Sobre a ordem neoliberal, sua realidade e sua agressão à Venezuela

Até agora, à exceção de uma invasão militar, todos os meios possíveis foram utilizados para derrubar Chávez e agora seu sucessor Maduro: tentativas fracassadas de golpe de estado como em 2002 contra Chávez e as mais recentes contra Maduro

Sobre a ordem neoliberal, sua realidade e sua agressão à Venezuela
Sobre a ordem neoliberal, sua realidade e sua agressão à Venezuela (Foto: Miraflores Palace/Handout via REUTERS)

Desde a eleição de Hugo Chávez como Presidente em 1999, a Venezuela tem estado sob ataque constante da ordem neoliberal internacional com sede nos EUA. Até agora, à exceção de uma invasão militar, todos os meios possíveis foram utilizados para derrubar Chávez e agora seu sucessor Maduro: tentativas fracassadas de golpe de estado como em 2002 contra Chávez e as mais recentes contra Maduro; guerra econômica e midiática; sabotagens de toda ordem, desestabilização da moeda; bloqueio e sanções econômicas.

Um relatório recentemente publicado pelos respeitados economistas Jeffrey Sachs, diretor do «Center for Development» da Universidade de Columbia, consultor especial do Secretário Geral das Nações Unidas, Antonio Gutierres; e por Mark Weisbrot, co-diretor do «Center for Economic and Policy Research» (CEPR) com o título de «Sanções Econômicas como Punição Coletiva: o caso da Venezuela», estima em 40.000 o número de mortes até agora causados na Venezuela pelas sanções econômicas impostas pelos EUA e seus aliados. Weisbrot e Sachs consideram que estas sanções correspondem à definição de punição coletiva de uma população civil tal como descrita pelas convenções internacionais de Genebra e de Haia, as quais foram assinadas pelos próprios Estados Unidos. Portanto, estas sanções são ilegais não só do ponto de visto do direito internacional mas também do ponto de visto do direito norte-americano. Os autores afirmam que é criminoso tomar como refém a população de um país como fazem atualmente os EUA e seus aliados. A grande imprensa mundial, subserviente ao império, como seria de se esperar, quase não mencionou este relatório e suas conclusões, continuando a culpar o governo do «ditador» Nicolás Maduro pela situação econômica na Venezuela. A alternativa defendida pelo império para a Venezuela é, claro, o modelo neoliberal já imposto à maioria dos países latino-americanos. As promessas de desenvolvimento econômico e social do neoliberalismo diferem muito, contudo, da sua realidade, como podemos constatar através de uma breve descrição das realizações dos governos neoliberais de Ivan Duque na Colômbia, Mauricio Macri na Argentina e Jair Bolsonaro no Brasil, os principais aliados na América Latina dos EUA em sua agressão à Venezuela.

A Colômbia, para o império o modelo preferido a ser seguido pelos demais países latino-americanos, é hoje o país mais perigoso do mundo para sindicalistas, defensores de direitos humanos e movimentos sociais em geral. De acordo com o Centro Nacional da Memória Histórica, os grupos paramilitares colombianos ligados à oligarquia a aos interesses das grandes empresas transnacionais foram responsáveis por 94.754 mortes nos últimos 50 anos na Colômbia. O jornalista político W.T. Whitney num artigo publicado em COUNTERPUNCH, assim descreveu a situação na Colômbia:

«Um relatório sobre ataques paramilitares em 2003 concluiu que estes foram responsáveis pelo assassinato de 120 camponese nos últimos 4 anos. (...) Entre janeiro de 2016 e março de 2019, 498 pessoas foram mortas, incluindo 113 líderes comunitários, 18 lideranças de movimentos políticos, 9 líderes de trabalhadores, 7 defensores ambientais, 6 sem terra, 5 defensores de direitos humanos, 31 lideranças indígenas, 28 lideranças camponesas e 24 lideranças afro-colombianas.(...) Durante os últimos 10 anos, 5000 crianças da etnia Wayúu morreram de fome no estado de La Guajira onde 58% das pessoas são pobres e 25% consideradas em situação de extrema pobreza. A proporção de pobres vivendo em Buenaventura, na costa do pacífico, é de 80%; 41% destes vivendo em extrema pobreza; 71% tem acesso limitado à água; 40% vivem sem saneamento básico e 65 % são desempregados. Metade dos colombianos vivem com menos de 6 dólares por dia; 4% com menos de 2 dólares por dia.»

Este é apenas um pequeno retrato da realidade do neoliberalismo na Colômbia. Mas de acordo com o mesmo autor, o povo colombiano tem resistido:

« No início de março (2019) povos indígenas da região sudoeste da Colômbia convocaram uma Minga – palavra quechua que significa um esforço coletivo pelo bem comum. Mais de 15.000 pessoas se reuniram em Cauca e bloquearam a auto estarada Pan-Americana entre Popayan e Cali por 25 dias. Em abril o Presidente Ivan Duque recusou um encontro com os indígenas. A polícia e o exército foram acionados e houve mortos e feridos. (...) A Greve Cívica Nacional de 25 de abril reuniu ativistas de várias organizações incluindo a Minga (...) Houve protestos contra os assassinatos, contra os ataques aos sindicatos, aos direitos rurais e à educação pública(...)» E sobretudo, houve protestos contra o uso do território colombiano para ataques políticos e militares à Venezuela. É uma ironia que um dos principais obstáculos à participação das forças armadas da Colômbia numa eventual intervenção militar conduzida pelos EUA na Venezuela seja a necessidade cada vez maior do atual governo da Colômbia de utilizar suas tropas para defender-se de sua própria população!

Já na Argentina o Presidente Mauricio Macri e seu partido foram praticamente uma criação da influente Atlas Network, uma das principais instituições internacionais para a difusão do pensamento neoliberal, como escrevi em um artigo anterior.

O fato é que a Argentina de Macri já é hoje bem mais pobre do que a Argentina de sua antecessora Cristina Kirchner. Em apenas 3 anos de governo o Presidente Macri conseguiu aumentar a dívida externa da Argentina em 320 bilhões de dólares e a inflação prevista para este ano chega aos 54,7%. Os aumentos nas tarifas tem sido constantes e abusivos. De acordo com José Rigane do Sindicato Central Autónomo da Argentina (CTA-Autónoma), de janeiro de 2016 até agora, o custo da eletricidade aumentou mais de 3600%, o gás mais de 2400%, a água 1118% e os transportes 500%. Há mais de 3 milhões de novos pobres na Argentina e 1 milhão a mais de sem teto. Por todas estas realizações, o Presidente Macri foi homenageado com o "Global Citizen Award" de 2018 pelo Atlantic Council, outra influente instituição comprometida com a defesa e a imposição da ordem neoliberal como descrevi no artigo citado acima. A ironia neste caso é que o risco-país da Argentina – como é chamado o ágio que os investidores cobram para emprentar dinheiro - superou os mil pontos, ficando atrás, na região, apenas da... Venezuela!

Ou seja, enquanto a Venezuela enfrenta uma verdadeira guerra econômica apoiada por virtualmente toda a comunidade financeira internacional, a Argentina, com o apoio explícito desta mesma comunidade, consegue o feito de ter o seu risco-país classificado como o segundo pior da região! É um verdadeiro prodígio! Enqanto a economia agoniza e o sofrimento dos mais pobres aumenta, grande parte das riquezas pública da Argentina já foi privatizada, como manda a ordem neoliberal. Como na Colômbia, o empobrecimento da Argentina é um resultado da transferência das riquezas argentinas para o capital privado internacional – o que sempre foi um dos objetivos da ordem neoliberal.

Mas também como na Colômbia, cresce na Argentina a mobilização popular contra a política neoliberal do Governo Macri. No dia 30 de abril passado aconteceu uima greve geral organizada por mais de 30 setores diferentes. Em Buneos Aires 200 mil pessoas foram às ruas. A jornalista Tanya Wadhwa assim escreveu para o People's Dispatch sobre esta greve:

"Em seguida à massiva mobilização muitas pessoas continuaram seu dia de luta e marcharam para a Embaixada da Venezuela que membros da oposição de direita venezuelana tentavam ocupar, seguindo a frustrada tentativa de golpe de Juan Guaidó. Ativistas de organizações argentinas se colocaram dentro e fora da Embaixada protegendo-a dos ataques. A polícia – que durante todo o dia esteve presente no local protegendo o grupo de opositores que tentava ocupar a Embaixada pela força – começou a reprimir os ativistas e a atacá-los com gás lacrimogêneo e pancadas. Muitos foram feridos e 4 foram presos (...) "

Como na Colômbia, o povo argentino se solidariza e defende a Venezuela e o seu governo e sabem muito bem por quê! As manisfestações contra os governos neoliberais de Ivan Duque e Mauricio Macri não foram manipuladas a partir dos EUA e de uma imprensa internacional subserviente ao império, mas sim organizadas pelas instituições e movimentos sociais locais expressando a indignação da população com os seus governos. No caso da Venezuela, um rídiculo "auto-proclamado" presidente procura em vão "mobilizar" a população local contra o Presidente eleito Maduro e qualquer meia-dúzia de opositores é saudada pela grande imprensa como uma "vitória do povo" e "prova" da ineficiência do governo. Mas as mobilizações reais do povo contra os seus governos estão acontecendo nos grandes símbolos das conquistas neoliberais, Colômbia e Argentina, não na Venezuela. Sobre algumas das realizações da Venezuela a favor de sua população, sobretudo os menos favorecidos, é muito revelador o que a própria CIA tem a dizer em seu site (https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/geos/ve.html )

"O invstimento social da Venzuela durante a administração CHÁVEZ reduziu a pobreza de aproximadamente 50% em 1999 para cerca de 27% em 2011; aumentou a frequência escolar e diminuiu sensivelmente a mortalidade infantil; melhorou o acesso à água potável e ao saneamento através de investimento social. As "missões" dedicadas à educação, nutrição, saúde e saneamento foram financiadas com os lucors do petróleo. Entretanto, a manutenção destes programas permanece questionável já que eles dependem da prosperidade da indústria petroleira da Venezuela. Os gastos com educação e saúde podem aumentar o crescimento econômico a longo prazo e reduzir a desigualdade (...)"

As sanções e as agressões contra a Venezuela por parte dos governos neoliberais subservientes ao império vieram justamente para combater e se possível destruir o desenvolvimento da Venezuela e o sucesso de seus programa sociais descritos pela CIA. Pois o neoliberalismo é sobretudo uma guerra aberta CONTRA o desenvolvimento, seu pressuposto básico sendo o de que as riquezas públicas – o bem comum – devem ser colocadas à serviço do desfrute privado e não do desenvolvimento social. A grande ameaça representada pela Venezuela é a de ser um "mal exemplo": imaginem se outros países começarem a utilizar suas riquezas para o seu próprio desenvolvimento e não para a ganância do capital internacional ou para locupletar algumas poucas empresas transnacionais?

Seguindo a narrativa "fake" da imprensa neoliberal, tornou-se comum dizer, pejorativamente, que nenhum país quer transformar-se numa "Venezuela". Faz muito mais sentido porém afirmar que os venezuelanos não querem que o seu país se transforme numa Argentina, numa Colômbia ou num ... Brasil.

Na ordem neoliberal imposta pelo império, o Brasil do Governo Bolsonaro é um caso único e exemplar. Em nenhum outro país da América Latina o neoliberalismo se apresenta com tal pureza e é portanto no Brasil que podemos com mais clareza discernir os reais propósitos e objetivos da ordem neoliberal, bem como suas estratégias de dominação.

A ascenção do Bolsonarismo começa com a preparação para o golpe contra a Presidente Dilma Rousseff onde a Atlas Network e suas instituições afiliadas no Brasil tiveram um importante papel. Segundo um estudo realizado por Aram Aharonian e Álvaro Verzi Rangel, co-diretores do Observatory in Communication and Democracy (OCD) e do Latin-American Centre of Strategic Analysis (CLAE), são estas as principais instituições ligadas à Atlas Network no Brasil:

- Movimento Brasil Livre (MBL)

- Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP) no Rio de Janeiro. No conselho editorial desta instituição encontra-se Yves Gandra Martins que teve um papel importante tanto no desenvolvimento dos argumentos para o impeachment da Presidente Dilma Rouseff quanto para a defesa do impeachment de Michel Temer.

-O Instituto Millennium, localizado no Rio de Janeiro, que partipou ativamente na promoção das passeatas contra a Presidente Dilma Rousseff.

- O Instituto Liberal, também localizado no Rio de Janeiro.

Além do apoio às manifestações contra a Presidente Dilma e contra a "corrupção" do PT, estas instituições ajudaram a divulgar e legitimar o pensamento da direita, como o estado mínimo e as "virtudes" do setor privado, tendo ampla penetração na imprensa e nas universidades. Estas instituições também apoiaram a Operação Lava Jato que foi igualmente fundamental tanto para o golpe contra a Presidente Dilma quanto para a ascenção do Bolsonarismo. As ligações desta operação com o Departamento de Estado dos EUA e com o Atlantic Council são conhecidas. A Lava Jato culminou com a prisão do Ex-Presidente Lula para inviabilizar a sua candidatura à presidência da República. Toda esta articulação tem um objetivo valioso: o acesso, via privatizações, aos recursos naturais do Brasil e às suas riquezas públicas. A principal tarefa do Governo Bolsonaro é de realizar este projeto neoliberal que, na prática, trasnformará o Brasil numa neocolonia do capital financeiro internacional. É um erro ver Bolsonaro e o seu governo como tendo alguma remota ligação com o desenvolvimento do país ou com um projeto de nação. Bolsonaro não é um Presidente, é um admistrador colonial e o seu governo representa com muita clareza este fato. Por isso vivemos no Brasil uma distopia completa, o neoliberalismo em estado puro, sem máscaras.Temos no Governo um Ministro das Relações Exteriores preocupadíssimo em dar todos os sinais possíveis de submissão ao Governo Trump, a quem já chamou de "salvador do ocidente", em detrimento até mesmo das relações comerciais do Brasil com outros países. Temos um Ministro da Educação cuja tarefa principal é acabar com a qualidade do ensino e sobretudo com a Universidade Pública. Temos uma Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos que, em pleno século XXI, pretende repatriarcalizar o país e acabar com todos os direitos conquistados pelas mulheres, pelos homosexuais e com todos os avanço da sociedade civil dos últimos 150 anos, pelo menos. Já o Ministro do Meio-Ambiente está empenhado em eliminar toda e qualquer barreira à exploração e à destruição da natureza pelo capital.E por fim temos um Ministro da Fazenda que quer privatizar absolutamente TUDO, para alegria do capital internacional. Este conjunto não é resultado de "más escolhas" ou falta de articulação do atual Governo. Os ministros escolhidos e as decisões tomadas até agora pelo Governo Bolsonaro visam reforçar o caráter neocolonial do Brasil que é o objetivo central da ordem neoliberal. Que depois de pouco menos de 5 meses de governo o Brasil de hoje se encontre num verdadeiro caos e já esteja mais pobre do que na época da Presidente Dilma não é um problema, é uma evidência de que este governo, do ponto de vista do capital internacional e da ordem neoliberal, esta dando certo, como deixam claro os elogios e o apoio de Steve Bannon e de Trump ao Bolsonaro e aos seus filhos. Quando alguém como Bannon manifesta publicamente seu apoio ao Governo Bolsonaro podemos ter certeza de que há implicações sérias neste tipo de "apoio". Creio ser razoável supor, por exemplo, que assim como a própria Presidente Dilma foi espionada pelas agências de informação dos EUA – o que gerou um escandâlo e um pedido de desculpas de Barack Obama quando esta fato se tornou público – que muitos outros políticos, líderes empresariais, altas patentes da hierarquia militar, lideranças importantes das igrejas evangélicas, parlamentares, etc. TODOS tenham sido alvos de espionagem pelos EUA. E estas informações, se pertinentes, sempre podem ser usadas no futuro para chantagear ou impedir movimentos que, principalmente vindo da direita, procurem derrubar o Governo Bolsonaro. A Atlas Network, o Atlantic Council e o Departamento de Estado dos EUA não estão de brincadeira no seu envolvimento com o Brasil e Bolsonaro é o Governo DELES, ideal para os seus objetivos. Para a resistência resta seguir o caminho das ruas e da mobilização popular contra tudo que este governo representa. E provar que apesar de tudo o povo deste país ainda é mais forte do que os interesses que o oprimem. E assim como os colombianos e os argentinos, solidarizar-se com a luta da Venezuela e com o sonho de Simon Bolívar de uma América Latina livre, unida e soberana.

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