Um infiltrado na multidão dos patriotas

Crônica de um infiltrado de esquerda nas manifestações “patrióticas”

www.brasil247.com - Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro na rodovia Castelo Branco, em Barueri (SP) 02/11/2022
Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro na rodovia Castelo Branco, em Barueri (SP) 02/11/2022 (Foto: REUTERS/Amanda Perobelli/File Photo)


Fidel Carlos era um comunista nato. O seu nome de batismo já era uma homenagem que o pai, seu Ivo, um advogado criminalista muito respeitado na baixada fluminense, havia feito ao grande líder político cubano. Carioca, nascido no subúrbio da cidade e portador da peculiar gaiatice e do humor sagaz que caracteriza a personalidade dos seus conterrâneos, Fidel decidiu que se disfarçaria de bolsonarista por um dia e acompanharia de perto as manifestações contra a vitória de Lula e a favor de uma intervenção militar. Camisa da seleção brasileira no corpo, óculos escuros na cara e uma bandeira do Brasil nas mãos, lá ia ele, aproveitando-se da sua boa pinta de patriota, um misto de banqueiro do jogo do bicho e sargento do Exército, em busca de aventuras naquele mundo paralelo que, até então, ele só via pela TV.

Logo ao chegar à manifestação, que acontecia em frente à sede do Comando Militar do Leste, bem ao lado da Central do Brasil, ele ouve uma estrondosa e estranha comemoração. Curioso para saber do que se tratava, ele se aproxima de um sujeito vestido de Napoleão Bonaparte e que estava envolto em uma bandeira de Israel e lhe questiona:

- Qual o motivo da comemoração, meu caro patriota?

- As forças armadas acabaram de determinar a prisão em flagrante do ministro cabeça de ovo do STF, por fraudar as eleições e favorecer o comunista do PT. Selva! 

Perplexo com que acabara de ouvir e contendo o riso para não ter a sua identidade revelada, Fidel limitou-se a responder:

- Grande dia! Selva!

- Agora é esperar a corte marcial dos USA determinar a sua extradição como prisioneiro de guerra; completou o homem que pontuava todas as frases com um frenético: “Selva! ”

Fidel quis saber mais detalhes sobre a operação e o translado do odiado ministro:

- Ele será julgado nos USA?

-  Sim. O presidente Donald Trump também quer a cabeça de ovo dele numa bandeja. Selva!

Fidel pensou em alertar o sujeito de que o atual presidente dos USA era Joe Biden, mas percebeu que seria em vão e preferiu seguir alimentando a fantasia daquele idiota, digo, patriota:

- Que maravilha! Com o Trump na jogada ele não escapa. Vamos fuzilar todos esses comunistas da Ursal e do Foro de São João.

Foi corrigido pelo sujeito:

- É Foro de São Pedro, amigo! 

Mas manteve a sanidade própria para o momento:

- São João, São Pedro, São Antônio, não importa. Todos eram comunistas e organizavam quadrilhas disfarçadas de festas juninas com o dinheiro da lei Rouanet.  

Conquistou o sujeito que logo quis saber o seu nome:

- Qual a sua graça, nobre patriota?

- Olavo Carlos. Uma homenagem do meu pai ao grande professor Olavo de Carvalho.

O sujeito foi ao delírio e prestou-lhe continências:

- Prazer, Olavo! Eu sou o Estefânio. Uma honra ter um patriota com o seu nome ao meu lado nessa batalha contra as forças do mal lideradas por Che Guevara e Mao Tse Tung.

Fidel retribui a continência e emendou:

- Intervenção Militar, já!

Enquanto seguiam a troca de gentilezas, outra explosão de alegria tomava conta da multidão patriota presente ao local

- O que foi agora? – Perguntou Fidel

Uma senhora com uma blusa escrita “Deus fez Adão e Eva. E não Adão e Ivo” e que segurava uma bandeira do movimento integralista brasileiro, se apressou em responder:

- Parece que prenderam o professor esquerdista Paulo Freire. Aquele que estava ensinando ideologia de gênero nas escolas.

Estefânio já não conseguia conter a sua felicidade com a notícia, quando a confirmação da prisão do educador veio através do caminhão de som dos manifestantes:

- Atenção, pessoal! Cumprindo um mandado de prisão expedido pelo senhor Herculano Quintanilha dos Santos Silva, advogado, brasileiro, desquitado, residente na praia de Jurerê em Santa Catarina, acaba de ser efetuada a prisão em flagrante do educador comunista Paulo Freire, por incentivo a pedofilia e por ter adotado o ensino da ideologia de gênero nas escolas.

A massa de manobra foi ao delírio. Parecia até final de copa do mundo. Gritos de “Obrigado, meu Deus” e “Viva Ustra” eclodiram pelo ar feito o som das granadas que Roberto Jefferson atirou contra os policiais federais que foram prendê-lo. Mesmo contendo a gargalhada que insistia em trai-lo, Fidel não saiu do personagem e manteve o clima de loucura lá em cima: 

- Agora só falta prender o Karl Marx.

Estefânio deu esperanças:

- Os militares já estão na cola dele. Acabei de receber um informativo no grupo de Whatsapp. O cerco está se fechando. Selva!

As horas vão se passando e aquela multidão de patriotas se mantinha impávida e colossal no seu propósito de anular as eleições e ver as forças armadas intervindo no governo do país. A essa altura, Fidel já tinha se distanciado de Estefânio e se aproximado de um casal de patriotas vestidos com a camisa da Havan, que faziam uma saudação nazista enquanto cantavam o hino nacional. Aquilo já era demais para ele, mas ficaria pior quando exigiram que ele também fizesse o gesto.

- Não vai erguer o braço em saudação à nossa bandeira? – Perguntou o homem.

- Gostaria, mas não posso. Acabei de deslocar o ombro ajudando a espancar um petista que estava infiltrado no nosso meio.

Os olhos da mulher brilharam:

- Nossa! Que heroico! Espancar petistas é a maior prova de amor que um brasileiro pode dar a sua pátria. Ele morreu?

Fidel, sentindo que não poderia frustrar a expectativa daquela cidadã de bem, respondeu:

- Foi levado para o hospital, mas duvido que sobreviva.  

- Uhuul! – Vibrou ela.

O homem logo lhe ofereceu uma cerveja gelada e quis saber mais sobre aquele patriota que havia impressionado a sua mulher.

- Qual a sua graça, meu jovem?

- Olavo Carlos

- Já sei. Em homenagem ao nosso grande professor Olavo de Carvalho? 

- Isso...

A mulher se emociona:

- Vou chorar! Desculpe, mas eu vou chorar! Eu era muito fã do professor Olavo. Ele salvou a minha vida, me libertando do feminismo, do socialismo e do inferno do lesbianismo. 

Já estava bom, mas Fidel ainda quis saber mais detalhes:

- A senhora era lésbica, feminista e socialista? 

O marido tomou a frente e apressou-se em encerrar o assunto:

- Isso é passado. Ela era lésbica porque ainda não tinha experimentado um homem como eu.  Hoje ela está liberta do mal da homossexualidade e do demônio do socialismo. 

A mulher complementa: 

- Hoje eu luto para que as mulheres não deixem de raspar o sovaco, para que a nossa terra volte a ser plana e para que a nossa bandeira jamais seja vermelha. 

E o homem arremata:

-  Brasil acima de tudo! Deus acima de todos!

Ainda sob o efeito das merdas que acabara de ouvir, nosso bravo infiltrado é novamente surpreendido por novos gritos de euforia e debilidade vindos da multidão. Pintou um corre-corre, todos no lugar. Era a Cassia Kiss que acabava de chegar. Vestida de Roberto Jefferson, com uma imagem de Nossa Senhora Aparecida em uma das mãos e com um fuzil disfarçado de guarda-chuva na outra, ela regia aqueles patriotas que, cada vez mais inflamados, se esgoelavam e se alternavam aos gritos de coisas que, para qualquer ser humano normal, pareceriam desconexas. Como: ‘’Morte ao aborto! ” e “Minha filha não vai usar banheiro unissex!”

O grupo que acompanhava a atriz ainda exibia faixas com os dizeres: “Quem matou Odete Roitman? ”, “A Raquel é boa! A Rutinha é má! “, “Somos todos sinhozinho Malta” e “Tieta do agreste – Vagabunda comunista”.  Para Fidel já estava bom. Já tinha história o suficiente para contar no boteco do Joca, enquanto degustava um torresmo a moda da casa e molhava a palavra com uma cerva bem gelada. O dilema agora seria conseguir voltar para a casa com as estradas interditadas pelos bloqueios patrióticos. Cruzou com Estefânio que estava aos pulos e repetia sem parar:

- Conseguimos!  Conseguimos!  Conseguimos!  

A curiosidade de Fidel quis saber o motivo da euforia:

- Quem foi preso agora?

- O Lula. Acabou! Acabou! Acabou!

Fidel saia dali convencido de que a única intervenção necessária ao país era a psiquiátrica, quando um caminhão que ia em direção a zona norte lhe ofereceu carona. 

-  Tá indo pra onde, patriota?

- Méier

- Sobe aí. Te dou uma carona. Vou passar em frente ao Norte Shopping. Te adianta?

- Claro! Valeu!

Quando Fidel se dirigia a porta do carona, foi advertido pelo motorista: 

- Aqui dentro não!  Vai lá no para-brisa. Quero ver se você é patriota mesmo.

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