Tempo de crise

A defasagem entre a bolsa de valores e a economia real é a mesma defasagem entre o circo político midiático e o estado evolutivo das pessoas e da sociedade: defasagem que expressa a grande crise do mundo, que é justamente o não reconhecimento do real contemporâneo e suas rupturas – essa terá sido a maior traição dos intelectuais

Tempo de crise
Tempo de crise

Das minhas inúmeras idas ao Programa do Jô, sempre com o intuito de divulgar o lançamento dos meus discos, guardo de memória uma das primeiras vezes em que lá estive (não saberia precisar se foi a primeira ou a segunda entrevista), quando o inesquecível Jô me perguntou: o que você acha das baleias? Tivesse ele perguntado hoje, a resposta seria completamente diferente.

Em 2009, Michel Serres, no meio da grande crise financeira que passava o mundo (nessa época, o nosso país parecia imune a essas coisas), escreveu um textinho denominado "Tempo de Crise - o que a crise financeira trouxe à tona e como reinventar nossa vida e o futuro". Serres que estreou em livros com uma obra prima: "O sistema de Leibniz e seus modelos matemáticos".

Mas Serres constatava uma defasagem entre o cassino da bolsa de valores, e, do outro lado, a realidade do trabalho e dos bens. E essa defasagem contábil, segundo o autor, poderia contribuir para avaliar uma segunda defasagem observada: de um lado, o espetáculo midiático-político; e do outro, a nova condição humana.

Serres lista seis acontecimentos de grande envergadura, ocorridos entre os anos 60 e 70, que denunciavam uma mudança na configuração do mundo (a palavra "acontecimento" entendida como uma novidade forte, proporcional à duração da era anterior, que vem a ser concluída por tal acontecimento). E o primeiro deles se refere à agricultura. Entre os referidos anos, o período neolítico chega ao fim: em países semelhantes à França, isto é, do primeiro mundo, as populações agrárias caem de 50% do total para 2%. Paralelamente, estudos demográficos informam que se, nos anos 2000, 50% da população mundial vivia nas grandes cidades, em 2030 esse número aumentará para 75% . E esse é o primeiro choque: a maneira de pensar o mundo se transforma completamente, passando a ser da perspectiva das cidades. Tudo se torna político, do grego polis, cidade. Pensando a oposição entre mundo e cidade, o segundo choque é o mundo se vingando e ameaçando os homens – quando nada mais é político.

O segundo grande acontecimento se dá nos transportes, com o impressionante aumento da mobilidade entre as pessoas. Entre os anos 1800 e 2010, aumentou em 1000 vezes a referida mobilidade, sendo que, no transporte aéreo, em 2008, atinge-se a marca de 3 trilhões de quilômetros-passageiros. Em 2006, um terço da humanidade transportou-se de avião. Esse aumento da mobilidade que se dá via transportes, muda um processo que perdurava desde o surgimento do Sapiens, daí a sua força. Mas sofre uma contra-ofensiva: esses deslocamentos expõem o sistema imunológico dos seres humanos a pandemias às quais talvez não saibamos mais um dia como responder.

O terceiro grande acontecimento diz respeito à saúde. Depois da segunda grande guerra, com o surgimento da penicilina, do antibiótico, dos antálgicos, dos analgésicos e dos anestésicos, desapareceu a dor, ou a forma como os seres humanos se relacionavam com ela. E esse fato muda uma perspectiva de milhares de anos, ultrapassando a história em direção à pré-história. Todo avanço da medicina, interferindo, inclusive, nos exames clínicos, levaram os médicos a uma intermediação tecnológica, que o afastaram do exame do mundo, cada vez mais ignorado. Antigamente, as existências nos incitavam a exercícios que permitiam suportar a dor, essa inevitável companheira de toda a vida. Fugir dela através da indústria farmacêutica passa a ser uma nova forma de afastamento do mundo. E isso sofrerá uma contra ofensiva.

O quarto acontecimento é demográfico, em virtude do próprio desenvolvimento médico: com a queda da mortalidade infantil e com o aumento da expectativa de vida (nos países ricos chega a ser de 3 a 6 meses por ano), o crescimento populacional teve o seu apogeu nos anos 68-69, chegando a 6 bilhões de habitantes, e tendendo à marca dos 7 bilhões. Essa nova mudança, que transforma uma perspectiva que perdurava desde a pré-história, provoca mudanças em conceitos como o casamento e a própria guerra: quando a expectativa de vida é pequena, jurar fidelidade eterna e entregar sua vida à pátria, não é nenhum bicho de sete cabeças, muito pelo contrário, é motivo de orgulho. Talvez então possamos entender essas mudanças de conceito como uma espécie de vingança do mundo. Afinal, uma das forças aristocráticas, a força militar, é posta em questão.

O quinto acontecimento são as conexões, que vão interferir no saber, no espaço e no campo da influência.

Em relação ao saber, ao contrário das teses universitárias de história ou filosofia, nas quais o erudito repetia pesadamente, sobre determinado assunto, toda a documentação possível, exibindo-a para mostrar sua obstinada perícia, um clique é suficiente para exibir toda a documentação. Com isso, há um dilúvio de detalhes que se contrapõe à razão abstrata.

Em relação ao espaço, não se trata mais de um espaço euclidiano ou cartesiano, em que o endereço era compreendido como referências de distância, o que era derivado do direito e do rei: o policial se apresentava em um domicílio no caso de crime, ou de não pagamento de imposto ou por ausência de serviço militar. As conexões (os códigos de celular são um exemplo) produziram o espaço de vizinhança – o espaço passa a ser de caráter topológico: não se reduzem as distâncias, mas as casas são transportadas para um espaço diferente.

Por fim, a questão das influências, que deixam de estar ligadas, necessariamente, a posições de hierarquia social – uma estrela, um político, um escritor de renome. Um vídeo na internet, produzido por um anônimo, pode conter mais visualizações do que os votos de todos os pleitos somados de um determinado político de renome. Não é difícil entender a crítica que jornalistas, estrelas midiáticas e escritores efetuam aos blogs e redes sociais. É justamente em razão da mudança empreendida pelas conexões, dando margem inclusive a vingança do mundo, que será taxada de ódio, nazismo, quando não for processada judicialmente por estrelas narcisistas.

O sexto e último acontecimento listado por Serres diz respeito aos conflitos. A bomba atômica torna-se o primeiro objeto-mundo, já que uma de suas dimensões é compatível com uma das dimensões físicas do mundo. Se antes de segunda grande guerra, a gripe espanhola ganhava de todos os conflitos no tocante a quantidade de óbitos, a partir desse momento inverte-se o processo e nos tornamos mais capazes que a natureza: os homens se tornaram mais perigosos para os homens que o mundo. Essa vitória da razão, da ciência, da tecnologia, no entanto, apresenta uma estranha crise, que pode ser entendida como a vingança do mundo: a hiper potência, cada vez mais rica, cada vez mais forte militarmente, não conseguiu até hoje vencer uma guerra com um dos países mais fracos do planeta. Essa estranha crise da potência, talvez nos indique o encerramento do reinado exclusivo da economia: esta, por ter separado os seres humanos em classes sociais, faz com que a guerra, conduzida em função de uma técnica, protetora das vidas que a ativam, possa ser perdida diante de uma fraqueza numerosa que não conta suas perdas em vidas. Em outras palavras, a demografia dos miseráveis poderá levar a melhor sobre a potência termonuclear, ainda que essa vitória possa também levar ao fim do planeta.

Serres sublinha, na verdade, a crise das instituições, que desde o indo-europeu, era revezada entre a religião, o exército e a economia, essas três grandes aristocracias. Se na era das luzes a aristocracia religiosa vive o seu fim, após a matança da segunda grande guerra será a aristocracia militar que vai sofrer sua baixa, ao ponto de não conseguir ganhar uma guerra considerada fácil de vencer contra fracos e pequenos. A terceira derrocada das instituições, que vivemos atualmente, é a política do pão e circo (banco e televisão), que levou Roma Antiga à decadência. É quando as instituições, de tão envelhecidas, se refugiam na droga do espetáculo.

A saída estaria no abandono da velha política baseada na dialética (mundo X homens; ciência X sociedade; biólogos X juristas; cientistas X militares), que, inclusive, fundamenta a lógica do espetáculo: "quem vai ganhar?" - pergunta do toxicômano, embriagado pelo espetáculo, diante da expectativa de um resultado que todo mundo conhece antecipadamente: quem ganha é sempre o mais rico. À filosofia hegeliana do conflito entre senhor X escravo, Serres contrapõe um quadro de Goya, comentado no seu livro "Contrato Natural": "A cada golpe desferido, os combatentes afundam cada vez mais nas areias movediças. Joelhos, coxas, quadris, ombros... e a boca, amordaçada por uma pêra da angústia, vai tentar cheia de areia pedir socorro... Naturalmente, nenhum dos dois conseguirá salvar-se da densidade rígida do afundamento".

A inclusão desse terceiro elemento (Hegel, afastado do mundo, esquece de mencionar onde se desenrola o conflito), que Serres chama de Biogéia, o mundo dos elementos e dos seres vivos, mundo inclusivo, em que os homens dependem das coisas do mundo e estas dos homens, vai ser a característica da era do antropoceno. Aqui predominam as técnicas suaves, atos em escala informática, que, em outras épocas propiciaram a revolução da escrita e da imprensa: ao invés de bombas nucleares, traços, marcas, signos, códigos, sentido – conjunto de conhecimentos, tecnologias e práticas relacionados mais à partilha do que à vontade de poder, propiciando, de fato, a revolução dos comportamentos, das instituições e do Poder.

O acesso universal aos dados e a intervenção livre, participando de decisões, sugerem uma espécie de igualdade, que a aristocracia vai sempre resistir. O que fundamenta o Poder é possuir uma informação não interativa e assimétrica – é a retenção da informação que está na base da hierarquia. A defasagem entre a bolsa de valores e a economia real é a mesma defasagem entre o circo político midiático e o estado evolutivo das pessoas e da sociedade: defasagem que expressa a grande crise do mundo, que é justamente o não reconhecimento do real contemporâneo e suas rupturas – essa terá sido a maior traição dos intelectuais.

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