Sara Ninguém (inspirado livremente em a metamorfose, de Kafka)

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Em um dia frio de inverno, com céu azul e ar refrescante, ela veio ao mundo. Sentiu-se expulsa do ventre da mãe, onde podia ser apenas o centro do mundo de alguém. Embora mais tarde não tivesse lembrança consciente desse grande desapontamento com sua chegada à vida, ele passaria a defini-la. Seu nascimento foi sua primeira desgraça. Estava em um mundo enorme, em que suas vontades não eram imediatamente realizadas e, desde os primeiros passos bamboleantes, tratou de inventar formas dissimuladas de tornar-se o centro das atenções.

Nas brincadeiras infantis, imaginava-se rainha, com todos ao redor como servos. Orgulhosa, via-se com um vestido imponente, coroa, pedras preciosas e tornozeleira de ouro. Este seria, sem dúvida, o seu destino. Fora da fantasia, não conseguia a atenção que acreditava merecer, o que  provocou um pesadelo recorrente. Poderia ser uma demonstração de cultura, caso tivesse lido Kafka, pois acordava no corpo de uma barata. Quando despertava de verdade, suada e chorando, recusava consolos e abraços daqueles que a cercavam e eram incapazes de aliviar a dor de ser quem era. De viver em um mundo que transitava entre a nobreza e o esgoto.

Alguns dizem que essa dor envolveu também sofrer violências reais na infância, mas a teoria é difícil de comprovar. Mesmo que fossem narradas por ela, ficaria a dúvida de ser apenas uma nova forma de tentar se colocar como centro das atenções. O fato é que o pesadelo se fez parte integrante da sua identidade, embora logo tenha descoberto que não devia contá-lo a ninguém. Quando o fazia, passavam a olhá-la como se fosse anormal. Talvez porque o simples ato de contá-lo lhe desse uma coloração diferente. A pele ficava amarela e os olhos injetados pelo desespero de sentir-se arrastada ao esgoto todas as noites...

Quando chegou à adolescência, descobriu que o corpo de mulher era uma forma eficaz de conquistar a atenção dos homens. Embarcou em novos sonhos de rainha, que logo  a fizeram sentir-se uma barata. Depois do encantamento inicial, em que provou o gostinho de atrair olhares de cobiça e sentir-se poderosa, viu-se usada por aqueles que eram mais fortes e mais poderosos que ela. Foi obrigada a fazer coisas que não gostava, que lhe causavam dor, com a inevitável sensação da sujeira a arrastando ainda mais aos esgotos. 

Uma vez ao ano, quando voltava o inverno, o frio lhe trazia a sensação gostosa de uma dor natural, não escolhida, que lhe dava a oportunidade de sentir cada parte do corpo como se fosse sua, como se fosse humana. Mas não era. O corpo não era seu, a mente não era sua, o coração não era seu. Eram todos parte da farsa que representava a cada dia para seduzir. Como não havia aprendido a sentir afeto, era incapaz de compreender que buscava mesmo era sentir-se amada... 

Nestes dias sem consolo, foi pega de surpresa com a possibilidade de ser mãe, algo com que não podia lidar então. Arrastou-se solitária  até um consultório clandestino e fez o que era, a seu ver, a única solução possível. Passou noites com dores e pesadelos sem ninguém ao lado para lhe dizer sequer que tudo passaria. Agarrou-se ao frio do inverno que, não entendia como, lhe dava a esperança de renascer novamente, no corpo de outra pessoa, quem sabe... 

Por certo, tinha ainda uma alma, como todos têm – será? -, mas decidiu guardá-la bem trancada em um alçapão, no fundo de um fosso. Só assim poderia sentir que  uma parte sua estava a salvo do esgoto no qual permanecia mergulhada.  Os pesadelos desapareceram a partir daí, o que a fez pensar que havia tomado a decisão certa.

Fugiu da solidão com o recurso de adotar grupos diversos, vestindo a ideologia de cada um como uma nova fantasia, aperfeiçoando a arte da dissimulação. Foi do feminismo ao conservadorismo, da esquerda à ultra direita. Faz de tudo para ser a integrante mais dedicada e destacada em cada um, e conquistar alguma recompensa. Depois de ser reconhecida como merecedora, porém, ao descobrir  que o prêmio era insignificante, buscava uma fantasia nova. Essas mudanças de exoesquelto, verdadeiras metamorfoses, serviram para lhe dar a sensação de que poderia sobreviver a tudo, se adaptar a toda e qualquer mudança. Há quem explique isso como um sintoma de quem não poderia mais desenterrar sua alma. Outros a consideram apenas uma manipuladora e aproveitadora... 

Mas não conseguiu fugir da sensação de ter assassinado sua alma. É impossível ao carcereiro, se não ouvir, pelo menos imaginar os gritos daquele que enterrou na masmorra. Por isso, procurou a religião. Pediu o perdão de Deus, quis recomeçar tudo, iniciou uma familia. Agora acredita que deve defender a vida e lutar contra os monstros da morte, como lhe ensinaram. Agarrando-se a ideia de renascer, escolheu para si um novo nome – que já tinha dona, nem nisso foi original. 

É tarde, porém, antenas escuras já nasceram no alto de sua cabeça, e precisa todos os dias pintar os cabelos e alisá-las para debaixo deles. Também é obrigada a depilar seguidamente os grossos pêlos marrons, como espinhos, que lhe nascem nos braços e servem como perfeito encaixe para coronhas de armas.

Só tem um medo, que não entende: cair de costas no chão e não conseguir levantar. O certo é que pensa ter descoberto uma missão na vida, e persegue com frieza exemplar toda e qualquer pessoa que demonstre alguma das dores que sentiu um dia. Considera estar no caminho certo, já ganhou até uma tornozeleira, que finge ser de ouro...

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