Um povo alicerçado na dignidade

O bloqueio contra Cuba continua duríssimo e é admirável que o Império precise colocar milhões de dólares todo ano para tentar desestabilizar o regime cubano

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Milhares de cubanos se manifestaram no domingo (11), contra a falta de alimentos e remédios, acontecimento que teve grande repercussão na mídia internacional. O país atravessa há anos um criminoso embargo econômico liderado pelos EUA, que dificulta muito o funcionamento normal da economia e o atendimento das necessidades básicas do povo cubano. Os manifestantes reclamaram da falta de liberdade e da piora da situação socioeconômica. Muitos reivindicavam a renúncia do presidente Miguel Díaz-Canel.  

 Ao que se teve notícia morreu uma pessoa na manifestação em Cuba, acontecimento com grande repercussão na mídia comercial. Curiosamente, no mesmo período, houve protestos e manifestações contra o governo na África do Sul, que até dia 15 de julho já havia provocado a morte de 217 pessoas, 2.203 presos e a mobilização de mais de 10 mil soldados, incluindo reservistas convocados para reprimir as manifestações. No entanto, as manifestações cubanas foram mais divulgadas que as ocorridas na África do Sul, muito mais relevantes do ponto de vista jornalístico.  

 Ainda que as informações sobre Cuba sejam escassas e venham sempre muito deturpadas, é certo que as brutais sanções comerciais dos Estados Unidos tornam a vida do povo cubano muito difícil. As sanções, que sempre foram muito duras, pioraram bastante durante o governo Trump. Até o momento não há sinais de que o governo Joe Biden irá suspender as referidas sanções. Pelo contrário, segundo informações do governo cubano, o governo de Biden, além de manter o bloqueio, vem destinando milhões de dólares para o financiamento da subversão do regime cubano.   

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 Há fortes indicações de que, novamente, os protestos contaram com coordenação a partir de grupos localizados nos EUA. Mas tais grupos tiveram uma resposta imediata do povo cubano que saiu às ruas para defender as conquistas da Revolução na saúde, segurança alimentar, educação e outros, que têm sido mantidas à duríssimas penas.  

 No Brasil, impressiona o alinhamento da grande mídia com as posições dos EUA. Divulgados os acontecimentos em Cuba, a imprensa comercial saiu imediatamente em defesa das posições dos Estados Unidos. A imprensa, e outros setores conservadores, se apressam em concordar com as intervenções dos EUA, país que financia as manifestações dos chamados gusanos. Para estes segmentos o atual regime político cubano deve ser eliminado e substituído por um regime capitalista subordinado ao imperialismo internacional. Não deixa de ser curioso que o grupo que apoiou o golpe de 2016 e ajudou a eleger Bolsonaro no Brasil, critique a suposta falta de democracia em Cuba.  

 Algumas análises registram que, nas manifestações recentes não haviam somente os agentes patrocinados pelos EUA para sabotar o regime cubano, conhecidos em Cuba como “gusanos”. É muito possível que seja mesmo verdade, já que as consequências do bloqueio económico, comercial e financeiro imposto pelo Governo dos Estados Unidos da América contra o país caribenho por 60 anos, são terríveis. Esse bloqueio, que tinha sido em parte aliviado por Obama, foi gravemente aprofundado por Donald Trump em 2017, através do “Memorando Presidencial de Segurança Nacional sobre o Fortalecimento da Política dos Estados Unidos para com Cuba”. Com a nova orientação, Trump recrudesceu o bloqueio contra Cuba e revogou algumas medidas do antecessor, que haviam aliviado alguns aspectos do bloqueio, especialmente relativos à viagens e ao comércio.  

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 O bloqueio contra Cuba continua duríssimo e é admirável que o Império precise colocar milhões de dólares todo ano para tentar desestabilizar o regime cubano. Algumas das medidas que aliviavam o embargo, anunciadas por Barack Obama, na prática ficaram só no papel, nunca foram concretizadas. Ao que se sabe, este foi o caso da permissão dada à Cuba, em março de 2016, que permitia o país utilizar o dólar estadunidense nas suas transações internacionais e possibilitava que bancos estadunidenses oferecessem créditos aos importadores cubanos para adquirir produtos estadunidenses autorizados. Ao que se sabe, Cuba jamais conseguiu utilizar esta nova regulamentação e fazer qualquer operação internacional utilizando dólares.  

  As medidas adotadas pelos EUA contra Cuba, assim como a retórica agressiva, levam a que empresas e países no mundo inteiro fiquem temerosos de relacionarem-se com Cuba. Os prejuízos econômicos acumulados pelo bloqueio, em seis décadas de duração, são praticamente incalculáveis (mas o governo cubano tem cálculos sobre isso). Os EUA, ao não se relacionar com Cuba e proibir que países aliados o façam, inviabiliza o desenvolvimento econômico do país vizinho. O bloqueio representa uma violação absoluta e contínua dos direitos humanos de toda a população de Cuba. Ao impingir este tipo de restrição à Cuba, os Estados Unidos estão ignorando dezenas de resoluções estabelecidas pela comunidade internacional na Assembleia-Geral das Nações Unidas, cujos participantes pedem há décadas o fim do bloqueio.  

 É ilusão achar que o governo Biden irá mudar a política dos EUA em relação à Ilha de Cuba. A linha da política internacional de Biden, pode ser medida pela indicação que fez para diretor da Agência Central de Inteligência (CIA), William Burns. Burns afirmou a um comitê do Senado que vê a competição com a China, e a contraposição à sua liderança "antagonista e predatória", como essencial para a segurança nacional norte-americana. Disse ainda: "Superar a China será essencial para nossa segurança nacional nos dias à frente". Para ele, embora os Estados Unidos possam cooperar com a China em questões fundamentais, como a não proliferação de armas nucleares, o gigante asiático é um "adversário formidável e autoritário". Recentemente William J. Burns, teve uma reunião com Bolsonaro, não prevista na agenda oficial, o que revela o tipo de alinhamento que Biden pretende manter na região.  

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 Quem conhece o modus operandi dos EUA no mundo todo, sabe o que significam as manifestações em Cuba. Recentemente, nós brasileiros pudemos sentir na carne, como funciona na prática essa forma de operar do governo estadunidense. A Lava Jato foi uma operação montada fora do país, com a coordenação decisiva dos EUA, para perpetrar o golpe de 2016. Toda a operação nada tinha a ver com combate à corrupção, mas foi uma tramoia dos EUA visando dar as cartas da política no país e atingir seus objetivos econômicos e políticos. O que se sabe é que os Estados Unidos para continuar na condição de potência, depende crescentemente dos recursos naturais da América Latina e, por esta razão, não quer perder o controle político e econômico da Região.  

 Os EUA fazem qualquer coisa para preservar o seu poderio econômico e político. Os procedimentos ilegais utilizados na operação Lava Jato, prisões arbitrárias, vazamento seletivo de delações de criminosos, desrespeito aos princípios mais elementares da democracia (como a presunção de inocência), e a mobilização da opinião pública contra pessoas delatadas, são técnicas largamente utilizadas pela CIA em golpes e sabotagens mundo afora. Cuba conhece muito bem esta forma de agir, desde sempre.  

 Cuba representa uma lição para todo o mundo, de luta sem tréguas pela soberania e dignidade. Há muito anos, o povo cubano começou a trabalhar por sua libertação do jugo colonial e, posteriormente, da dominação imperial. As lutas populares e revolucionárias do povo cubano vêm de longe, num tempo estimado em mais ou menos 150 anos. Sem fazer esforço, vemos as muitas qualidades do povo cubano. Mas penso que a que mais se destaca é a coragem. Coragem para sair da condição de “prostíbulo” da burguesia estadunidense, para a condição de uma nação admirável, que resolveu os principais problemas do seu povo, e que, apesar de ser um país muito pequeno, auxilia, sem pedir nada em troca, populações do mundo todo, principalmente na área de saúde e qualidade de vida. Seja com o envio de abnegados profissionais da saúde, seja com o desenvolvimento de pesquisas fundamentais na área de biotecnologia.  

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 Em relação à Cuba o problema não é tanto econômico, dado o pequeno volume de riqueza mobilizada pelo país, em relação ao Império vizinho. O problema é que a valentia, determinação e honradez do povo cubano são um péssimo exemplo para os povos de todo o mundo, especialmente os latino americanos. 

 

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