Seria o início de uma 'mordaça evangélica'?

O tema de minha dissertação foi a inserção de uma igreja neopentecostal, a Bola de Neve Church, a um contexto de mídia e mercado. Lamentavelmente a igreja retratou a obra como "totalmente tendenciosa e ilegal"

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Fiz minha dissertação de mestrado em História na UDESC, tendo defendido a mesma em fevereiro de 2010. O tema foi a inserção de uma igreja neopentecostal, a Bola de Neve Church, a um contexto de mídia e mercado.

Minha pesquisa de campo, de onde derivou uma observação participante intensa, foi realizada fundamentalmente sobre a unidade de Florianópolis, transbordando para uma etnografia digital, com análise dos deslocamentos e agenciamentos institucionais da BDN no ciberespaço.

A dissertação foi toda de acordo com o comitê de ética da UDESC. Recebi bolsa interna da UDESC e bolsa da CAPES. A pesquisa recebeu (excelentes) orientação e coorientação de Márcia Ramos, da UDESC e Artur Cesar Isaia, da UFSC.

A pesquisa que gerou a dissertação foi aos poucos atualizada, o que gerou artigos em diversas revistas especializadas e em fóruns de discussão.

Antes de lançado, o livro foi lido por professores/as doutores/as da área, que recomendaram publicamente o mesmo em eventos diversos. O prefácio do livro foi assinado por Stewart M. Hoover, considerado o "papa" dos estudos acerca das relação entre mídia e religião no mundo. Leonildo Silveira Campos e Magali do Nascimento Cunha, considerados referências brasileiras e internacionais nas pesquisas sobre marketing, mídia e religião, assinaram as apresentações. Todos os três recomendaram publicamente a leitura e estudo do mesmo, como um estudo de caso acerca do neopentecostalismo em geral.

Entre o fim de agosto e o início de setembro conversei por telefone e por email com a secretária da referida igreja, avisando sobre a publicação de minha pesquisa e minha intenção de uma entrevista online com o apóstolo Rinaldo Seixas e sua esposa, a pastora e cantora Denise Seixas.

Em 23 de outubro, avisei o apóstolo da igreja que lançaria o livro - pensando nisto como ato de honestidade intelectual. Em 25 de outubro, o mesmo respondeu a entrevista online. Em 26 de outubro, lembrei sobre a publicação do livro. Também expliquei que gostaria que o mesmo lesse o trabalho e dialogasse comigo a partir disto. Minha pretensão era a de adensar suas opiniões, ainda que contrárias, ao livro, quer fosse no corpo do texto, em rodapé ou em anexo.

Qual não foi minha surpresa no dia do lançamento?

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De 29 a 31 de outubro, foi realizado na FFLCH/USP o Simpósio Internacional da ABHR (Associação Brasileira de História das Religiões), concomitantemente ao 1. Simpósio Sudeste desta associação. O tema foi "Diversidades e (in)tolerâncias religiosas". Eu fui o organizador geral do evento. Segue o endereço do site: www.sudesteabhr.net.br.

Lembro que tratava-se de um evento internacional, de uma associação referência nos estudos de religiões e religiosidades (a ABHR), e que o tema do evento era "Diversidades e (In)Tolerâncias Religiosas"! E é neste evento que meu livro foi censurado.

A programação noturna do dia 30 de outubro compreendia o lançamento coletivo de publicações. Foram lançadas mais de 30 publicações, entre revistas e livros especializados nas religiões, crenças e sacralidades. Durante o evento lancei o livro com conferências e mesas do simpósio. Lancei também o livro "A grande onda vai te pegar: marketing, espetáculo e ciberespaço na Bola de Neve Church", desdobramento de minha pesquisa de mestrado supracitada.

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No momento do lançamento, um advogado da BDN foi à porta do auditório me chamar, acompanhado de dois rapazes de porte avantajado, que aparentavam ser seguranças (não estou certo que fossem). O advogado tentou me persuadir a não realizar o lançamento, dizendo que eu "iria ter problemas".

Alegou que eles tinham propriedade intelectual do nome da igreja e que o nome estava na capa; que aquele era um livro comercial e não acadêmico (mal sabem que pelo acordo com a editora eles vão me encaminhar uma pequena parcela em livros, e nada em dinheiro). Algumas pessoas do evento testemunharam este contato da igreja comigo.

A editora recebeu, no mesmo dia, notificação da BDN para retirar o livro de circulação. É possível que o façam.

A igreja entrou com uma ação, indeferida pelo juiz. Depois entrou com um recurso (agravo de instrumento), indeferido por um desembargador. Acesse aqui o indeferimento do mesmo. Eu soube por algumas pessoas que eles estão entrando com nova ação (possivelmente por conta do conteúdo do livro).
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Seguem alguns comentários sobre a ação apresentada por eles:

Eles pediram o cancelamento do evento de lançamento de livros no dia 30. Solicitaram que "o corréu EDUARDO se abstenha de publicar matérias em nome da Autora, bem como retirar TODOS OS ARTIGOS RELACIONADOS À AUTORA já publicados em sites, tendo em vista que tais artigos possuem caráter meramente difamatório e injuriador, sem informação alguma, servindo apenas para atacar a honra e imagem da Autora".

Na ação proposta por eles, eu não poderia mais nem MENCIONAR o nome da igreja em nenhum trabalho acadêmico. Escrevem: "Não só o título atribuído ao livro contém o nome da Autora, mas também, todo o conteúdo do livro!"

Eles pedem: "intimação do corréu Eduardo, por e-mail, vez que o endereço eletrônico foi o único endereço localizado pela Autora, que desconhece sua qualificação completa, para que se obrigue a NÃO vincular o nome da Autora em nenhuma obra de sua autoria (LIVROS, ARTIGOS DE REVISTAS IMPRESSA E ELETRÔNICA), providenciando, de imediato, a retirada de todos os sites que enviou trechos do livro, bem com a exclusão da FAN PAGE criada para divulgação da obra, e qualquer menção que possa ser feita ao nome,
marca e imagem da Autora".

Em outro ponto, pedem a proibição e "a retirada de todos os textos publicados na internet que utilizam o nome da Autora, além da proibição de veicular o seu nome em qualquer produção intelectual (artigos, livros etc.)."

E haveria multa:
"arbitramento de multa (astreinte), na hipótese do descumprimento do determinado por Vossa Excelência, no importe de R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais), caso seja realizado o evento datado de 30.10.2013, bem como o valor de multa diária de R$10.000,00, na hipótese da comercialização dos livros e não depósito das obras em juízo ou entrega à Autora para armazenamento no prazo de 24 horas."

Outro dado a ser salientado é em relação à "AUTORA" não saber da publicação do livro.

Mas em 23 de outubro comentei com o líder da igreja sobre o lançamento do livro no fim do mês de outubro. Ele respondeu o questionário no dia 25 de outubro (questionário enviado em início de setembro). Entendo que se ele respondeu o questionário, de certa forma, "autorizou" a obra, pois SABIA efetivamente sobre o lançamento (avisado por mim no dia 23). Infelizmente, ele respondeu o questionário apenas 5 dias do lançamento, o que impossibilitou que eu colocasse suas opiniões no livro. (lembro que avisei o mesmo que estava escrevendo sobre a BDN em 6 de agosto, 1 de setembro e 2 de setembro, via facebook, pedindo entrevista, mesmo que online. Após diálogo com o mesmo e sua secretária Giovanna, ele só respondeu o mesmo após saber do lançamento do livro).

A ação deles descreve: "vale ressaltar que as próprias respostas dadas pelo presidente da entidade Autora, foram deturpadas/ignoradas pelo correu em seu relato, DEMONSTRANDO SUA MÁ-FÉ e direcionamento de sua 'pesquisa', cujo real resultado não foi motivo de sua obra!!"

Mas como eles sabem se algo foi deturpado se na época da entrada da ação eles não tinham acesso ao conteúdo do livro - adquirido por seu advogado (que me intimidou no auditório da Casa de Cult. Japonesa, na USP) no dia do lançamento?

Me retratam como alguém "de má fé", e o livro como obra "totalmente tendenciosa e ilegal". Segundo eles, "O livro traz de uma forma absurda, as supostas práticas de marketing que a Autora perpetra, com intuito de atrair fiéis. Uma verdadeira AFRONTA a seus princípios, valores, objetivos. Uma verdadeira afronta aos valores cristãos, uma verdadeira afronta à liberdade religiosa e sobretudo, uma verdadeira afronta àquele que é adorado na entidade e por todos os seus fiéis, Deus".

Mesmo sem lerem o livro, a sentença é que o livro traz "uma abordagem tendenciosa e mentirosa da Autora com único objetivo: denigrir a imagem e se locupletar às custas da Igreja Bola de Neve Church." Para eles, a entidade estaria sendo "retratada de forma tão desrespeitosa e caluniosa."

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Nas últimas semanas recebi diversas mensagens com palavrões e com ameaças. Mas em relação a isto, já tomei as devidas medidas judiciais e criminais.

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Agora questiono: onde estamos agora? Censura após livro autorizado? Ou não autorizado? Histórias não autorizadas? Trabalhos acadêmicos não autorizados? Eventos não autorizados? Menções a nomes de igrejas pesquisadas não autorizadas? Cadê a liberdade de pesquisa e de expressão?

Estaria rolando uma espécie de "mordaça evangélica?"

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