Sonho presidencial de Moro será causa da sua exoneração

"Ninguém precisa ser adivinho ou analista político para concluir que Sérgio Moro não ficará muito tempo no governo, por uma razão muito simples: ele é hoje um perigoso concorrente do presidente Bolsonaro dentro do próprio Planalto", avalia o jornalista Ribamar Fonseca sobre o ex-juiz da Lava Jato

(Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)
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Todo dia alguém demite o ex-juiz Sergio Moro do Ministério da Justiça. Os rumores sobre a sua exoneração do cargo são diários, o que não significa que tenham algum fundamento, mas pode acontecer a qualquer momento, porque ninguém está seguro neste governo instável. Na verdade, ninguém precisa ser adivinho ou analista político para concluir que Moro não ficará muito tempo no governo, por uma razão muito simples: ele é hoje um perigoso concorrente do presidente Bolsonaro dentro do próprio Planalto. Com um plano ambicioso de poder, que vem dando certo até hoje, ele se convenceu que pode chegar à Presidência da República.  

De certo modo, sua pretensão tem alguma base: de juiz de primeira instância ele se tornou estrela internacional, graças à Lava-Jato, e aproveitou a fama para aspirar uma cadeira no Supremo Tribunal Federal. Diante das primeiras pesquisas sobre intenção de votos para as eleições presidenciais de 2022, no entanto, em que apareceu bem posicionado na corrida sucessória, o ex-juiz percebeu que tem condições de tentar vôos mais altos e já se coloca como candidato em potencial ao Planalto no próximo pleito, embora sem estardalhaço, porque, esperto como é, obviamente não quer um confronto agora com Bolsonaro, que já se declarou candidato à reeleição.

Segundo notícias que circularam esta semana  Moro já faz na surdina, há seis meses,  as suas próprias pesquisas eleitorais, cujos resultados lhe são favoráveis. Ao que parece ele estaria na frente do presidente, o que lhe dá ânimo para prosseguir em seu projeto de poder. Inteligente, embora inculto, em todas as entrevistas ele nega a candidatura, mas vem trabalhando nela intensamente, como é fácil perceber pelas notícias que provoca, para manter-se no foco dos holofotes. Além de entrevistas a programas de televisão de grande audiência,  ele produz notícias, como a abertura de um canal para denúncias de corrupção e a publicação, no site do Ministério da Justiça, da foto dos criminosos mais procurados do país. 

Os dois fatos, noticiados com pompa como se fossem grandes obras da sua pobre gestão, não tem a importância que pretenderam lhe dar, mas serviram para manter o ex-juiz em evidência. Moro sabe que precisa do ministério  para levar em frente o seu projeto presidencial, pois o cargo lhe dá visibilidade permanente  e poder para, inclusive,  obter informações privilegiadas sobre seus adversários. Por isso, posa de humilde na frente de Bolsonaro, para não desagradá-lo,  mas não consegue esconder sempre o seu autoritarismo, revelado esporadicamente nas entrevistas.   

 Bolsonaro sabe do perigo que Moro representa hoje  para a sua reeleição e, por isso deverá exonerá-lo, mas é pouco provável que isso venha a acontecer a curto prazo,  porque o capitão  tem consciência que deve a sua eleição ao ex-juiz e sua demissão agora poderia atrair a ira dos moristas, que certamente o acusarão de ingrato.  Afinal, todo mundo sabe que se Moro não tivesse prendido Lula, mediante um processo forjado com a cumplicidade da mídia corporativista e do Tribunal Regional Federal da 4a, Região, o capitão jamais teria sido eleito. O líder petista era o favorito em todas as pesquisas de intenção de votos, tornando-se desse modo o principal obstáculo ao projeto da extrema direita de eleger o novo presidente. 

Ao afastá-lo o ex-juiz abriu o caminho para Bolsonaro que, como seria natural, recompensou-o com a sua nomeação para o Ministério da Justiça.  Esse gesto de gratidão, no entanto, não é garantia para que Moro permaneça no cargo, pois outros aliados que se empenharam na sua eleição, como Magno Malta e Augusto Bebianno, foram descartados logo após a sua posse. Malta, que alega ter perdido a reeleição para o Senado por ter negligenciado a sua campanha em favor de Bolsonaro, não chegou nem a ser cogitado para nenhum cargo da administração federal. Ao contrário, chegou  a ser visto por alguns auxiliares diretos do novo presidente como um “encosto”, que precisava ser afastado e  esquecido.

Mesmo não o exonerando agora, porém, Bolsonaro vai manter Moro em banho-maria, cortando discretamente as suas asas, para que ele não consiga voar tão alto. Por isso, ele  parece hoje uma alma penada no Planalto, sem a força que lhe atribuíram no inicio da sua gestão no Ministério da Justiça. Ele tomou emprestado do general Heleno o lugar de “papagaio de pirata” de Bolsonaro, acompanhando-o até aos estádios de futebol, e fará qualquer coisa para permanecer no governo, inclusive engolindo sapos de todo tamanho, porque sabe que precisa da blindagem de ministro para escapar das ações contra ele na Justiça, onde, a exemplo do seu velho parceiro Deltan Dallagnol, mais cedo ou mais tarde terá de prestar contas do mal que fez ao país e, particularmente, ao ex-presidente Lula. Em recente entrevista ele disse que “Lula é passado” e não esconde a sua revolta com o Supremo por ter viabilizado a sua libertação, ao dizer que “ele estava lá, cumprindo a pena pela qual foi condenado, mas acabou sendo beneficiado por essa decisão sobre a questão da segunda instância”. E acrescentou: “Mas os problemas judiciais dele permanecem e cabe a ele resolver. A gente não tem nenhuma interferência”, destacou, como se o brasileiro fosse trouxa. 

Por mais se esforce, no entanto, Moro não consegue mascarar a sua escandalosa parcialidade na condenação de Lula, percebida dentro e fora do país, sobretudo depois das reportagens do site The Intercept, que revelaram   as ações criminosas dos bastidores da Lava-Jato vazando os diálogos dos seus integrantes.  O jornal The New York Times, por exemplo,  criticou severamente o ex-juiz em recente matéria ao afirmar que “as mensagens vazadas mostram que Moro frequentemente ultrapassou seu papel de juiz”, acrescentando que “os vazamentos revelam um juiz imoral, que se uniu a procuradores a fim de prender e condenar indivíduos que já consideravam culpados”. O ministro, porém, continua querendo parecer isento. 

Em recente entrevista ao programa “Pânico”, da Band, ele voltou a criticar a Suprema Corte, sempre espertamente ressalvando “com  todo respeito”, dizendo que  “a revisão da prisão em segunda instância pelo STF foi um retrocesso”. E acentuou: “O correto era Lula ter cumprido toda a pena dele”, uma observação cínica para quem foi o autor da pena, que todos sabem injusta. Ele não desiste, porém, de eliminar o ex-presidente do cenário político, ao afirmar que tem esperanças de que o Congresso aprove o projeto que determina  a prisão em segunda instância. “Se você comete um crime tem de ser punido nessa vida, não na próxima”, concluiu. Essa observação obviamente também serve para ele.  

Resta saber o que Moro fará, após deixar o Ministério da Justiça, para viabilizar a sua eleição. O partido ele já tem, o Podemos, mas vai faltar um cargo de destaque que lhe assegure presença permanente no noticiário. Como não poderá voltar para o Judiciário, de onde se exonerou, terá duas alternativas: abrir um escritório de advocacia ou trabalhar na CIA, que visita com frequência. Ou, então, ser nomeado para um cargo de secretário no governo de São Paulo, conforme convite que lhe foi feito pelo governador João Dória quando os rumores sobre a sua exoneração do Ministério da Justiça se tornaram muito fortes.  Neste caso ele pode continuar no foco dos holofotes,  a não ser que Dória também pretenda concorrer ao Planalto. 

De qualquer modo, ele ainda terá as redes sociais para manter-se vivo politicamente, mas não será a mesma coisa. Depois que Trump e Bolsonaro se elegeram usando como alavanca as redes sociais, em especial o WattsApp, relaxando os meios tradicionais de comunicação, o rádio, o jornal e a televisão perderam muito da sua força. Essa nova estratégia rem sido usada com sucesso por muita gente que praticamente saiu do anonimato para o poder, graças à penetração desse novo veículo que alcança o eleitor em qualquer parte e a qualquer momento. Aliás, se a esquerda quiser voltar ao poder terá, obrigatoriamente, de usar os mesmos recursos, inclusive para combater as fakenews em seu habitat. 

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