Seria Lula o nosso Mandela?

Assim como Mandela na África do Sul, guardadas as devidas proporções e especificidades próprias a cada nação, Lula foi responsável pelo começo do fim do apartheid sócio-econômico que imperava no Brasil

Tenho consciência plena de que tem gente que é chegada num exagero e diz que "Lula é Deus". Outros, dentre estes até alguns intelectuais notáveis e respeitáveis, falam em um suposto "lulismo". Discordo de ambas as formulações, mas é forçoso reconhecer, preconceitos de classe e paixões partidárias à parte, a importância histórica de Lula para o Brasil e a sua relevância, respeitabilidade e reconhecimento no cenário internacional – onde suplantou até o "príncipe dos sociólogos" do nosso paroquial mundo acadêmico, Fernando Henrique Cardoso. Mas seria Lula comparável a Nelson Mandela?

Concordo, ao menos em parte, com a avaliação de alguns esquerdistas mais radicais de que Lula serviu como uma espécie de "pelego" que diminuiu, suavizou o atrito entre as classes dominantes e as classes desfavorecidas no país. A eleição de Lula, em verdade, sejamos honestos, e foi providencial que tenha se dado naquele momento e dessa maneira, impediu uma convulsão social e a ruína do país, depois de um final de governo catastrófico dos tucanos – esse episódio já está escrito nas páginas da história e é fato irrefutável.

Lula, líder político que possui um carisma singularíssimo, a exemplo de Mandela, surgiu então como uma espécie de fiador, de "fiel da balança", promovendo na prática, talvez de modo um tanto "precário", "improvisado" ou "inesperado", o tão sonhado "pacto social". O povo brasileiro depositou em um de seus iguais, não na sua elite governante, a crença de que a esperança poderia vencer o medo. E de fato venceu.

Lula, o líder operário que se tornara presidente da República, conseguiu tal "proeza", jamais alcançada, de unir a nação numa mesma caminhada, na esteira da força da sua credibilidade e de seu incomensurável carisma, com o suporte providencial/essencial do partido dos trabalhadores (já, a essa altura, espalhando fortes raízes na sociedade), de alguns outros partidos de esquerda (como o PCdoB), dos sindicatos, dos movimentos sociais, de setores mais progressistas da Igreja Católica, de uma militância fervorosa e, sobretudo, de uma nova onda revolucionária de comunicação alternativa chamada "blogosfera".

Assim como Mandela na África do Sul, guardadas as devidas proporções e especificidades próprias a cada nação, Luiz Inácio Lula da Silva foi responsável pelo começo do fim do apartheid sócio-econômico que imperava no Brasil. Por aqui, além da discriminação contra os negros, ora velada ora ostensiva, sempre houve a segregação entre ricos e pobres – esta sim, ostensiva e infame, e, por incrível que pareça, tida como "natural".

Os pobres no Brasil, antes de Lula, dificilmente conseguiam cursar uma faculdade, viajar de avião, comprar carro "zero km" e até mesmo simples eletrodomésticos e aparelhos eletroeletrônicos, ou frequentar restaurantes e se hospedar em hotéis em que só os membros das classes médias e altas frequentavam.

É certo que para além da ignorância, inveja e/ou ignomínia de alguns poucos, Lula também, tal qual o inesquecível "Madiba" pelo povo africano, é amado e celebrado pelo povo brasileiro. Deve ser sim também criticado [pois não é "Deus"], mas deve ser, sobretudo, respeitado como um grande líder que é, cuja liderança e valor extrapolam os limites territoriais do nosso país e da América Latina.

E é bom que continue assim. E que saibamos preservar e valorizar esse "nosso" patrimônio – pois, caro a tudo que é humano, já nem é somente nosso, em verdade já pertence à humanidade.

E que Lula prossiga, ainda por muitos anos, prestando relevantes serviços ao Brasil e ao mundo, no combate das desigualdades sociais e da fome.

Até mesmo, que fique o registro para os mais "radicais" e, por mais paradoxal que possa parecer, para os mais conservadores ou reacionários, para a paz e tranquilidade de nossas elites. Pois assim estas poderão prosseguir cedendo alguns poucos dos seus reluzentes anéis para que não percam os dedos.

O meu temor, confesso-lhes, deve-se ao fato de que nem mesmo esses singelos anéis parte da nossa elite inescrupulosa quer ceder. Talvez ainda não tenha se dado conta de que pode de fato vir a perder os dedos.

Como, aliás, por estranha ironia e numa metáfora de gosto duvidoso, deveria lhes ensinar, não apenas a mão espalmada, mas toda a trajetória, do ex-torneiro mecânico, migrante nordestino, que finalmente ajudou a colocar esse país no rumo certo.

Rumo este que alguns tentam, todo o tempo, e de todas as maneiras, desviar.

Afinal, Lula é ou não o nosso Mandela?

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