Santinhos e figurinhas

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(Foto: Divulgação)


Por Josué de Souza

Semana passada meu filho pediu um álbum de futebol. Confesso que só então percebi que estamos em ano de copa. Para quem não acompanha o futebol no dia a dia, o torneio mundial de futebol serve de parâmetro para a passagem do tempo.  Meu guri que nasceu ontem, já está com sete anos e negociando figurinhas com os colegas na porta da escola!   

 Este ano, por conta do calor no Qatar e as mudanças calendário do torneio promovidos pela FIFA, no Brasil a caça as figurinhas vai concorrer com a distribuição de propaganda eleitoral por candidatos e partidos políticos. A coincidência que me provocou nostalgia da infância. Eu colecionava santinhos de candidatos.  

 Sim eu sei, colecionar santinhos era uma diversão solitária que provocava estranheza em familiares e amigos. Entendam que a comichão por política é uma doença que se manifesta desde a infância. Também já era corrente naquele tempo a lenda de que se a esquerda chegasse ao poder, igrejas seriam fechadas.   

 Eu passava horas organizando as propaganda. Primeiro por cargos, depois por partidos. Naquele tempo, eu não tinha preferência por partidos ou coloração ideológica. Lembro que tinha um candidato a vereador que ao lado da foto dele, ele colocou uma imagem do Baby Sauro, um popular personagem da família Dinossauro. Era uma seriado que na época fazia sucesso da TV.   

 Assim como no futebol, na minha coleção de santinhos haviam figurinhas mais fáceis de encontrar e outras mais difíceis. As mais raras eu só conseguia no dia da eleição quando os candidatos e cabos eleitorais esparramavam o material na frente das seções eleitorais. Mas estão, a brincadeira já tinha acabado.  

 Para atender desejo de meu filho, fui pesquisar na internet o preço de algumas figuras mais desejadas. Descobri que em sites de venda, a figurinha do Neymar é oferecida por até R$ 1300,00. Valor superior ao salário mínimo, que desde a última copa, não tem aumento real.  

 Esta semana viralizou a notícia que um o garoto de Goiânia que faz o seu próprio álbum. Filho de feirantes, sua família não tem condições de comprar um álbum para ao garoto. A coleção completa representa metade da renda familiar do menino. Isso se ele tiver a sorte de não pegar nenhuma figurinha repetida. Fenômeno quase impossível de acontecer.  

 Desde minha infância passaram-se muitas eleições. Algumas vencidas pela esquerda e outras pela direitas. As igrejas continuam abertas. Em tempos de redes sociais, o material impresso perdeu a importância. Mentiras mudou o nome, agora é Fake News. Continuam sendo requentadas. E as pessoas continuam acreditando. A única coisa que parece verdade, é que se no dia da eleição o trabalhador escolher a figurinha errada, continuará elegendo os representantes da família dinossauro. Seguiremos rumo ao período jurássico e com um salário valendo menos que uma figurinha de futebol.  

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