Um fio desencapado para um curto-circuito de gestão

O neoliberalismo bate na tecla de que a atual política econômica está superada, pois o Salário Mínimo e o pleno emprego são fatores inflacionários. Vejam bem...

Aécio Neves segue estacionado, escorregando nas explicações esfarrapadas sobre o aeroporto que autorizou a construir na fazenda de seu tio, um belo exemplo do "choque de infraestrutura" que prometeu dar no país caso fosse eleito, no debate promovido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). Aliás, não falta choque na boca do tucano, embora siga ausente um plano de governo que diga a verdade ao povo: no que consistem as suas tais "medidas impopulares". Eu, que lutei contra o neoliberalismo nas ruas, nos anos 90, sei muito bem o significado. Mas Aécio é isso, um fio desencapado da história à espera de "água" para torrar o Brasil, alento que vai ficando cada vez mais distante com a situação de São Paulo. Não exatamente a da Cantareira, mas do vale-tudo a que Geraldo Alckmin tem se dedicado para manter a jóia de Fernão Mesquita e do séquito de quinhentistas derrotados pelo povo.

Quando o assunto é gestão, Aécio é a incoerência em pessoa.

No mesmo debate na CNI, voltou a dizer que reduzirá pela metade o número de ministérios e um terço dos cargos comissionados, mas  não tem coragem de dizer que seu alvo é a Secretaria de Direitos Humanos, a de Políticas para as Mulheres, a de Promoção da Igualdade Racial, a do Desenvolvimento Social, a Secretaria dos Portos ou a de Aviação Civil. Quer dizer, nos dois últimos casos, até veio com uma confissão ao prometer um "ministério da infraestrutura", que o mestre José Augusto Valente já denunciou como fraude, seja pela complexidade-imensidão do tema, seja pela curta experiência no governo Collor ter dado errado, mostrando um candidato errante e atrasado, crente em soluções miraculosas de que um ministério dá conta de um tema intrínseco ao próprio desenvolvimento nacional (como o é também o do desenvolvimento regional, por exemplo). Logo ele, tão descrente na máquina pública e na mão visível do Estado! Ele não gosta é do PAC, que já concluiu 95,5% das ações previstas para 2011-2014 e executou 84,6% dos recursos previstos até o final deste ano. O PAC puxa a economia, hoje, já mais do que o consumo, tem que parar já! Pelo amor de Deus!

Ele também não tem coragem de dizer, quando fala em reduzir os cargos comissionados ou em "desburocratização", que foi o próprio e seus herdeiros a legarem para Minas a vergonha de receber uma ordem do Supremo Tribunal Federal (STF) para demitir mais de 90 mil funcionários que ganharam status de servidor sem terem sido aprovados em concursos. E lá  não existe lei que obrigue que 2/3 dos comissionados sejam de carreira, como fez o ex-presidente Lula. Lá reinava a precariedade, a "quemindicocracia" a burocratizar um estado. Eficiência para boi dormir. Ou não, como diria Caetano, já que Minas é o segundo estado brasileiro mais endividado do país. E Anastasia, segundo ele, é "o mais eficiente gestor público" do Brasil! Ideia até óbvia para quem é inspirado, já nos alertou Agripino, em FHC.

Aécio, ao falar no seu "choque de infraestrutura" pelas mãos de uma "parceria com o setor privado e a partir da atração de capital interno e investimentos estrangeiros", esqueceu-se do papel do BNDES como financiador de massivos investimentos na área e de que somos recordistas na atração do Investimento Estrangeiro Direto (IED). Aécio, sobretudo, esqueceu que é uma piada num segundo prometer reduzir ministérios e, imediatamente em outro, fazer juras acerca da criação de uma agência comercial ligada à presidência da república! E é muita crença no "intervencionismo" (sic)! Além, claro, de ser uma completa bobagem para quem conhece o Estado brasileiro e a economia nacional dos dias de hoje. O desenvolvimento é transversal, expliquem a ele!

Na sabatina, o tucano, ao se comprometer em construir uma agenda comercial “não ideológica como é hoje”, põe na mesa duas verdades que escamoteia: não tem projeto nacional e debocha das urnas. Sim, porque desde a eleição do presidente Lula, os grandes projetos tem como pano de fundo um projeto político, escolhido claramente por milhões de cidadãos. Exemplos:

• CadÚnico/Busca Ativa/Programa Bolsa Família: identificar o público-alvo (população de baixa renda) e “ir atrás” dele para crescer reduzindo as desigualdades;

• PAC/RDC: incrementar a infraestrutura do país, destravando a execução e os investimentos;

• Modernizações na Previdência: garantir direitos e expandir um instrumento estratégico de desenvolvimento social e regional pela distribuição de renda;

• Inovações metodológicas no Plano Plurianual: fazer a administração federal operar para alcançar objetivos e metas nacionais e, por outro lado, facilitar o controle social.

• ProUni, Cotas no serviço público: transformar, democratizando, a composição de instituições estratégicas da sociedade brasileira.

A outra omissão diz respeito à vontade de retecnocratizar o Estado e fazê-lo um poleiro de falcões do sistema financeiro a governar "tecnicamente", buscando também iludir uns servidores públicos que pensam ser a personalização da república.

De novo, ele traz o mimimi das agências reguladoras: “O resgate das agências reguladoras parece urgente e possível de ser enfrentado nos primeiros dias de governo.” Oras, como se não tivéssemos vivido um período vigoroso de regulação de serviços no país, desde os planos de saúde até a aviação civil. O que ele quer dizer é outra coisa: privatizar, privatizar e privatizar, com um escritoriozinho para se virar "fiscalizando", como aquele sinistro aumento das tarifas de luz em Minas, quando tentou culpar a Aneel e por ela foi desmoralizado, em informe publicitário esclarecedor ao povo das Alterosas!

A sanha autoritária dos tucanos é imensa, não se enganem! Basta ver que o ex-presidente FHC declarou sobre o decreto da presidenta Dilma que criou a Política e o Sistema Nacional de Participação Social: "previnem-se ameaçando com propostas sobre criação de "governo paralelo (...)Vejo fantasmas? Pode ser, mas é melhor cuidar do que não lhes dar atenção"(...)a democracia é como uma planta tenra que tem de ser cuidada e regada todos os dias". Foi este mesmo que quis enquadrar o MST na Lei de Segurança Nacional, nos anos 2000! É o mesmo que gostaria de ver a “autonomia” do Banco Central. Autonomia contra quem? Contra as urnas e o presidente eleito? Contra o Congresso Nacional? Contra o emprego e a renda pela pressão da Standard & Poors? Ou pelo Santander?

A questão central posta, embora diversos temas mereçam ser cuidadosamente explicados, como fiz questão de fazê-lo ao churrasqueiro de uma festa  neste fim-de-semana (e proponho que todos o façam nos táxis, trabalho, ônibus, padarias, balcões...) é o emprego e o salário. O neoliberalismo bate na tecla de que a atual política econômica está superada, pois o Salário Mínimo e o pleno emprego são fatores inflacionários. Vejam bem...

Para estes, já disse a presidenta Dilma em sei pronunciamento de Primeiro de Maio, é movida nossa gestão em primeira e última instância. Ou como disse um dia desses Lula: "É muito fácil controlar a inflação demitindo trabalhadores e arrochando salários". E xeque-mate: "Enquanto o mundo destruiu mais de 60 milhões de vagas desde a crise de 2008, o Brasil criou 10 milhões de empregos".

A oposição sabe disso. Não à toa, Fernando Rodrigues suplica que Aécio encontre o seu "Plano Real". Só que aí é muito querer repetir a história enquanto farsa. O Real foi obra de um meticuloso acordo com o sistema financeiro para a abertura comercial desastrosa vivida pelo Brasil, que quase nos transformou numa República de bananas, primário-exportadora, e que, sim deu certo, mas não por obra do PSDB, mas pelas políticas sociais, de infraestrutura, de emprego que Lula começou a desenvolver. Em 2002, a inflação estava longe da meta, os juros galopantes (em dois dígitos!), o desemprego recorde, a fome nem se fala. Sem falar em quando toda esta história de desindustrialização começou... 

Edmar Bacha, guru do presidenciável Aécio Neves e integrante da equipe responsável pelo Real, sabe disso e o deixou claro quando respondeu à imprensa comercial: “A gente conseguiu controlar a inflação, mas não conseguimos ter uma estratégia econômica que permitisse colocar o país no Primeiro Mundo”. Sim, como consequência do que plantamos, nós estamos perseguindo este rumo e já temos fundo e banco dos BRICS para mostrar. Mas, sorry, não será nada de "desenvolvimento dependente".

Então, não tem nada de fadiga contra Dilma, tem que travar é a disputa e, no tempo de TV obrigatório para a velha mídia, assim como A Voz do Brasil, terão de engolir um show do choque de inclusão social de novo.

E por falar em gestão, convido os leitores a conhecerem o Núcleo Petista Celso Daniel de Administração Pública, que realizará seu primeiro seminário nacional nos próximos dias 08 e 09 de agosto, na sede do Diretório Nacional do PT em Brasília, para aprovar sua Plataforma Eleitoral 2014 (leia mais aqui http://nucleocelsodanielpt.wix.com/inicial#!Ncleo-Celso-Daniel-convida-para-seu-I-Seminrio-Nacional/c8ol/C571BB07-EDF4-4278-890A-DD829D0305A9).

Como diz o convite-geral da atividade, "A batalha será dura e temos a convicção de que o tema da gestão pública não é um assunto de gabinetes. Ele pode e deve estar no centro da disputa ideológica, já que é preciso fazer o povo reconhecer, cada vez mais, a importância do Estado indutor do crescimento e financiador da proteção social, forjando uma sociedade que defenda intransigentemente os bens e serviços públicos e o Estado porque ferramentas indispensáveis de sua nova condição".

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