Uma carta a Zé Dirceu

Quero lhe dizer que sua luta por esse país me inspira; quero lhe dizer que desejo ter um pouco de sua coragem, de sua tenacidade e de sua força para poder movimentar e mudar as estruturas conceituais e escravagista que tanto nos atrasam

Ex-ministro José Dirceu
Ex-ministro José Dirceu (Foto: Agência Brasil)

Quiseram a vida e o destino que nossos caminhos se cruzassem em um momento muito duro na vida de nosso país, prenúncio desse tempo sombrio em que vivemos.

Hoje, mais do que nunca, acredito que devemos nos inspirar em sua luta e na de todos os companheiros e companheiras que deram suas vidas para que o Brasil pudesse ser um país para todos.

A entrega de sua vida e sua dedicação, juntamente com o Presidente Lula, com Gushiken, com José Genuíno e com tantos outros para consolidar a democracia no Brasil e para estendê-la a todos os brasileiros e brasileiras de todas as classes sociais foram a prova de que é possível sermos uma nação, um só povo, um país para todos.

No entanto, a oligarquia brasileira e seus asseclas, que infestam as instituições públicas - principalmente, o Sistema de Justiça - com todos os seus preconceitos e recalques, mais uma vez, impedem a construção de um Brasil para todos, pois entregam nossas riquezas, destroem, matam e inviabilizam o nosso futuro como nação próspera e equitativa.

É chocante ver essa gente usar todo o aparato estatal e todos seus recursos em benefício próprio. É assustadora a crença dessa oligarquia de que possui um direito divino/meritocrático sobre o País, como se todos que aqui habitam tivessem a obrigação de servi-la, pois o Brasil e suas riquezas estão aqui para que apenas ela possa desfrutar.

Estamos, hoje, diante de governos e instituições usadas por organizações criminosas. As denúncias dos crimes praticados por esses meliantes, os quais, como agentes do Estado, foram alçados a heróis nacionais pela mídia tradicional, são ignoradas e minimizadas por essa mesma mídia (PIG, como chamava o saudoso PHA), demonstrando e escancarando o fato de que sempre esteve a serviço dos interesses da oligarquia tóxica neste país.

Vivemos a era da mediocridade, dos cínicos, da inteligência reduzida à reprodução de conteúdo, do decorar de apostilas, da negação do pensamento e da liberdade de ser. 

Vivemos o tempo sombrio daqueles que defendem o extermínio de seres humanos, que defendem e praticam a violência para submeter o outro, para exercerem o que chamam de poder por meio do medo e do ódio.

Essa gente nos retira direitos, extirpa a vida de crianças e jovens, prega o extermínio da população negra e pobre. Prega o ódio entre concidadãos!

Hoje, brasileiros odeiam brasileiros por pertencerem a classes sociais diferentes, por pensarem e desejarem diferente, simplesmente, odeiam a existência do outro.

A oligarquia que assumiu, novamente, o Estado prega o ódio e desenvolve em nossa sociedade o sentimento de ódio a nós mesmos, prega como “pastores” a ideologia da violência, do medo e do ódio. 

Os “pregadores” do caos usaram o Sistema de Justiça para chegar ao poder, para golpear o Estado brasileiro por meio de uma farsesca eleição, a qual só foi possível, em virtude da atuação direta de pessoas que estão no seio do Estado como servidores públicos. 

E ainda usam esse Sistema de Justiça corrompido para manterem presos aqueles que poderiam mudar o destino que eles querem nos impor. Destino que nos impõem propagando a ideia de que devemos odiar nosso país, nossa gente, nossa cultura e odiar até a nós mesmos.

Acredito que não é mais possível permitir o avanço dessa ideologia neofascista que está posta. Não podemos mais permitir que os poderes concedidos às instituições pela Constituição de 1988, para protegerem os cidadãos, a sociedade e o País estejam nas mãos de pessoas que os sequestraram para atenderem aos interesses de corporações, das oligarquias e, ainda, possibilitando a ascensão de neofascistas ao poder.

É preciso lutar por uma maior participação da população, por um exercício real da cidadania. Só será possível mudar essa mentalidade tóxica e nociva que tomou conta do Estado brasileiro se assumirmos nossas responsabilidades e agirmos contra o que está posto neste momento da história no Brasil.

A democracia não pode se resumir a votar a cada quatro anos, pois democracia não se faz apenas com voto. Precisamos que nossa sociedade, as comunidades, os sindicatos e as associações atuem mais diretamente na fiscalização do Estado e de seus servidores, que devem servir aos cidadãos e atuar em seu benefício. 

Querido Zé Dirceu, diante de tudo que está posto, quero lhe dizer que sua luta por esse país me inspira; quero lhe dizer que desejo ter um pouco de sua coragem, de sua tenacidade e de sua força para poder movimentar e mudar as estruturas conceituais e escravagista que tanto nos atrasam.

É preciso mudar, combater essa cultura do privilégio que permeia toda a sociedade brasileira.

Companheiro, a luta que me você me ensinou é a luta pela igualdade dos direitos, das oportunidades; é a luta por todas e por todos, pelo País, por todos nós, independentemente de quem sejamos e de nossas crenças.

Sua luta é a minha e de muitos nesse país também; é a luta pelo povo pelo Brasil!

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