Sofrer com a seleção ganhando é a nossa sina

"O Brasil nesta Copa é a tortura histórica mais sofisticada que um povo poderia sofrer. Acho até que merece. Ou melhor: é uma conjuntura necessária para que todos os nossos fantasmas sejam um dia superados: o entreguismo, o colonialismo, o viralatismo, o pseudo patriotismo e o paroxismo. Sofrer com a seleção ganhando é a nossa sina, o nosso tratamento psicológico reverso grátis e histórico", diz o colunista Gustavo Conde sobre o jogo de hoje entre México e Brasil

Sofrer com a seleção ganhando é a nossa sina
Sofrer com a seleção ganhando é a nossa sina (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Copa do Mundo não é um torneio de futebol, pura e simplesmente. Copa do Mundo é um caldeirão político-emocional que reverbera desdobramentos geopolíticos fulltime. A carga emocional de se ter um pais inteiro torcendo por um time de futebol (a favor ou contra) é imensa e pesa na cabecinha dos jogadores mais fracos mentalmente. 

A indiferença do brasileiro com essa seleção golpista poderia até favorecê-la. O Brasil sempre jogou com a imensa pressão do torcedor e da Globo. É só dar uma olhadinha nas manchetes de hoje nos jornalões e constatar: o jornalismo esportivo brasileiro é só prepotência, arrogância, salto alto e menosprezo indigno por todo e qualquer adversário. É podre. Por isso, dá nojo de cogitar torcer por uma seleção mentirosa e cheia de si (porque jogadores e comissão técnica também se acham os melhores do mundo o tempo todo). 

Por isso, a derrota dói tanto. Por isso, sempre dói. Eu torci muito pela seleção brasileira, mas, lamento dizer: eu cresci. Há outras coisas mais interessantes para se fazer na vida. 

Que as crianças torçam. A utopia de felicidade é etária e geracional. O mundo sonhado por uma criança não é o mesmo mundo sonhado por uma ‘não criança’ (não gosto da palavra ‘adulto’), ainda que ambos devam ter a dimensão do impossível e do ideal de humanidade subscrito no amor edipiano.  

A terra é uma bola e a mãe é uma bola. No fim das contas, todos buscamos a mesma coisa: o quentinho do útero são três traves com uma rede no fundo (ou uma democracia acolhedora e igualitária).

 Para uns, é a morte e o totalitarismo. É aquela história: será que o Sr. João Roberto Marinho mamou no peito? 

Bom, deixemos de digressões, conde. Basta. Vá direto ao assunto, cabra. Vou. O assunto é prognóstico. 

Como eu ia dizendo, Copa do Mundo não é um torneio esportivo, é um termômetro político, psicanalítico e sociológico. Ontem, por exemplo, eu previ (juro) o Modric errando aquele pênalti. Por que eu previ? Explico. 

O jogador croata estava cara a cara com o gol escancarado. Foi derrubado. Poderia ter saltado (com o auxílio de sua visão periférica) ou mesmo tentado empurrar a bola com o joelho, caído no chão que estava. Preferiu o apito. O juiz deveria ter expulsado o dinamarquês. Deu só amarelo (e ninguém falou nada). Tudo errado. O passe foi de Modric, que vinha apagado. 

Quando Modric pegou a bola com aquela cara de violonista lírico e tristonho, pensei: “tadinho do Modric, vai errar”. Dito e feito. Por que eu antevi esse erro? Porque toda “semiótica emocional” do jogo pedia um “erro” decisivo. O craque do time ter que decidir aos 37 do segundo tempo é muita responsabilidade. É a história toda do sujeito que se afunila ali, naquela fração de segundo.  

Futebol é o mais emocional dos esportes. O jogador muito técnico acaba sendo coadjuvante de um processo dramático em que a raça e a irracionalidade prevalecem. Sem jogadores de raça ao seu lado – para fazer o serviço ‘braçal’ de contenção e ‘agressão’ –, o jogador técnico se torna um ‘enfeite’, um totem decorativo e inútil como Temer. 

De sorte que, hoje, teremos o teste de nervos tanto para o México como para o Brasil. É a prepotência versus o sonho, a ‘pária’ de chuteiras versus a nação emergente, o país arrasado versus o país renascido. Isso conta e muito. Mas, fiquem tranquilos, porque conta a favor da seleção brasileira. 

Qual é a semiótica política do momento? A semiótica da dor e do prolongamento da dor. O golpe brasileiro é um golpe que ‘dura’. É a antítese dos golpes (porque golpes são golpes: eles são rápidos e disruptivos).  

Pois bem. A lógica enseja um prolongamento da agonia das ambiguidades. O Brasil vai passar pelo México para aumentar a dor do brasileiro diante da impossibilidade de torcer pela seleção brasileira. Está escrito e está definido. 

Tudo indica que o Brasil chegará à final desta Copa. E aí, o título ou não será só um detalhe. Certamente, perderá para o adversário da final, como perdeu para a França em 1998, devastado pela desorganização da comissão técnica e pelas chantagens da Rede Globo. Quem for o adversário da final contra o Brasil já pode ir comemorando. Tomara que seja a Russia (nem sei se pode ser). 

O Brasil nesta Copa é a tortura histórica mais sofisticada que um povo poderia sofrer. Acho até que merece. Ou melhor: é uma conjuntura necessária para que todos os nossos fantasmas sejam um dia superados: o entreguismo, o colonialismo, o viralatismo, o pseudo patriotismo e o paroxismo. Sofrer com a seleção ganhando é a nossa sina, o nosso tratamento psicológico reverso grátis e histórico.  

Confesso que é gostoso prognosticar esse cenário. Eu consigo sublimar o horror que é ver o brasileiro torcendo infantilizado pela seleção mais uma vez e me divertir com tudo isso. Bom jogo a todos.

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