Um abril, dois, três, quatro... e suas marcas (Parte I)

"Uma parte da minha maneira de resistir vem da memória daquele 25 de abril de 2019 em Lisboa, graças à Ines e aos meus amigos e amigas de lá.Só espero que ele, o nosso Genocida e seus asseclas, tenham um final mais digno que o daquele outro Genocida, no 28 de abril de 1945, lá na Itália", escreve Eric Nepomuceno

(Foto: Reuters)
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Há tempos não me sai da cabeça um poema de beleza estarrecedora escrito por T.S.Elliot há um século e publicado em dezembro de 1922: The waste land. A Terra devastada.         

Lá pelas tantas, diz o poema, que começa afirmando que “Abril é o mais cruel dos meses”: E as árvores mortas já não te abrigam, nem te consola o canto dos grilos. Pois este abril que vai chegando ao fim traz marcas profundas. Uma delas é de indignação tremenda, de revolta candente. Outra, de memória, celebração e esperança. E duas especialmente dolorosas para mim, feridas sem cura nem cicatriz.Ah, e outra mais, essencialmente histórica, mas que nos tempos em que nos afundamos no lodaçal em que o Genocida e seus asseclas transformaram este país despedaçado vale seu registro.         

 Começo então por esse registro histórico: foi num 25 de abril, o de 1945, que explodiu na Itália a rebelião final que liquidou o fascismo de Benito Mussolini. Os partigiani se lançaram na operação final que foi indo e espalhou-se de Milão a Bolonha, de Veneza a Gênova, e declararam a insurreição final e a pena de morte dos generais fascistas.         

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Três dias mais tarde, 28 de abril de 1945, Mussolini era executado sumariamente quando tentava fugir para a Suíça com a amante.

A foto de seus cadáveres, dele e dela, dependurados numa forca num posto de gasolina – de cabeça para baixo –, depois de terem sido linchados pela multidão, deveria servir de alerta para todos os genocidas que foram aparecendo mundo afora.

Bem, esse o registro histórico.

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Mas há outro, e também de um 25 de abril, mais próximo, e do qual tenho recordações nítidas: o de 1974, da Revolução dos Cravos, em Portugal.

Lembro que morava em Buenos Aires, num tempo sem internet nem televisão direta nem nada, quando Eduardo Galeano telefonou dizendo que havia fortes rumores do fim do Salazarismo e mais: um golpe de militares progressistas. 

Vale recordar que tanto no país dele, como no meu, havia ditaduras sanguinolentas, e que vivíamos no exilio.

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Pois celebro todos os anos, na alma e em silêncio, aquele 25 de abril que nos encheu de esperança.

De longe, mas com uma única exceção: em 2019, quando se cumpriram 45 anos, fui, a convite da minha querida amiga Ines de Medeiros, a Portugal. 

Lembro da meia-noite de 24 de abril, em Almada, a cidade que fica em frente a Lisboa, do lado de lá do Tejo, uma espécie de Niterói com relação ao Rio. Havia festa na praça, e à meia-noite, todos tivemos uma visão fabulosa do foguetório em Lisboa.

Na tarde daquele 25 de abril dos 45 anos do fim do salazarismo português, fui para Lisboa.

Combinei com amigos de nos encontrarmos a certa altura da avenida da Liberdade, por onde haveria o desfile multitudinário de celebração, como a cada 25 de abril, reunindo centenas de milhares de pessoas. 

O obvio seria eu apanhar um táxi e chegar o mais próximo possível do ponto de encontro, e então caminhar até lá. 

Fiz o contrário: subi a avenida caminhando na direção contrária à multidão. Queria ver os rostos, ler as faixas e cartazes, ouvir todos os cantos. E me empapar de alegria. 

Lembro que me surpreendi com a quantidade de cartazes com versos de Chico Buarque. E não, não eram grupos de brasileiros: eram portugueses. 

Não pude voltar para Lisboa, para meus amigos e amigas lusitanas. Se algum, alguma, passar por aqui, pois que receba e distribua meu afeto e a memória plena da alegria daquele 25 de abril de 2019.

Ainda não havia pandemia, mas havia o psicopata desequilibrado começando a destruir o meu país. O país da nossa gente.

No final daquele ano de breu, comecei a programar outra estadia em Portugal. Mas aí, veio a pandemia. E, com ela, o psicopata totalmente boçal se revelou Genocida. 

Uma parte da minha maneira de resistir vem da memória daquele 25 de abril de 2019 em Lisboa, graças à Ines e aos meus amigos e amigas de lá.

Só espero que ele, o nosso Genocida e seus asseclas, tenham um final mais digno que o daquele outro Genocida, no 28 de abril de 1945, lá na Itália.

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