Uma esquerda insensível

Já são 420 mil mortes na conta da direita golpista e de seus cúmplices, que fecharam os sindicatos e mandaram o povo ficar em casa

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Depois de ver mais de 420 mil corpos enterrados sob solo brasileiro, a esquerda pequeno-burguesa, aquela mesma que inventou o “erundinamóvel” para fazer campanha eleitoral durante a pandemia, e até anunciou que havia se infectado na desesperada corrida por votos, ainda se encontra escondida de baixo da cama. Vez ou outra, quando acha que está a sós, ela ainda se levanta, e, de pijama, aparece em uma live com algum bandido como Fernando Henrique Cardoso ou João Doria.

O “fique em casa”, que já está indo para o seu segundo aniversário, já ultrapassou todas as fases de uma discussão honesta. O argumento de que é preciso ficar trancado em casa para evitar a transmissão do vírus caiu por terra a partir do momento em que os “cientistas” se calaram diante da reabertura da economia. No fim das contas, o “fique em casa”, em vigor há mais de um ano, só serviu para duas coisas: reprimir os pequenos comerciantes, que já eram desempregados ignorados pelas estatísticas do IBGE, e aterrorizar aqueles que querem protestar contra o regime político; porque milhões de trabalhadores (ainda empregados ou subempregados) continuam saindo todos os dias de casa para tentar garantir o sustento de suas famílias.

É uma campanha, portanto, abertamente reacionária, dirigida unicamente contra os setores explorados. E que, ainda por cima, serve de propaganda para as autoridades que não moveram uma palha para enfrentar a crise sanitária. Para impedir que as 420 mil mortes deem lugar a muitos outras centenas de milhares de mortos, bastaria, portanto, que a esquerda não se manifestasse e que os comerciantes se trancafiassem em suas dispensas vazias! Ao Estado, caberia apenas guardar o dinheiro dos capitalistas…

Para entender esse comportamento criminoso da esquerda de ficar em casa enquanto o mundo vem abaixo, pode-se recorrer a todo tipo de explicação. É inegável, por exemplo, a influência da política de colaboração de classes, que arrastou todo um setor da esquerda nacional para a defesa dos governadores e da direita nacional em troca da ilusão de uma vitória das “luzes” contra as “trevas”. Tem de tudo: ignorância, cretinismo, oportunismo, ingenuidade. Tudo aquilo, em resumo, que está em oposição àquilo que brota do movimento operário: um programa classista e independente e a luta intransigente por esse programa.

Chamo a atenção, neste artigo, para um dos vários aspectos da loucura da esquerda pequeno-burguesa histérica: a sua mais absoluta insensibilidade. E há razões para isso: como a pequena burguesia não é uma classe social bem definida, seus elementos não possuem interesses coletivos bem definidos. O egoísmo é, portanto, o sentimento predominante desse setor. Em uma situação de crise, a pequena burguesia entra em uma espiral de desespero e se torna ainda mais insensível. Foi o que aconteceu na Alemanha nazista e é o que acontece hoje no Brasil: na histeria, a classe média apoiou o massacre daqueles que eram apontados como os culpados pela situação econômica e hoje apoia que centenas de milhares morram para que possa, em tese, fazer seu isolamento social.

Mas se a pequena burguesia é insensível, ela é, também, incrivelmente hipócrita. Pois, para viver em um mundo cheio de contradições em que você é cúmplice das mazelas, nada melhor do que a hipocrisia para que aquilo que é podre pareça minimamente cheiroso. Assim, mesmo a pequena burguesia ignorando completamente a morte de quase meio milhão de pessoas, ela procura, vez ou outra, uma forma de mascarar sua insensibilidade.

Na última semana, vimos um desses grotescos espetáculos hipócritas. A Rede Globo, uma das principais responsáveis pelo genocídio durante a crise sanitária, resolveu, por motivos puramente comerciais, organizar uma campanha em torno do comediante Paulo Gustavo, severamente infectado pelo coronavírus. O comediante acabou falecendo e recebeu homenagens do mundo inteiro, bem como elogios de que seria uma das maiores figuras de sua geração, um marco para a cultura nacional etc. Obviamente, não se tratava de nada disso: a Globo, que muito faturou com os filmes encenados por Paulo Gustavo, viu em sua morte uma última grande oportunidade de fazer marketing em cima de sua obra. Isto é, não bastasse pisar em cima dos milhares de brasileiros que morreram durante a pandemia, apoiando a política genocida da direita, a Globo ainda resolveu pisar dobrado em cima de seu próprio funcionário para extrair um último trocado.

Aquilo que era para ser denunciado como algo nojento, como a expressão da podridão da imprensa burguesa, caiu como uma luva para a pequena burguesia hipócrita. Já que não chorou pelos 420 mil mortos de então, resolveu chorar todas as suas lágrimas para uma única pessoa, somente por que foi assim que a Globo quis. Não se trata, nem mesmo, de uma homenagem ao ator, mas tão somente de propaganda para a Globo. Afinal, como a esquerda pequeno-burguesa aprendeu a estalar os chicotes para todo aquele que o Fantástico acusa de ser criminoso, agora também adquiriu o hábito de só levar flores para os funerais que a Família Marinho patrocina.

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