Tártaros atacados!

A intervenção militar na área de segurança no Rio de Janeiro é o resultado final de uma tragédia anunciada

A intervenção militar na área de segurança no Rio de Janeiro é o resultado final de uma tragédia anunciada
A intervenção militar na área de segurança no Rio de Janeiro é o resultado final de uma tragédia anunciada (Foto: Tarso Genro)

A intervenção militar na área de segurança no Rio de Janeiro é o resultado final de uma tragédia anunciada. Temer, o Presidente ilegítimo, erguido à condição de Chefe de Estado de um país que começava a aprender a resolver as suas controvérsias pelos métodos da democracia formal, envolveu as Forças Armadas numa aventura sem destino previsível, mas cujo desfecho carreará mais desilusão com a democracia e mais divisão num país já partido.

Se a intervenção der certo, fica comprovado que o regime democrático e a negociação política são inviáveis para resolver as crises de fundo, que o nosso país atravessa; se a intervenção der errado, Temer fica abrigado numa suposta inépcia das Forcas Armadas – para ações que elas não foram treinadas nem destinadas constitucionalmente – e reforça-se no poder, para usar métodos ainda mais autoritários, especialmente para promover as suas reformas.

Os últimos acontecimentos – exposição do alto grau de corrupção dos moralistas mais proféticos e dos golpistas mais convictos – aumentam a ilegitimidade do Governo atual e apenas mantém a simpatia dos comentaristas do oligopólio da mídia, que parecem dizer que "nada tem a ver" com a deterioração do Estado brasileiro, nem tem qualquer responsabilidade na deposição cada vez mais claramente ilegal da Presidenta Dilma.

A política gira em torno das decisões judiciais, a economia em torno das reformas liberal-rentistas e os programas sociais da Constituição de 88, estrangulados pela queda da arrecadação e pelo declínio econômico do país, desaparecem da vida dos mais pobres. Neste contexto, a intervenção militar, determinada pelo Presidente ilegítimo, apesar de varias advertências da caserna mais lúcida, apenas agrega mais um elemento de instabilidade política e tenta facilitar a vida de um Governo que já morreu.

Num romance escrito em 1940 o grande Dino Buzzati conta a história de um militar de carreira, Drogo, que encerrado numa fortaleza no deserto, próximo a um território supostamente tártaro, comanda seus homens numa espera eterna do ataque inimigo, que nunca vem. Na fortaleza, Drogo e seus homens curtem seus demônios e remoem as suas dúvidas existenciais, até que, quando o ataque está prestes a se realizar, Drogo é dispensado e morre solitário no caminho de volta à civilização.

No imaginário de Temer, que é o Drogo desta metáfora, os tártaros são os habitantes das comunidades pobres dos morros do Rio, não o percentual de marginais que ali habitam e que certamente não passam de uma diminuta minoria. Mas, ao contrário de Drogo, Temer resolveu atacar os tártaros, antes de ir para casa, na saída do seu mandato capenga: convocou tropas de guerra, não de segurança pública, para tentar resgatar seu mandato desastrado e de origem espúria. A diferença é que Drogo morreu no caminho e que Temer escolheu, antes, morrer para a História.

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