Opinião

Teoria CRIP: 48 mil escolas sem acessibilidade e a mentira da inclusão

Teoria CRIP e 48 mil escolas sem acessibilidade expõem a mentira da inclusão e os limites das políticas inclusivas no Brasil

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Você já parou para pensar como funciona a inclusão de corpos com deficiência no campo LGBTQIA+? Será que estamos, de fato, ampliando o que uma sociedade reconhece como vida legítima, ou apenas alargando as bordas de uma norma que segue intacta no centro? Essa pergunta não é retórica e tem consequências diretas sobre como pensamos política pública, currículo escolar e produção acadêmica, e é o que me leva a insistir na diferença entre a perspectiva inclusiva e a teoria CRIP, a partir da qual construo minha pesquisa.

Os números ajudam a dimensionar o que estamos falando. Os dados oficiais mais recentes do IBGE apontam que o Brasil possui 14,4 milhões de pessoas com deficiência, o equivalente a 7,3% da população com dois anos ou mais. Desse total, 2,4 milhões de pessoas possuem diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista. O índice de analfabetismo entre pessoas com deficiência atinge a marca de 20%, e quase 48 mil escolas brasileiras não possuem os itens básicos de acessibilidade. São números que já bastariam para expor um país que trata a deficiência como exceção a ser tolerada, não como parte constitutiva de sua própria diversidade. Mas há uma lacuna ainda mais grave: estatísticas sobre o cruzamento entre deficiência e população LGBTQIA+ no Brasil são escassas em pesquisas governamentais. Os poucos estudos disponíveis apontam para uma dupla vulnerabilidade, mas a ausência de dados sistemáticos é, ela mesma, um sintoma político. O que não é contado não entra no cálculo de nenhuma política pública. O corpo travesti, trans ou intersexo com deficiência é, nesse sentido, duplamente invisibilizado pelo Estado, primeiro como corpo dissidente de gênero, depois como corpo fora da curva da capacidade.

É diante desse cenário que a diferença entre inclusão e teoria CRIP deixa de ser um debate de gabinete e se torna uma questão de sobrevivência epistêmica. A perspectiva inclusiva tem uma genealogia respeitável. Vem do modelo social da deficiência, da ideia de que não é o corpo que é deficiente, mas a sociedade que o incapacita ao não prever rampas, intérpretes, formatos acessíveis. É um avanço enorme frente ao modelo médico que patologizava o corpo como erro a ser corrigido. Mas há um limite estrutural nessa perspectiva que raramente se discute: a inclusão pergunta como encaixar o corpo diferente dentro de estruturas que permanecem intactas. A escola, o mercado e a cidadania seguem definidos pela norma; o que se amplia é a porta de entrada, não o edifício. O corpo dissidente é acomodado, nunca é ele quem redesenha a planta.

A teoria CRIP nasce de outro gesto. Robert McRuer, em Crip Theory: Cultural Signs of Queerness and Disability (2006), constrói o conceito de compulsory able-bodiedness em diálogo direto com a noção de compulsory heterosexuality que Adrienne Rich formulou décadas antes para pensar a heterossexualidade não como orientação natural, mas como regime imposto. McRuer faz o mesmo movimento com a capacidade corporal: não existe corpo “normal” por natureza, existe um regime de capacitismo compulsório que produz a ficção de que certos corpos são a regra e outros são o desvio a ser gerenciado. CRIP, nesse sentido, não é uma identidade que se pede para ser incluída no inventário da diversidade. É uma posição crítica que se recusa a validar o próprio inventário.

É aqui que a diferença fica didática. Quando a inclusão pergunta “como trazemos esse corpo para dentro”, ela já pressupõe um dentro estável, uma norma que segue de pé, generosamente estendendo a mão. A teoria CRIP, em aliança com a teoria queer, pergunta outra coisa: por que esse dentro existe, e à custa de quem ele se sustenta. Essa segunda pergunta é desconfortável de um jeito que a primeira nunca é. Inclusão tranquiliza a norma. CRIP a desestabiliza.

Escrevo isso a partir do lugar teórico que venho construindo há anos, e talvez seja útil nomear onde essas duas tradições se encontram no meu trabalho. Chamo de prolepCIS o mecanismo pelo qual a norma cisgênera antecipa, antes mesmo do encontro com o corpo real, o que vai contar como corpo legível, corpo integrável, corpo que “pode” ser incluído. É exatamente essa antecipação normativa que opera por trás de muitas políticas de inclusão bem-intencionadas: elas decidem de antemão os termos da entrada, e o corpo travesti, trans e intersexo com deficiência só é aceito na medida em que se ajusta a esses termos previamente calculados. Os 48 mil prédios escolares sem acessibilidade não são uma falha técnica, são prolepCIS materializado em concreto: a escola já decidiu, antes de qualquer corpo entrar, quem cabe nela.

A paralaxe trans, outro conceito que venho desenvolvendo, desloca esse ponto de observação. Não se trata de olhar o corpo dissidente a partir do centro normativo e negociar sua entrada, mas de mudar o próprio lugar de onde se olha e perceber que o centro nunca foi neutro, nunca foi natural, foi sempre construído contra alguém. Corpos travestis e trans com deficiência não pedem um assento na mesa da diversidade. Eles expõem que a mesa foi montada descartando, de saída, certas formas de existir — o que tenho chamado de subjetividade descartável, e que encontra eco direto no gesto teórico de McRuer.

Há ainda uma camada que considero central e que raramente aparece nos debates sobre acessibilidade: o arquivo. Corpos que a norma trata como descartáveis também são corpos cujas histórias e produções intelectuais correm risco constante de apagamento, inclusive estatístico, como mostra a ausência de dados oficiais sobre a interseção entre deficiência e população LGBTQIA+. Por isso insisto na ideia de arqui(vi)vo vivo, um arquivo que resiste precisamente por recusar a passividade do que já está morto e catalogado e segue produzindo, contestando, se impondo como presença política, não como peça de museu da diversidade.

Fica, então, a pergunta mais ampla que abriu este texto. O que muda, na prática pedagógica e na prática política, quando paramos de perguntar como incluir e passamos a perguntar o que essa norma precisou excluir para poder existir como norma, inclusive na forma de silêncio estatístico? Essa é a pergunta que a teoria CRIP, lida a partir de McRuer e atravessada pelas experiências travestis e trans com deficiência, nos obriga a fazer. Não tenho uma resposta fechada para oferecer. Tenho, isso sim, a convicção de que continuar perguntando “como incluir” é permanecer, sempre, do lado de dentro da mesma casa.

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Cortes 247

Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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