Um panorama da cena política brasileira e suas perspectivas

Por um lado, um governo federal que não dava os menores indícios de que iria socorrê-la, seja financeiramente seja em matéria de saúde. De outro, os mesmos setores que pregavam a idéia de um estado mínimo [para a população] e que encabeçaram o ataque aos direitos trabalhistas, tentavam ganhar capital político em cima do desgaste de Bolsonaro

(Foto: Reprodução | Reuters)
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Como se sabe, a situação brasileira não anda fácil. A crise sanitária que nos atingiu em março, pela sua magnitude e pela má administração estatal decorrente de uma política antipopular, trouxe consequências para todos os planos da vida do povo brasileiro; que vão das relações interpessoais e econômicas até a política geral do país. Trago nesse artigo uma proposta para pensarmos e agirmos nesta realidade brutal.

Com a chegada do vírus no país começaram os debates e movimentações em torno do que fazer perante ele; tanto na esfera da saúde coletiva, como na economia. De início vimos uma divisão se formando: de um lado o governo antipopular de Jair Bolsonaro e sua base social, negando o tamanho do genocídio que nos atingiria, combatendo ferrenhamente o isolamento social em rede nacional e estimulando manifestações contra as instituições da 5ª república. Do outro, esboçava-se um setor da política brasileira que se mostrava como “apoiadores da ciência”, “a favor do isolamento social”, “defensor da vida” e “democrático”.

Aqui cabe um parêntese sobre a política. Ela não é nada mais do que a expressão de interesses econômicos - gerais e particulares - da sociedade civil. E sendo essa sociedade dividida em classes, são os interesses destas que delimitam as posições dos agrupamentos e alianças.

Utilizando esse raciocínio como base e analisando as declarações dos empresários brasileiros, é possível rasgar o véu que se apresenta superficialmente e afirmar que: o “berro” contra o isolamento social e as instituições da república era a voz de um setor médio da burguesia brasileira, que não tinha capital de giro o suficiente para passar tranquilamente pelo período de quarentena sem grandes prejuízos nos seus lucros, como os varejistas por exemplo; arrastando com eles os donos de estabelecimentos locais. Já a demagogia com a manutenção do isolamento social e a pseudodefesa da democracia foi feita por setores mais abastados dessa classe dominante, como os latifundiários, a grande indústria e o setor financeiro. Setores estes, importante deixar claro, que controlam a maior parte da máquina estatal, devido ao seu poder econômico. 

Ou seja, estávamos diante de um “casos de família” dentro das classes dominantes do país. Onde os únicos [e mais importantes] fatores de coesão entre elas eram [e são] o desprezo para com as classes trabalhadoras e sua avidez por lucro - vide as demissões e suspensões de contrato em massa no país, sustentadas pela MP 963/2020.

A classe trabalhadora e os demais setores populares se viram jogados ao relento no meio de uma disputa pelo controle do Estado alheia a seus interesses. Nessa situação, a classe trabalhadora tende a olhar para si, para suas representações, para seus líderes. Mas o impacto da crise atordoou a todos, inclusive a esses representantes. Vimos um cenário onde trabalhadores iam ao trabalho, com condições já precárias, sem uma estrutura suficiente para a contenção do vírus, muitos deles recebendo a notícia de demissão, suspensão do contrato ou redução do salário, mas seus sindicatos estavam fechados, alguns apenas com home office, e suas direções paralisadas.

Por um lado, um governo federal que não dava os menores indícios de que iria socorrê-la, seja financeiramente seja em matéria de saúde. De outro, os mesmos setores que pregavam a idéia de um estado mínimo [para a população] e que encabeçaram o ataque aos direitos trabalhistas, tentavam ganhar capital político em cima do desgaste de Bolsonaro. 

Agora, que ficou claro que o isolamento social não passou de um sonho para a grande maioria do país, que toda a burguesia brasileira coloca em marcha o plano de “flexibilização da quarentena” e de continuidade dos ataques aos trabalhadores, fica claro para nós que nenhuma dessas alas burguesas atendia ou atende aos reais interesses populares.

Porém, com a mesma inteligência que se dá murro em ponta de faca, setores da “esquerda” nacional como Ciro Gomes, Fernando Haddad e Guilherme Boulos teimam em fazer uma aliança com os burgueses travestidos de “democráticos”; com quem encabeçou o processo de impeachment, atacou as massas populares de todas as formas, plantou o germe do fascismo no país e que se recusa a colocar Bolsonaro pra fora. Estes políticos da esquerda só nos mostram que não aprenderam nada com o processo político do golpe de Estado, depositando todas as suas fichas em meros conchavos eleitorais, e na institucionalidade. Essa aposta está condenada ao fracasso. Pois, por um lado, essa institucionalidade é ferramenta contra o povo, seja para reprimi-lo – como nas manifestações das torcidas organizadas contra o fascismo na Av. Paulista, seja para persuadi-lo com algumas concessões mínimas. E por outro, ela mesma não é ferramenta contra o fascismo, na medida em que não coloca em xeque o regime político fascista em construção por receio da brecha para mobilizações populares que se abriria.

Tendo esse cenário em vista, é tarefa central para todos os partidos, sindicatos e organizações impulsionar a palavra de ordem “Fora Bolsonaro e todos os golpistas!”, deixando claro quem é o inimigo. Como também a construção de um programa que atenda aos interesses populares com reivindicações na linha da recontratação geral dos trabalhadores demitidos em 2020, contra a precarização do trabalho, a voltas às aulas só com a vacinação em massa, investimento no sistema de saúde público e por novas eleições diretas... delimitando assim o conteúdo social que se busca mobilizar.

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