Trump e sua arte não tão secreta de contenção da China

Não se pode dizer que fosse segredo durante o governo Trump. Agora, com as cinzas já quase frias e com um mínimo de estardalhaço, vem a desclassificação do Quadro Estratégico dos Estados Unidos para o Indo-Pacífico. Por que logo agora?

(Foto: Reprodução | Reuters)
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Por Pepe Escobar, para o Asia Times

Tradução de Patricia Zimbres, para o 247

Não se pode dizer que fosse segredo durante o governo Trump. Agora, com as cinzas já quase frias e com um mínimo de estardalhaço, vem a desclassificação - de praticamente todo o documento, com a exceção de uns poucos trechos - do Quadro Estratégico dos Estados Unidos para o Indo-Pacífico.

Por que logo agora, nada menos que trinta anos antes do que o determinado pelos protocolos geralmente utilizados na desclassificação de documentos públicos? Não espere uma resposta de Trump nem de seu Consultor de Segurança Nacional, Robert O'Brien.

O argumento de O'Brien ao apresentar a desclassificação foi que "Pequim vem, cada vez mais, pressionando as nações do Indo-Pacífico a subordinarem sua liberdade e soberania a um 'destino comum' imaginado pelo Partido Comunista Chinês".

Isso é bobagem em múltiplos níveis. A melhor tradução do mandarim para o inglês da grande estratégia da China é "uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade" - uma intersecção de Confúcio e Marx baseada na conectividade comercial e no desenvolvimento sustentado.

País nenhum é pressionado a abrir mão de sua "liberdade e soberania" para se juntar à Iniciativa Cinturão e Rota (ICR). Trata-se de uma decisão voluntária - de outra forma, 130 países não teriam se interessado em participar, inclusive vários países europeus. A estratégia não é ideológica, ela tem como base o comércio. Além do mais, a China já é o maior parceiro comercial da imensa maioria desses países.

Pequim está tremendo?

Desde 2018 temos pleno conhecimento dos contornos básicos da "orientação estratégica ampla" do governo Trump para o Indo-Pacífico.

Esses são os cinco principais itens - sem suavização eufemística: 

  • Manter o poder sacrossanto da "primazia" americana, o que é linguagem-código para poderio militar incontestado;
  • Promover o Quad (Estados Unidos, Japão, Índia e Austrália);
  • Dar total apoio à ( fracassada)  revolução colorida de Hong Kong;
  • Demonizar tudo o que tiver ligação com a ICR;
  • Investir na "ascensão" da Índia.

Na frente militar, tudo fica ainda mais complicado: o imperativo é evitar, por qualquer meio que se mostrar necessário, que Pequim "domine a primeira fieira de ilhas", ou seja o anel de ilhas que vai do arquipélago japonês a Taiwan, chegando até o norte das Filipinas e Bornéu. Além do mais, a "primazia" deve ser mantida na "área adjacente".

Aqui também o que está em questão é a contenção naval.

É óbvio que os estrategistas chineses estudaram a fundo Mahan e Spykman - e entenderam que a Marinha dos Estados Unidos acabaria por jogar seu trunfo de um embargo naval.

Daí a Estratégia do Grande Interior (Heartland) chinesa para conter a Estratégia das Bordas (Rimland) dos Estados Unidos: dutos da Rússia e da Ásia Central (cadeia de fornecimento de energia) e ICR (comércio). Uma boa combinação de "fuga de Malaca" (em termos de fornecimento de petróleo e gás) e conectividade por via terrestre.

Um exemplo claro é a importância do setor sul do Corredor Econômico China-Paquistão (CECP). No longo prazo, isso oferecerá a Pequim, via porto de Gwaadar, um excelente acesso ao Oceano Índico, contornando Malaca. Isso pode ainda ser reforçado pelos investimentos chineses que acontecerão em um futuro próximo no porto vizinho de Chabahar, no Irã, no Golfo de Omã.

Por outro lado, os estrategistas dos Estados Unidos que assessoram o governo Trump, além de nada acrescentarem quanto a Mahan e Spykman, ignoraram por completo o avanço econômico chinês por toda a Eurásia. Eles ignoraram o fato de que muitos de países, da Ásia Central ao Sul e o Sudeste Asiáticos (os 10 da ASEAN) não sacrificariam suas relações de comércio/investimentos em benefício de uma "visão" fabricada no Beltway de Washington.

A recente assinatura da Parceria Econômica Regional Ampla (RCEP, em inglês) praticamente enterrou a estratégia Indo-Pacífico.

Por não terem base na realidade, nada indica que as linhas centrais da estratégia Indo-Pacífico venham a mudar muito no governo Biden-Harris. Eles sofrerão ajustes do tipo "de volta ao futuro". O homem-chave para a China, no governo Biden-Harris será ninguém menos que Kurt Campbell, o homem que inventou o conceito do "pivotar para a Ásia", adotado em seguida por Hillary Clinton, como Secretária de Estado, e por Obama como Presidente. Campbell agora afirma que a ênfase na sacrossanta "primazia" talvez seja em algum grau amenizada.

Pequim estaria tremendo? De modo algum.

O 100º aniversário do Partido Comunista Chinês será no dia 23 de julho. Exatamente no dia anterior à desclassificação do Indo-Pacífico, o Presidente Xi Jinping esboçou sua visão - dele e do PCC - para nada menos que as três próximas décadas, culminando no 100º aniversário da República Popular da China, em 2049.

Aqui vão, resumidamente, as Três Prioridades de Xi.

  • Manter a calma e prosseguir, apesar dos efeitos devastadores da covid-19, da implacável hostilidade do Ocidente e em especial dos Estados Unidos, e das provações e tribulações do esfacelamento do Império Americano.
  • Focar o desenvolvimento interno em todas as áreas.
  • Focar as prioridades da China para que, aconteça o que acontecer, o mundo externo não seja capaz de intervir. Das prioridades da China constam a solidificação de sua própria "primazia" no Mar do Sul da China e, ao mesmo tempo, a diversificação das opções estratégicas de comércio-desenvolvimento ao longo de toda a BRI.

Contribuirá para tal o fato de que o PIB chinês certamente irá crescer quase 8% em 2021 - segundo estimativa do FMI/Banco Mundial. Por mais espantoso que seja, se assim for, o PIB, ao final deste ano, terá alcançado o mesmo nível que as previsões ocidentais pré-covid apontavam em fins de 2019: um crescimento de 5% anual nos dois próximos anos. A China pode ter crescido cerca de 2% em 2020, incluindo seu florescente comércio exterior.

A Goldman Sachs vem chamando o atual ambiente econômico de "o fenômeno chinês". A China continua sendo a locomotiva de alta-velocidade do capitalismo global. É fácil notar para que lado dezenas de países veem o vento soprando quando elas comparam toda essa situação àquilo que acaba de ser desclassificado.

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