“Vamos abraçar o Bar do Alemão”: o templo do samba não pode fechar

"Não é comum isso, mas o título desta coluna foi dado pelo próprio entrevistado, o compositor Eduardo Gudin, dono do cinquentenário Bar do Alemão da avenida Antártica 544, o último velho templo do samba na noite paulistana, com música ao vivo todos os dias", escreve o jornalista Ricardo Kotscho

(Foto: Chico Caruso)

Por Ricardo Kotscho, no Balaio do Kotscho e para o Jornalistas pela Democracia

Não é comum isso, mas o título desta coluna foi dado pelo próprio entrevistado, o compositor Eduardo Gudin, dono do cinquentenário Bar do Alemão da avenida Antártica 544, o último velho templo do samba na noite paulistana, com música ao vivo todos os dias.

Ao final da nossa conversa de quase duas horas sobre a história e o destino deste reduto de grandes artistas da MPB, Gudin estava bastante emocionado diante da repercussão da notícia dada por Monica Bergamo, na quinta-feira, dia 10, sobre o iminente óbito do estabelecimento.

No sábado seguinte, a freguesia fiel lotou o bar para fazer uma “assembléia”, convocada pelo jornalista Luis Nassif, também mestre do bandolim na roda de chorinho.

Mas esse amor antigo, onde a nossa melhor música entrava pelas madrugadas, já tem dia marcado para acabar: o próximo dia 14 de novembro.

Gudin tomou esta decisão não pela queda de movimento, que assola os bares paulistanos, nem por dívidas ou atraso de salários, mas porque está cansado de dar murro em ponta de faca e quer se dedicar mais à sua carreira de compositor, que ficou em segundo plano desde que assumiu o Alemão.

Antes de se tornar dono, o compositor de “O importante é que nossa emoção sobreviva”,”Lá se vão meus anéis”, “Maior é Deus”, e mais de cem obras em parceria com Paulo César Pinheiro, era ao mesmo tempo freguês e animador do pedaço para onde levava seus amigos artistas, os grandes nomes da MPB dos anos 70, 80, 90, e de sempre.

Beth Carvalho, MPB4, Nelson Cavaquinho, Cartola, Adoniram Barbosa, Paulo Vanzolini, Vinicius de Moraes, Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Carlinhos Vergueiro, Arrigo Barnabé, além de Gudin e Pinheiro, são alguns dos artistas que já se apresentaram nas mesas do Alemão, onde davam canjas antológicas em rodas de samba e de chorinho improvisadas.

Em 2003, ele ficou sabendo pelo amigo Flávio Chaves da morte do fundador, Dagoberto Caldas Marques, e que seu filho, Daguinho, que não era do ramo, estava decidido a fechar o bar.

“Eu não tenho vocação para comerciante, mas não queria que fechasse o bar onde está na parede a capa do meu primeiro disco”, lembra Gudin.

Sentado na mesa junto à entrada, onde toma refrigerante e come um bauru, ele aponta para a foto de capa do disco produzido por Fernando Faro para a gravadora Odeon, em 1973.

É uma cena típica do Alemão daqueles tempos, a grande mesa redonda em frente à chopeira transformada em palco iluminado pelas estrelas da MPB.

Gudin e Chaves criaram coragem e resolveram comprar o bar em sociedade, e a primeira morte do Alemão foi adiada.

“Quando pegamos o bar, o movimento estava fraco, mas em pouco tempo trouxe os amigos de volta e o Alemão renasceu. O bar virou uma festa de novo, com momentos muito, muito bons, um elenco variado, o pessoal cantando junto. Toda noite tinha música ao vivo, como até hoje, misturando os grandes nomes com jovens que estavam começando”.

Sou testemunha ocular e etílica dessa época.

Jornalistas da TV Cultura, da Editora Abril e do Estadão, onde eu trabalhava, iam ao Alemão para comemorar conquistas ou chorar as mágoas, quando os “passaralhos” sobrevoavam as redações, como chamávamos as demissões em massa.

Nunca vou esquecer da noite em que Audálio Dantas, José Hamilton Ribeiro e eu festejamos ali no mezanino, com famílias e amigos, a entrega do Troféu Especial de Imprensa da ONU concedido a cinco jornalistas brasileiros (os outros são Caco Barcellos e Henfil, in memoriam) pela celebração dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Tímido, sempre falando baixo, quase pedindo desculpas, o dono-compositor estava sempre lá, dividia alegrias e tristezas, indo de mesa em mesa para saber das últimas novidades.

Era ali que eu sempre encontrava meu velho amigo Pelão, o nome artístico de João Carlos Botezelli, hoje fora de combate, um dos maiores produtores musicais do país, meu colega de farras na adolescência nas férias em Caraguatatuba.

Grandão e um pouco mais velho, falando alto, Pelão era o líder de um grupo de pivetes que roubava galinhas e jogava sabão em pó na fonte luminosa da cidade, para desespero do prefeito, além de escrever poesias para as meninas em troca de um chope.

Produtor dos festivais musicais universitários da falecida TV Tupi, onde Gudin se apresentou (era estudante de engenharia na Faap, curso que não concluiu), Pelão depois foi para a TV Globo e produziu para as maiores gravadoras do país discos históricos com as grandes estrelas do Bar do Alemão.

Dias atrás, ele fez 77 anos, oferecendo em seu apartamento uma bela feijoada aos velhos amigos, com seu falso mau humor de garotão que nunca fica adulto, e o jeito peculiar de segurar o copo de chope com o dedão e o mindinho, uma figuraça.

Entre os personagens mais característicos do Bar do Alemão, estavam os irmãos gêmeos Caruso, cartunistas que ali encontravam um farto material.

Paulo, o “mais velho”, como ele gosta de lembrar, é o autor da bela ilustração desta página especial do Balaio, dedicada a quem faz a noite de São Paulo menos triste.

Quer dizer, fazia. Em 2015, “quando ainda dava para levar tudo direitinho”, nas palavras de Gudin, a festa acabou.

“Naquele ano eu notei aqui que o Brasil começou a mudar. O pessoal ficou de mau humor. Percebi uma coisa de gente querendo parar o país para tirar a Dilma. O que poderia estar ruim se multiplicou por 20, 30, e de lá para cá as coisas só foram piorando cada vez mais”.

Até aquele ano, a atração especial se apresentava depois da meia noite. Mas essa passou a ser a hora em que muitos já fechavam a conta.

Gudin teve que antecipar os horários. Muita gente deixou de sair de casa à noite, não havia mais motivo nem clima para festejar nada. A noite, a boemia, a alegria foi tudo acabando.

Na parede onde ficava a cozinha, antes da reforma feita dois anos atrás, que ampliou o salão, mas deixou tudo igual, ainda está escrito o lema musical de Gudin _ “O importante é que nossa emoção sobreviva”.

Inspirado nisso, um grupo de artistas e frequentadores está se organizando nas redes sociais para não deixar a emoção morrer.

No sábado, vai ter outra “assembléia” para discutir formas de manter o Alemão funcionando, mesmo sem Gudin no comando.

O empresário Walter Appel, velho amigo do compositor, tem ajudado na operação, mas a ideia é formar uma associação sem fins lucrativos que assuma a administração, como se fosse um clube.

“Senti que a minha carreira de músico precisava de mim. Nunca tive tanto show, reconhecimento, novos projetos, mas me faltava tempo. Agora, se encontrarem uma solução, vou querer ser apenas mais um, como eu era quando comecei a frequentar o bar. Pessoas sérias estão se mobilizando. Até o Paulinho da Violla me ligou. Se o bar é de todo mundo, então que seja de verdade. Ou isso, ou dia 14 o bar fecha”.

Enquanto isso não acontece, o Alemão continua abrindo todos os dias, às 18 horas, com couvert artístico de R$ 15, bons petiscos alemães e chope da melhor qualidade tirado na pressão.

Na quinta, quando estive lá, sempre é dia de “Canção Presente”, com novos músicos de diferentes pontos do país. Hoje, como toda sexta, tem MPB com o elenco fixo da casa.

Não se assustem se encontrarem o Gudin andando de bengala, com dificuldade.

Esta semana ele sofreu uma torção no joelho. Que faaaase, como diria o Milton Leite.

Vida que segue.

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