrita de respeito às pessoas e à democracia. Ao escrever um artigo na “Folha de S.Paulo” sugerindo que Donald Trump se suicide e que Jair Bolsonaro imite o gesto, ele entrou na mira do Ministro da Justiça, André Mendonça, que disse que vai requisitar a abertura de inquérito policial para investigar a conduta de Castro, e também do jornalista Ricardo Noblat, que compartilhou um trecho do artigo no seu perfil do Twitter. Segundo Mendonça, “apenas pessoas irresponsáveis cometem esse crime contra chefes de estado”. O mundo já presenciou Bolsonaro cometer irresponsabilidades bem maiores e muito mais passíveis de punição jurídica que não despertaram toda essa sanha.

Se voltarmos ao tempo, encontraremos algumas declarações dadas pelo atual presidente da república quando era parlamentar, que até o mais irresponsável dos seres humanos teria receio de manifestá-las publicamente. André Mendonça classificou o texto de Ruy Castro como um “desrespeito à pessoa humana, à nação e ao povo de ambos os países. Eu, particularmente, não me senti desrespeitado. Mesmo não concordando com a ideia, e, menos ainda, com a narrativa empregada por Ruy em seu artigo. No entanto, quem já ouviu Bolsonaro dizer “E daí?” para a morte de milhares de pessoas, não há de se horrorizar com um texto, digamos, não muito feliz. Apesar de estarmos falando de um dos maiores escritores e biógrafos do país. 

O que diria o Ministro da Justiça, de alguém que declarasse que a ditadura militar deveria ter matado mais, porque matou pouco? E de alguém que dissesse que só uma guerra civil que matasse, no mínimo, uns 35 mil, daria um jeito no país? E de alguém que dissesse que o presidente do seu país deveria levar um tiro na cabeça? E de alguém que dissesse que a presidenta da sua nação deveria sair do cargo de qualquer maneira. Fosse infartada ou com um câncer? E se o ministro Mendonça descobrisse que o autor de frases tão desrespeitosas à pessoa humana, hoje é o seu chefe e preside o país?

Se eu fosse adepto do desrespeito à pessoa humana, eu mandaria o ministro da Justiça ir carpir um lote, porque ele deveria estar com muito tempo vago para se ocupar em punir judicialmente um jornalista que escreveu um artigo que ele não gostou. Porém, eu prefiro fazer o chefe do judiciário refletir acerca da conduta do governo do qual ele faz parte, e, principalmente, daquele que como chefe de estado, deveria dar exemplo aos demais. Talvez o ministro devesse abrir inquérito policial para investigar a conduta de alguém que, em plena pandemia, estimula as pessoas a arriscarem suas vidas provocando aglomeração e desrespeitando as normas estabelecidas pelos órgãos de saúde.

Eu sugeriria ao ministro da Justiça investigar a conduta de quem está promovendo boicote a uma vacina que pode salvar a vida milhões de pessoas e que já relativizou a morte de outras milhares, dizendo que todo mundo vai morrer um dia. Entendo que a mensagem de Ruy Castro deva ser sinalizada como um alerta de gatilho, por sugerir a depressão como fator motivador para o suicídio de Trump, e por citar métodos de como consumar o ato, valendo-se de uma descrição torpe. Ainda mais nesse momento em que o psicológico de muitas pessoas encontra-se abalado e pensamentos suicidas podem vir à tona para algumas delas. Agora, querer apresenta-lo como um criminoso, tendo na presidência um apoiador da tortura, é típico da esquizofrenia ideológica que pauta o bolsonarismo.

Uma gente que foi capaz de fazer deboche com a morte brutal da vereadora Marielle Franco e de se deleitar com uma capa da "Veja" que estampava a cabeça de Lula decapitada, quer tentar nos convencer de que possuem os melhores sentimentos dentro de si. Aliás, até a própria revista "Veja" emitiu nota de repúdio ao artigo de Ruy Castro na 'Folha". Ao que parece, a hipocrisia é a principal virtude dos conservadores. Logo eles, que elegeram o maior dos irresponsáveis como presidente da república. Um homem que do alto de um palanque, disse que iria metralhar opositores e varrê-los do mapa.

Desejar a morte de alguém é tão abominável quanto defender a pena de morte. É tão abjeto quanto deixar de evitar a morte de milhares de pessoas durante uma pandemia, apenas por ideologia política. É tão repugnante quanto prescrever medicamentos sem autorização médica e que podem colocar a saúde das pessoas em risco, levando-as, inclusive, a óbito. Na verdade, Bolsonaro já se suicidou. E não por sugestão de ninguém. O fez deliberadamente sendo o que ele é, em todos esses anos de vida pública. Ao término de seu mandato, seja por impeachment ou seja cumprindo-o até o fim, ele apenas terá a sua existência embebida de ódio e intolerância sepultada no lixo da história.

O texto de Ruy Castro é forte, e, infelizmente, reflete um pensamento que não é só dele, diante da conduta do mandatário do país no enfrentamento de uma pandemia que afetou a vida de todos os cidadãos do mundo. Não compactuo, mas opto pelo perdão que a licença poética do escritor lhe permite receber. O mesmo perdão que um pai amoroso concederia ao seu filho corrupto, que construiu patrimônio promovendo “rachadinhas” e outros esquemas de corrupção, desviando verbas públicas de uma finalidade social mais nobre. Como, por exemplo, evitar o suicídio de pessoas desesperadas por que o governo suspendeu o auxílio emergencial, as deixando sem nenhuma renda em meio ao caos social que o vírus nos colocou.

Que os fãs do presidente fiquem tranquilos. Ele não irá se matar, porque não é homem de aceitar sugestões. Se deixou de aceitar os conselhos de Luiz Henrique Mandetta, quando este era o seu Ministro da Saúde, ignorando que poderia estar colocando em risco a vida de milhões de pessoas, não será o de Ruy Castro que ele aceitará. Até porque a sua especialidade é matar e não se suicidar. E que ele viva muito, para pagar pelas vidas que ele está ajudando a ceifar com sua inaptidão, incompetência, irresponsabilidade e omissão.

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